segunda-feira, 24 de dezembro de 2018

Como 25 de dezembro se tornou Natal

As narrativas sobre Jesus falam de opressão humana e misericórdia divina, de violência humana e amor divino. São narrativas que afirmam que Deus se tornou humano na forma de alguém que é vulnerável, pobre e refugiado, a fim de desvendar a injustiça do poder tirânico (...) Jesus também era um bebê de pele morena cuja família, no Oriente Médio, foi desalojada de sua terra tomada pela violência política.

The Jesus story, in its historical context, is one of human terror and divine mercy, of human abuse and divine love. It is a story that claims God became human in the form of one who is vulnerable, poor and displaced in order to unveil the injustice of tyrannical power (...) He too was a brown-skinned baby whose Middle-Eastern family was displaced due to terror and political turmoil (Robyn J. Whitaker, What history really tells us about the birth of Jesus. The Conversation, December 21, 2017).

Presépio

Recomendo a leitura do artigo de Andrew McGowan, publicado em Bible History Daily em 22/12/2018:

How December 25 Became Christmas - Como foi que 25 de dezembro se tornou Natal

Em 25 de dezembro, os cristãos de todo o mundo se reúnem para celebrar o nascimento de Jesus. Canções alegres, liturgias especiais, presentes elegantemente embrulhados, ceias festivas - tudo isto caracteriza a festa atual. Mas como surgiu a festa de Natal? Como o dia 25 de dezembro passou a ser associado ao aniversário de Jesus?

On December 25, Christians around the world will gather to celebrate Jesus’ birth. Joyful carols, special liturgies, brightly wrapped gifts, festive foods—these all characterize the feast today, at least in the northern hemisphere. But just how did the Christmas festival originate? How did December 25 come to be associated with Jesus’ birthday?


Um trecho:

Os primeiros escritos - Paulo e Marcos - não mencionam o nascimento de Jesus. Os Evangelhos de Mateus e Lucas fornecem relatos bem conhecidos do evento, mas bastante diferentes entre si, embora nenhum deles especifique uma data. No século segundo EC, mais detalhes do nascimento e da infância de Jesus estão relacionados em escritos apócrifos como o Evangelho da Infância de Tomé e o Proto Evangelho de Tiago. Esses textos fornecem tudo, desde os nomes dos avós de Jesus até os detalhes de sua educação, mas não a data de seu nascimento.

Finalmente, em cerca de 200 EC, um teólogo cristão no Egito faz referência à data em que Jesus nasceu. Segundo Clemente de Alexandria, vários dias diferentes haviam sido propostos por diferentes grupos cristãos. Por mais surpreendente que possa parecer, Clemente não menciona o dia 25 de dezembro. Clemente escreve: “Há aqueles que determinaram não apenas o ano do nascimento de nosso Senhor, mas também o dia; e eles dizem que isto aconteceu no 28º ano de Augusto, e no 25º dia do [mês egípcio] Pachon [20 de maio no nosso calendário] ... E tratando da Sua Paixão, com grande exatidão, alguns dizem que aconteceu no 16º ano de Tibério, no dia 25 de Phamenoth [21 de março]; e outros no dia 25 de Pharmuthi [21 de abril] e outros dizem que no dia 19 de Pharmuthi [15 de abril] o Salvador padeceu. Além disso, outros dizem que Ele nasceu no dia 24 ou 25 de Pharmuthi [20 ou 21 de abril]" (Stromata 1.21.145).

Claramente, havia uma grande incerteza, mas também um interesse considerável na datação do nascimento de Jesus no final do século segundo. No século quarto, entretanto, encontramos referências a duas datas que foram amplamente reconhecidas - e agora também celebradas - como o aniversário de Jesus: 25 de dezembro no Império Romano do Ocidente e 6 de janeiro no Oriente (especialmente no Egito e na Ásia Menor). A moderna igreja armênia continua celebrando o Natal em 6 de janeiro; para a maioria dos cristãos, no entanto, 25 de dezembro prevaleceria, enquanto 6 de janeiro acabou sendo conhecido como a Festa da Epifania, comemorando a chegada dos magos em Belém. O período entre as duas celebrações se tornou a temporada festiva mais tarde conhecida como os 12 dias de Natal.

