segunda-feira, 15 de outubro de 2018

A História de Israel e Judá na pesquisa atual I

:. A História de Israel e Judá na pesquisa atual I
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TOBOLOWSKY, A. Israelite and Judahite History in Contemporary Theoretical Approaches. Currents in Biblical Research, Vol. 17(1), 2018, p. 33-58.

Este artigo de Andrew Tobolowsky, História israelita e judaíta em abordagens acadêmicas contemporâneas, analisa a evolução do estudo das histórias de Israel e Judá, com ênfase nos últimos dez anos. Durante esse período tem havido um interesse crescente em evidências extrabíblicas como o principal meio de construir histórias abrangentes, e acontece um renascimento do interesse em teorias pós-modernas. Este estudo oferece uma discussão geral sobre as tendências da última década, considerando a possibilidade dos autores judaítas só terem assumido uma identidade israelita após a queda de Israel [= reino do norte]. Depois de mostrar as principais tendências nos estudos da Bíblia e da História de Israel de modo genérico, o autor aborda o período pré-monárquico, a monarquia unida, os dois reinos de Israel e Judá e o exílio babilônico e, por fim, a época persa.

This article surveys developments in the study of the histories of ancient Israel and Judah with a focus on the last ten years. Over that period there has been an increased focus on extrabiblical evidence, over biblical text, as the primary means of constructing comprehensive histories, and a revival of interest in post-modern and linguistic-turn theories with respect to establishing what kinds of histories should be written. This study offers a general discussion of the last decade’s trends; an inquiry into the possibility that Judahite authors only assumed an Israelite identity after the fall of Israel; and an era-by-era investigation of particular developments in how scholars think about the various traditional periods of Israelite and Judahite history. The latter inquiry spans the pre-monarchical period to the Persian period.

Andrew Tobolowsky: Visiting Assistant Professor at the College of William and Mary in Williamsburg, Virginia, USA.

Sempre que o assunto tiver sido tratado em minha página, Ayrton's Biblical Page, ou neste blog, Observatório Bíblico, colocarei um link. As principais obras citadas terão links para a Amazon.com.br. O texto em português é um resumo e uma tradução livre minha. O texto em inglês na parte final do post é citação do artigo. A publicação será feita em 5 postagens.

Andrew Tobolowsky

1. Principais tendências no estudo da Bíblia e da História de Israel - Major Trends in the Study of the Bible and History

O autor começa explicando que muito do que está acontecendo hoje na pesquisa da história de Israel e Judá (ou seja, "História de Israel") pode ser entendido como consequência e evolução do debate dos anos 90 do século XX entre "minimalistas", aqui representados por estudos de Davies, Thompson, Lemche e Whitelam, e "maximalistas", aqui representados por uma obra de Provan, Long e Longman, A Biblical History of Israel, 2003 (Uma história bíblica de Israel, São Paulo: Vida Nova, 2016).

Sobre a posição "maximalista" ele comenta que não é muito comum ver hoje em dia uma defesa explícita da confiabilidade dos textos bíblicos como base para a história, mas há autores que defendem posições "positivistas", dizendo, por exemplo, como Amihai Mazar, em 2010, que a Obra Histórica Deuteronomista pode ter se servido de fontes antigas e preservado núcleos de relatos vindos de templos e palácios.

Já sobre o "minimalismo" ele diz que a preferência dada aos dados extrabíblicos, em detrimento dos textos bíblicos, faz com as "histórias de Israel" sejam mais "científicas". "Teorias e dados" ocupam, assim, o lugar de "histórias e fontes". E o controle externo das fontes se torna mais necessário. A. Knauf e P. Guillaume escreveram uma abrangente história de Israel nesse sentido em 2015.

Mas há uma "terceira via" nas pesquisas atuais, inspirada por teorias pós-modernas da história e novas perspectivas da linguística. Há teorias pós-modernas que dizem ser impossível, de fato, escrever uma história convencional de Israel. Mas pode ser possível escrever "histórias" e não uma história de Israel. Mesmo não havendo "história", ainda pode haver "histórias", ou pelo menos, narrativas contendo fatos precisos e sentidos históricos. O fato da Bíblia estar mais próxima da literatura não a torna menos representativa de realidades passadas, explica Hans M. Barstad em 2008.

Resumindo as três abordagens acima:
1. Há um empenho em refinar os métodos tradicionais de narrar o passado israelita
2. Há um empenho em recontar o passado israelita através de "meios científicos"
3. Há um empenho em descobrir tipos alternativos de histórias nos textos bíblicos

Estas três posturas fornecem, genericamente, a geografia das abordagens históricas contemporâneas. E entre elas ainda não há vencedor claro.

Muitos estudiosos, talvez a maioria, continuam a argumentar que a acessibilidade básica de uma visão real do passado ainda é uma fronteira que vale a pena. Muitos que acreditam nisto hoje também acreditam que o texto bíblico pode não ser a melhor maneira de acessá-lo. E muitos reconhecem as preocupações de todas as três abordagens ao tentar oferecer histórias novas, mas tradicionalmente estruturadas.

O esforço de Liverani, 2003 [Para além da Bíblia: história antiga de Israel. São Paulo: Loyola/Paulus, 2008], que percorre os grandes tópicos políticos dos vários períodos, mas também explora as dimensões da "história inventada", é um exemplo importante dessa tendência. Assim também é o enfoque de Megan Bishop Moore e Brad E. Kelle em 2011.

Em outros casos, no entanto, historiadores influenciados por preocupações pós-modernas começaram, de fato, a se concentrar diretamente nas razões pelas quais uma determinada história está codificada em textos bíblicos e o que isso significa.

Um estudo de 2013 de Reinhard Gregor Kratz, por exemplo, explora as ramificações do status da história bíblica como "história sagrada", produzida por razões baseadas em contextos sagrados específicos.