A menção mais antiga de 25 de dezembro como o aniversário de Jesus vem de um calendário romano da metade do século IV que lista as datas da morte de vários bispos e mártires cristãos. A primeira data listada, 25 de dezembro, é marcada: natus Christus in Betleem Judeae: “Cristo nasceu em Belém da Judeia”. Por volta de 400 EC, Agostinho de Hipona menciona um grupo cristão dissidente local, os Donatistas, que aparentemente celebravam a festa do Natal em 25 de dezembro, mas se recusavam a celebrar a Epifania em 6 de janeiro, considerando-a uma inovação. Como o grupo Donatista só emergiu durante a perseguição sob Diocleciano em 312 EC e depois permaneceu teimosamente ligado às práticas daquele momento no tempo, eles parecem representar uma antiga tradição cristã norte-africana.

No Oriente, o dia 6 de janeiro não foi associado apenas aos magos, mas à história do Natal como um todo.

Assim, quase 300 anos depois do nascimento de Jesus, finalmente encontramos pessoas observando seu nascimento na metade do inverno [no hemisfério norte]. Mas como eles identificaram as datas de 25 de dezembro e 6 de janeiro?


The earliest writings—Paul and Mark—make no mention of Jesus’ birth. The Gospels of Matthew and Luke provide well-known but quite different accounts of the event—although neither specifies a date. In the second century C.E., further details of Jesus’ birth and childhood are related in apocryphal writings such as the Infancy Gospel of Thomas and the Proto-Gospel of James.b These texts provide everything from the names of Jesus’ grandparents to the details of his education—but not the date of his birth.

Finally, in about 200 C.E., a Christian teacher in Egypt makes reference to the date Jesus was born. According to Clement of Alexandria, several different days had been proposed by various Christian groups. Surprising as it may seem, Clement doesn’t mention December 25 at all. Clement writes: “There are those who have determined not only the year of our Lord’s birth, but also the day; and they say that it took place in the 28th year of Augustus, and in the 25th day of [the Egyptian month] Pachon [May 20 in our calendar] … And treating of His Passion, with very great accuracy, some say that it took place in the 16th year of Tiberius, on the 25th of Phamenoth [March 21]; and others on the 25th of Pharmuthi [April 21] and others say that on the 19th of Pharmuthi [April 15] the Savior suffered. Further, others say that He was born on the 24th or 25th of Pharmuthi [April 20 or 21].”

Clearly there was great uncertainty, but also a considerable amount of interest, in dating Jesus’ birth in the late second century. By the fourth century, however, we find references to two dates that were widely recognized—and now also celebrated—as Jesus’ birthday: December 25 in the western Roman Empire and January 6 in the East (especially in Egypt and Asia Minor). The modern Armenian church continues to celebrate Christmas on January 6; for most Christians, however, December 25 would prevail, while January 6 eventually came to be known as the Feast of the Epiphany, commemorating the arrival of the magi in Bethlehem. The period between became the holiday season later known as the 12 days of Christmas.

The earliest mention of December 25 as Jesus’ birthday comes from a mid-fourth-century Roman almanac that lists the death dates of various Christian bishops and martyrs. The first date listed, December 25, is marked: natus Christus in Betleem Judeae: “Christ was born in Bethlehem of Judea.” In about 400 C.E., Augustine of Hippo mentions a local dissident Christian group, the Donatists, who apparently kept Christmas festivals on December 25, but refused to celebrate the Epiphany on January 6, regarding it as an innovation. Since the Donatist group only emerged during the persecution under Diocletian in 312 C.E. and then remained stubbornly attached to the practices of that moment in time, they seem to represent an older North African Christian tradition.

In the East, January 6 was at first not associated with the magi alone, but with the Christmas story as a whole.

So, almost 300 years after Jesus was born, we finally find people observing his birth in mid-winter. But how had they settled on the dates December 25 and January 6?

Leia o artigo completo.

Um livro:
ROLL, S. K. Toward the Origins of Christmas. Kampen: Kok Pharos, 1995, 296 p. - ISBN 9789039005316

Leia Mais:
Natal
A estrela de Belém

quinta-feira, 20 de dezembro de 2018

A estrela de Belém

Presépio | Marias Artesãs - Patos de Minas - MG

Há centenas de tentativas, antigas e modernas, para explicar o que é a estrela de Mt 2,1-12 e como pôde uma estrela guiar os magos até Belém por ocasião do nascimento de Jesus.

Descartando, porém, as teorias mais exóticas – capazes até de “desmontar” o Universo para confirmar crenças ingênuas – há, fundamentalmente, apenas dois pressupostos que regulam as várias explicações:

:. Estamos lidando com um fenômeno astronômico natural que teria ocorrido por ocasião do nascimento de Jesus e que é visto aqui como um sinal importante por Mateus.

:. Estamos vendo aqui uma estrela “teológica”, onde Mateus não pensa em nenhum fenômeno natural, mas apenas na sua função, pois o tema do aparecimento de uma estrela que anuncia o nascimento de um personagem importante era bastante difundido na época.

Continue aqui.

Leia Mais:
A visita dos Magos: Mt 2,1-12
Natal
A estrela de Belém: uma abordagem interdisciplinar

terça-feira, 11 de dezembro de 2018

Quando os cristãos eram judeus: livro de Paula Fredriksen

FREDRIKSEN, P. When Christians Were Jews: The First Generation. New Haven, CT: Yale University Press, 2018, 272 p. - ISBN 9780300190519.

FREDRIKSEN, P. When Christians Were Jews: The First Generation. New Haven, CT: Yale University Press, 2018, 272 p.
 
How did a group of charismatic, apocalyptic Jewish missionaries, working to prepare their world for the impending realization of God's promises to Israel, end up inaugurating a movement that would grow into the gentile church? Committed to Jesus’s prophecy—“The Kingdom of God is at hand!”—they were, in their own eyes, history's last generation. But in history's eyes, they became the first Christians.

In this electrifying social and intellectual history, Paula Fredriksen answers this question by reconstructing the life of the earliest Jerusalem community. As her account arcs from this group’s hopeful celebration of Passover with Jesus, through their bitter controversies that fragmented the movement’s midcentury missions, to the city’s fiery end in the Roman destruction of Jerusalem, she brings this vibrant apostolic community to life. Fredriksen offers a vivid portrait both of this temple-centered messianic movement and of the bedrock convictions that animated and sustained it.

Paula Fredriksen, Aurelio Professor of Scripture emerita at Boston University, is currently the Distinguished Visiting Professor of Comparative Religion at the Hebrew University of Jerusalem.


Leia a resenha de Larry Hurtado: “When Christians were Jews”: Paula Fredriksen on “The First Generation” - December 4, 2018

Ensaios sobre religião e sociedade no Antigo Oriente Médio

VAN DER TOORN, K. God in Context: Selected Essays on Society and Religion in the Early Middle East. Tübingen: Mohr Siebeck, 2018, 400 p. - ISBN 9783161564703.

VAN DER TOORN, K. God in Context: Selected Essays on Society and Religion in the Early Middle East. Tübingen: Mohr Siebeck, 2018, 400 p.
 
In this work, Karel van der Toorn explores the social setting, the intellectual milieu, and the historical context of the beliefs and practices reflected in the Hebrew Bible. While fully recognizing the unique character of early Israelite religion, the author challenges the notion of its incomparability. Beliefs are anchored in culture. Rituals have societal significance. God has a history. By shifting the focus to the context, the essays gathered here yield a deeper understanding of Israelite religion and the origins of the Bible.

Karel van der Toorn (1956) is Faculty Professor of Religion and Society in the Faculty of Humanities at the University of Amsterdam.

sábado, 8 de dezembro de 2018

Guerras Híbridas

KORYBKO, A. Guerras Híbridas: das revoluções coloridas aos golpes. São Paulo: Expressão Popular, 2018,  174 p. - ISBN 9788577433284.


KORYBKO, A. Guerras Híbridas: das revoluções coloridas aos golpes. São Paulo: Expressão Popular, 2018,  174 p.