Uma coleção de ensaios de Giovanni Garbini, um pouco mais antiga, de 2003, também explora o significado da possibilidade de que as raízes da visão bíblica da história estejam no período pós-exílico.

A recente investigação de Ian D. Wilson, de 2016, sobre realeza e memória na antiga Judeia traça este curso, explicitamente abordando a natureza do projeto de memória do período persa como uma força na criação da visão bíblica do passado.

Enquanto o estudo de Daniel Pioske, de 2015, Davi de Jerusalém: entre memória e história, explora o que a relação entre espaço físico e memória ao longo do tempo significa para a nossa apreciação das realidades passadas.

Outros, como a investigação de Carol Meyers sobre as mulheres israelitas, de 2013, ou o estudo de Rainer Kessler, de 2006 (História social do antigo Israel. São Paulo: Paulinas, 2010) sobre a história social israelita, continuam a investigar histórias que ainda não foram adequadamente contadas e que habitualmente foram obscurecidas por abordagens tradicionais do passado israelita.

TOBOLOWSKY, A. Israelite and Judahite History in Contemporary Theoretical Approaches. Currents in Biblical Research, Vol. 17(1), 2018, p. 33-58.


To a certain extent, much of what has happened in the field of Israelite and Judahite history in recent years can be understood as an evolution of the debate in the 1990s between ‘minimalists’ and ‘maximalists’. These are designations that refer essentially to the extent the biblical text itself is supposed to be useful to reconstructing history. Whenever references are made to ‘minimalists’, it is usually scholars such as Davies, Thompson, Lemche, and Whitelam who are being indicated (...) Meanwhile, even today, some scholars still pursue what we might call ‘maximalist’ histories, as in the relatively recent study of Provan, Long, and Longman, A Biblical History of Israel (2003).

It is not particularly common to see an explicit defense of the reliability of the biblical account of quite this sort these days, but many scholars certainly do continue to embrace what we might call ‘positivist’ positions—that biblical traditions generally encode the realities of the periods they describe in some way—as in Mazar’s suggestion that ‘the most justified’ view is the one that holds that the Deuteronomistic History ‘preserved kernels of ancient texts and realities... components of geo-political and socio-economic realia... [and that] the authors and redactors must have utilized early source materials, such as temple and palace libraries and archives’ (2010: 29).

The minimalist position, by contrast, may be said to be represented by so‐called scientific histories of ancient Israel, in which the biblical account at least takes a backseat to the supposedly harder—therefore more ‘scientific’—extrabiblical evidence. In these studies, as Knauf recently put it, ‘data and theories’ take the place of ‘histories and sources’ (2011: 49). Knauf and Guillaume recently produced a new comprehensive history of Israel along these lines (2016), and most recent histories are at least influenced by the need for external controls. Therefore, it is the case now as it was twenty years ago that the major vectors of inquiry into ancient Israelite history are how much or how little to believe biblical texts, and how to privilege biblical or extrabiblical evidence respectively.

There is, however, now a ‘third way’, so to speak, in contemporary inquiries into Israelite history that is essentially inspired by post-modern and linguistic-turn related theories of history (...) Post‐modern theories suggest, in a term specifically used by Moore, Barstad, and Becking, that writing a conventional history of Israel might actually be ‘impossible’ (Moore 2006: 9; Barstad 2008: 3; Becking 2011: 4). However, as at least Moore and Barstad acknowledge, we must be very specific about what it means to say that writing ‘history’ may have become impossible, and the use of ‘history’ rather than ‘histories’ is instructive to this end (...) There is no ‘history’; there may yet be ‘histories’, or at least, narratives containing both accurate facts and historical understandings (...) Or, as Barstad puts it, ‘[t]he fact that the Bible has come much closer to literature...does not necessarily make it less “historical”, less representing past reality.

At present, then, efforts to refine traditional methods of relating the Israelite past; efforts to retell the Israelite past through ‘scientific means’; and efforts to discover alternate kinds of histories within biblical texts collectively provide the geography of contemporary historical approaches. And among them, there is as yet no clear winner. Many scholars, perhaps most, continue to argue that the basic accessibility of a real vision of the past is still a worthwhile frontier. Many who believe this way today also believe that the biblical text may not be the best way to access it. And many acknowledge the concerns of all three approaches while attempting to offer new but traditionally structured histories. Liverani’s effort, which pursues the grand political threads of the various periods but also explores the dimensions of ‘invented history’ at some length, is an important example of this trend (2005). So is Moore and Kelle’s effort, which looks at the traditional periodization largely through the lens of trends in the study of Israelite history (2011).

In other cases, however, would-be-historians influenced by post‐modern concerns have indeed begun to focus quite directly on whose history is encoded in biblical texts and what that means—a distinctly post‐modern concern. A 2013 study by Reinhard Kratz, for example, translated into English in 2016, explores the ramifications of the status of biblical history as ‘sacred history’, produced for reasons based in specific sacred contexts (2013; 2016). A slightly earlier col-ection of essays by Garbini also explores the meaning of the possibility that the roots of the biblical vision of history lie in the post-exilic period (2003). Wilson’s recent investigation of Kingship and Memory in Ancient Judah plots this course by explicitly addressing the nature of the Persian-period memory project as a force in creating the biblical vision of the past, while Pioske’s study, David’s Jerusalem: Between Memory and History, explores what the relationship between physical space and memory over time means for our appreciation of past realities (Wilson 2016; Pioske 2015). Others, as in Meyers’s inquiry into ancient Israelite women or Kessler’s study of Israelite social history, continue to pursue histories that have not yet been adequately told and that have habitually been obscured by traditional approaches to the Israelite past (Meyers 2013; Kessler 2006; 2008).

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