As Guerras Híbridas são conflitos identitários provocados por agentes externos, que exploram diferenças históricas, étnicas, religiosas, socioeconômicas e geográficas em países de importância geopolítica por meio da transição gradual das revoluções coloridas para a guerra não convencional, a fim de desestabilizar, controlar ou influenciar projetos de infraestrutura multipolares por meio de enfraquecimento do regime, troca do regime ou reorganização do regime.

Em suma, isso significa que países como os EUA se aproveitam de problemas identitários em um Estado-alvo a fim de mobilizar uma, algumas ou todas as questões identitárias mais comuns para provocar grandes movimentos de protesto, que podem então ser cooptados ou dirigidos por eles para atingir seus objetivos políticos. O eventual fracasso desses movimentos pode fazer com que alguns de seus participantes recorram ao terrorismo, à insurgência, à guerrilha e a outras formas de conflito não convencional contra o Estado. Na maioria das vezes, pelo menos no Hemisfério Oriental, esses fenômenos fabricados têm o efeito de dificultar a viabilização de projetos da China de implantação da nova Rota da Seda, coagindo o Estado-alvo a compromissos políticos ou mudanças de governo ou mesmo a uma secessão – que pode eventualmente levar a uma balcanização.


KORYBKO, A. Hybrid Wars: The Indirect Adaptive Approach To Regime Change. Moscow: Peoples’ Friendship University of Russia, 2015, 157 p. - ASIN: B014GA5SX8.

KORYBKO, A. Hybrid Wars: The Indirect Adaptive Approach To Regime Change. Moscow: Peoples’ Friendship University of Russia, 2015, 157 p.


Sputnik International’s political analyst and journalist, Andrew Korybko, just published his first book on “Hybrid Wars: The Indirect Adaptive Approach To Regime Change”. It was reviewed by the Diplomatic Academy of Russia and released with the assistance of the People’s Friendship University of Russia, where Andrew is a member of the expert council for the Institute of Strategic Research and Predictions. His detailed work proves that Color Revolutions are a new form of warfare engineered by the US, with everything from their organizational makeup to geopolitical application being guided by American strategists. But unlike earlier researchers who have touched upon the topic, Andrew takes his work even further and uses the latest examples of the War on Syria and EuroMaidan to argue that the US has deployed a second, more dangerous step to its regime change toolkit.

Hybrid Wars, as he labels them, are when the US meshes its Color Revolution and Unconventional Warfare strategies together to create a unified toolkit for carrying out regime change in targeted states. When a Color Revolution attempt fails, as it miserably did in Syria in 2011, the backup plan is to roll out an Unconventional War that builds directly upon the former’s social infrastructure and organizing methods. In the case of EuroMaidan, Andrew cites Western news sources such as Newsweek magazine, the Guardian, and Reuters in reminding everyone that in the days immediately prior to the coup’s successful completion, Western Ukraine was in full-scale rebellion against the central government and the stage was set for an Unconventional Syrian-esque War in the heart of Eastern Europe. Had it not been for the sudden overthrow of President Yanukovich, the US was prepared to take the country down the path of the Syrian scenario, which would have been its second full-fledged application of Hybrid War.

Andrew’s revolutionary research ultimately shows that it was the US, not Russia, which spearheaded the use of Hybrid Wars, and that given his proven findings, it’s irresponsible to even call Russia’s alleged involvement in the Ukrainian Crisis a ‘hybrid war’. In fact, the US is far ahead of any other country in practicing this new method of warfare, as no other state has attempted a Color Revolution thus far, let alone transitioned it into an Unconventional War when their initial regime change plans failed. While some many think that such occurrences are spontaneous and happenstance, Andrew documents how Hybrid Wars are not only created from the ground-up by the US, but how they’re specifically deployed in areas where they’d be most geostrategically advantageous for the promotion of its unipolar policies.

Thus, not only does Andrew describe the very essence of Hybrid Wars, but the final part of his book forecasts where he believes they may happen next. He introduces the groundbreaking concept of the Color Arc, a contiguous line of states stretching from Hungary to Kyrgyzstan and where the waging of Hybrid Wars would most seriously damage Russia’s national interests. This is the first time that Color Revolutions have ever been analyzed through a geopolitical prism, and it brings forth a completely different way of looking at this weapon’s utilization. This new paradigm is absolutely essential for understanding the US’ new approach to regime change and the form, both physical and geopolitical, it’s expected to take in the forthcoming years.

Andrew Korybko


Brasil é alvo de guerra híbrida, diz analista - Por Eleonora de Lucena e Rodolfo de Lucena - Tutameia: 9 de outubro de 2018

“Há uma Guerra Híbrida muito intensa sendo travada no Brasil neste momento e afeta todas os aspectos da vida de cada cidadão. Ao longo dos últimos dois anos, agentes externos vêm tentando muito sutilmente condicionar a população para voltá-la contra o Partido dos Trabalhadores, usando instrumentos como a Operação Lava Jato, apoiada pela NSA [agência norte-americana de inteligência]”, afirma o analista político norte-americano Andre Korybko, autor de Guerras Híbridas – Das Revoluções Coloridas aos Golpes, recém-lançado no Brasil pela Expressão Popular.

Em entrevista por e-mail ao Tutameia, Korybko, que vive em Moscou e se dedica ao estudo das estratégias do Estados Unidos na África e Eurásia, afirmou que os EUA são os principais propulsores desses movimentos, que consistem em desestabilizar governos a partir de grandes manifestações de massa. São “a fagulha que incendeia uma situação de conflito interno”, como diz a apresentação do livro. Podem se transformar em golpe ou mesmo guerras não convencionais –daí a expressão guerra híbrida.

Conselheiro do Institute for Strategic Studies and Predictions e jornalista na “Sputinik News”, ele também comentou a ascensão da candidatura de Jair Bolsonaro. Diz que os mentores externos da guerra híbrida no Brasil vinham há muito tempo moldando as condições sócio-políticas do país para facilitar o surgimento de um azarão que pudesse chegar ao poder e destruir tudo o que fora construído nos governos do Partido dos Trabalhadores.

A entrevista.

O que são guerras híbridas?

Desde o lançamento de meu livro, em 2015, ampliei minha definição para incluir o seguinte:

“As Guerras Híbridas são conflitos identitários provocados por agentes externos, que exploram diferenças históricas, étnicas, religiosas, socioeconômicas e geográficas em países de importância geopolítica por meio da transição gradual das revoluções coloridas para a guerra não convencional, a fim de desestabilizar, controlar ou influenciar projetos de infraestrutura multipolares por meio de enfraquecimento do regime, troca do regime ou reorganização do regime.”

Em suma, isso significa que países como os EUA se aproveitam de problemas identitários em um Estado-alvo a fim de mobilizar uma, algumas ou todas as questões identitárias mais comuns para provocar grandes movimentos de protesto, que podem então ser cooptados ou dirigidos por eles para atingir seus objetivos políticos. O eventual fracasso desses movimentos pode fazer com que alguns de seus participantes recorram ao terrorismo, à insurgência, à guerrilha e a outras formas de conflito não convencional contra o Estado. Na maioria das vezes, pelo menos no Hemisfério Oriental, esses fenômenos fabricados têm o efeito de dificultar a viabilização de projetos da China de implantação da nova Rota da Seda, coagindo o Estado-alvo a compromissos políticos ou mudanças de governo ou mesmo a uma secessão –que pode eventualmente levar a uma balcanização.

Seu livro descreve as Guerras Híbridas como “caos administrado”. Como isso é construído?

O estudo detalhado da sociedade de um estado-alvo e das tendências gerais da natureza humana (auxiliado por pesquisas antropológicas, sociológicas, psicológicas e outras) permite construir um quadro de como é o funcionamento “natural” daquela sociedade. Armados com esse conhecimento, os praticantes da Guerra Híbrida podem prever com precisão quais “botões apertar” por meio de provocações para obter respostas esperadas de seus alvos, tudo com a intenção de perturbar o status quo por processos locais de desestabilização manipulados por forças externas. Podem ser conflitos étnicos, movimentos de protesto (“Revoluções Coloridas”) ou a exacerbação de rivalidades regionais. O ponto principal é produzir o maior efeito com o mínimo de esforço e, então, explorar a evolução dos acontecimentos e a incerteza crescente a fim de realizar os planos políticos.

O livro descreve os EUA como propulsores desses movimentos. Por quê?

Por causa de sua hegemonia mundial –ainda que cadente–, os EUA têm interesses globais, e suas décadas de experiência operando em todos os continentes lhe deram uma compreensão profunda da situação doméstica de praticamente todos os países. Não só é, portanto, muito mais fácil para os EUA iniciar Guerras Híbridas como eu as descrevo, mas também –e mais importante—eles têm a motivação para fazê-lo. Que é o que falta a outras grandes potências em relação a ações em países fora de suas áreas de influência regionais.

O Brasil se tornou alvo da Guerra Híbrida após a descoberta do petróleo do pré-sal?

Na minha opinião, o Brasil se tornou um alvo desde a eleição de Lula e seu movimento em direção à multipolaridade, mas a subsequente descoberta das reservas de petróleo do pré-sal definitivamente acrescentou um novo ímpeto à Guerra Híbrida dos EUA no Brasil, embora apenas porque esses recursos seriam vendidos para a China. Se Lula tivesse fechado um acordo com os EUA para fornecer acesso irrestrito ao pré-sal e também permitisse que Washington aproveitasse essa vantagem para controlar o acesso da China ao mesmo, então os EUA poderiam não ter motivação para empreender uma Guerra Híbrida no Brasil, ou poderia ser atenuada ou adiada. Porém, por causa da posição independente de Lula sobre os depósitos do pré-sal e muitas outras questões, ele e sua sucessora foram vistos como alvos “legítimos” pelos EUA porque Washington temia que eles acelerassem seu declínio hegemônico no hemisfério se não fossem detidos o mais rapidamente possível.

O fato de o Brasil ter participado ativamente dos BRICS junto com a Rússia, a Índia, a China e a África do Sul também é uma das razões pelas quais ele foi alvo da Guerra Híbrida?

Sim, mas principalmente por causa do sentido simbólico dessa iniciativa, porque acredito que o movimento BRICS, apesar de ser uma plataforma muito promissora, não foi capaz de atingir seu pleno potencial por causa da rivalidade interna, manipulada pelos EUA, entre a China e a Índia. Isso prejudicou sua eficácia geral, mesmo antes da primeira fase da Guerra Híbrida no Brasil ter sido bem-sucedida em derrubar a presidenta Dilma. Sua destituição do cargo e o “golpe constitucional” contra o presidente sul-africano Zuma se combinaram para reduzir o BRICS ao tripartido original do RIC, que está profundamente dividido entre a China e a Índia (apesar das afirmações oficiais em contrário), com a Rússia assumindo papel de mediadora entre os dois. Para todos os efeitos, o BRICS não existe mais, exceto como um grupo que se reúne anualmente para conversar e, para muitos, uma lembrança de sonhos desfeitos.

Leia a entrevista completa.

sexta-feira, 7 de dezembro de 2018

Observatório Bíblico: 13 anos online

Criado em 7 de dezembro de 2005, Observatório Bíblico está comemorando hoje 13 anos de existência.

Observatório Bíblico celebrates today 13 years online.

Marcadores do blog Observatório Bíblico

quinta-feira, 6 de dezembro de 2018

Ouse saber

Como disse Kant (1724-1804), quando questionado sobre o significado da Aufklärung [pdf, em português, aqui]:

Sapere aude [Ouse saber]! Tenha a coragem de te servir de teu próprio entendimento. Eis a divisa do Iluminismo.

No original alemão [aqui e aqui]: Sapere aude! Habe Mut, dich deines eigenen Verstandes zu bedienen! ist also der Wahlspruch der Aufklärung.

Immanuel Kant, Beantwortung der Frage: Was ist Aufklärung?

Leia sobre isso aqui.

Leia Mais:
Nenhum conhecimento é supérfluo

sábado, 1 de dezembro de 2018

Biblical Studies Carnival 153

Seleção de postagens dos biblioblogs em novembro de 2018.

November 2018 Biblical Studies Carnival

Trabalho feito por Bob MacDonald em seu blog Dust.

quinta-feira, 29 de novembro de 2018

A frenética busca por textos sagrados

Inside the cloak-and-dagger search for sacred texts - By Robert Draper: National Geographic - December 2018

In the shadowy world where religion meets archaeology, scientists, collectors, and schemers are racing to find the most precious relics.


Jim Davila, em PaleoJudaica.com, observa:

This is a very good article that deals with most of the recent stories about Bible-related (etc.) manuscripts, whether genuine or fake. These include Operation Scroll, which continues; Konstantin von Tischendorf and Codex Sinaiticus; the Sisters of Sinai and Codex Sinaiticus Syriacus; the Oxyrhynchus papyri; the Dead Sea Scrolls; P52, the Rylands fragment of the Gospel of John; the Museum of the Bible's fake Dead Sea Scrolls fragments and Hobby Lobby's improperly acquired cuneiform tablets; the no-longer-first-century fragment of the Gospel of Mark; and more.

Khirbet el-Qom

RIP: Reading Obituaries in Ancient Judah - By Alice Mandell and Jeremy Smoak: The Ancient Near East Today - November 2018

Recent archaeological studies are beginning to shed greater light on the role that the senses play in human experience and religion. They argue that we need to move away from the tendency to treat sight and sound as the “higher senses” and touch, smell, and taste as the “lower senses.” This is why it is helpful to step back and imagine encountering inscriptions in their original settings. James Watts reminds us that ancient Israelite audiences were drawn to texts for their iconic, performative, and visual characteristics. Some inscriptions were installed as decorations or media within ritual spaces both inside and outside lived communities.

The story of the two stone tablets that YHWH gives Moses demonstrates how texts could become monuments around which communities constructed lives and politics. These tablets are hidden away in the ark and yet they play a pivotal role in Israel’s social and religious evolution. Ancient Hebrew texts “spoke” much more than their mere words—they signaled boundaries, access points, power dynamics, and social relations. And, they often communicated nuanced shades of meaning based upon different seasons, different times of day, and different audiences.

One set of inscriptions that illustrates the multi-sensory value of texts is from the tombs at Khirbet el-Qom, located several miles west of Hebron in the southern part of the territory of Judah. During the excavations of the tombs almost forty years ago, William G. Dever discovered several inscriptions written in Old Hebrew script on the walls of each tomb.

Leia Mais:
Iahweh e Asherá em Kuntillet 'Ajrud

sábado, 24 de novembro de 2018

Homenagem ao biblista Hugo Vanni

Faleceu em 27 de setembro de 2018, aos 89 anos de idade, o Professor Ugo Vanni, da Pontifícia Universidade Gregoriana (PUG) e do Pontifício Instituto Bíblico (PIB).

No dia 3 de dezembro de 2018 será prestada, no PIB, uma homenagem ao Professor Ugo Vanni e será feita uma apresentação de seu comentário ao livro do Apocalipse, fruto de suas aulas no PIB, publicado pouco depois de sua morte.

Além das aulas sobre o livro do Apocalipse, Hugo Vanni me orientou na Dissertação de Mestrado, A Parábola das Dez Virgens de Mt 25,1-13, concluída na Pontifícia Universidade Gregoriana em 1976.

O livro:

VANNI, H. Apocalisse di Giovanni. 2 volumi. Assisi: Cittadella Editrice, 2018, 1004 p. - ISBN 9788830815971.

VANNI, H. Apocalisse di Giovanni. 2 volumi. Assisi: Cittadella Editrice, 2018, 1004 p.

Nell’accostare quest’opera poderosa, coloro che hanno avuto la fortuna di essere stati formati da padre Vanni riconosceranno immediatamente lo stile gustoso e avvincente del loro maestro e avranno la possibilità di contare su uno strumento che raccoglie in modo unitario e sistematico il suo insegnamento. Per gli altri lettori, invece, ci sarà la gioia di poter cogliere tutta la bellezza e la profondità del libro dell’Apocalisse, scoprendo il riflesso più autentico del disegno salvifio di Dio, così come viene contemplato, celebrato e vissuto nella Chiesa. (Dalla Prefazione di Luca Pedroli).

Ugo Vanni noto e stimatissimo biblista, nonché maestro dello Spirito, ha dedicato tutta la sua vita allo studio e all’insegnamento della Scrittura presso la Pontificia Università Gregoriana e il Pontificio Istituto Biblico. È stato uno dei massimi esperti dell’Apocalisse e dal 2000 è stato membro per diversi anni della Pontificia Commissione Biblica. In suo onore, per Cittadella Editrice, nel 2005 è stata pubblicata la raccolta di studi Apokalypsis. Percorsi nell’Apocalisse di Giovanni, con l’apporto di numerosi docenti di varie università di tutto il mondo.


Diz o programa no site do PIB:

Ricordo del Professore R. P. Ugo Vanni, S. J. e presentazione del suo commentario sul libro dell'Apocalisse

Il 27 settembre scorso è deceduto P. Ugo Vanni, S.J., professore emerito della Pontificia Università Gregoriana. Per 35 anni (dal 1969 al 2004) era stato professore «invitato» al Pontificio Istituto Biblico offrendo ogni anno, ininterrottamente, un corso e un seminario sul libro dell’Apocalisse. Qualche settimana dopo la sua morte è stato pubblicato dalla casa editrice Cittadella di Assisi il suo commentario al libro dell’Apocalisse, frutto dei suoi corsi di esegesi tenuti al Biblico. Il commentario, curato dal Prof. Luca Pedroli, allievo di P. Vanni, si compone di due volumi:

I. Testo greco articolato. Traduzione italiana. Annotazioni testuali, linguistiche e letterarie, pp. 224.
II. Introduzione e commento, pp. 780.


Lunedì, 3 dicembre 2018 [ore 16:30 – Aula Magna] ci sarà un ricordo di P. Vanni e una presentazione del commentario.

Saluto:
P. Michael Kolarcik, S.J. - Rettore del Pontificio Istituto Biblico

Interventi:
P. Dariusz Kowalczyk, S.J. - Decano della Facoltà di teologia della PUG
D. Luca Pedroli - Pontificio Istituto Biblico
P. Javier López, S.J. - Pontificia Università Gregoriana
D.ssa Enrichetta Cesarale - Pontificia Università Gregoriana

quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Nova edição da tradução da Bíblia da CNBB

Lançada nova edição da tradução da Bíblia Sagrada da CNBB, em Brasília (DF) -  21/11/2018

Bíblia Sagrada - Tradução oficial da CNBB - 2018
 
A Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) lançou nesta quarta-feira, 21 de novembro, a nova tradução oficial da Bíblia Sagrada. O ato aconteceu durante a reunião do Conselho Permanente da entidade e contou com a participação de bispos, padres e convidados. “Este é um momento de evangelização da nossa Conferência Episcopal. Nós tivemos um longo caminho, foram muitos anos de trabalho e de dedicação de muitas pessoas”, afirmou o secretário-geral da CNBB, dom Leonardo Steiner, na mesa de abertura.

Como recomenda o Concílio Vaticano II, a tradução oficial da Bíblia se baseia nos textos originais hebraicos, aramaicos e gregos, comparados com a Nova Vulgata – a tradução oficial católica. O projeto teve início em 2007, quando a coordenação de tradução e revisão, composta pelos padres Luís Henrique Eloy e Silva, padres Ney Brasil Pereira (in memoriam) e Johan Konings, fez a revisão integral conjunta, enquanto os professores padre Cássio Murilo Dias, dom Paulo Jackson Nóbrega de Sousa e Maria de Lourdes Lima colaboraram em algumas partes.

Durante o lançamento, o coordenador de tradução e revisão da Bíblia, padre Luís Henrique afirmou que a revisão se compôs de características diversas das traduções anteriores. De acordo com ele, no início visava-se um texto mais apurado em vista de outros objetivos como, por exemplo, o texto como referência para os documentos oficiais para os bispos do Brasil. Ele fez questão de enfatizar que, essa tradução, visou também uma maior facilitação à memória bíblica do país.

Assim como a Nova Vulgata, a nova Bíblia da CNBB leva em conta novas descobertas documentais e a crescente valorização das antigas traduções gregas, siríacas, egípcias e latinas, às vezes mais antigas ou de maior importância para a Igreja que os textos comumente considerados como os mais originais.

Padre Johan Konings, vice-coordenador de tradução e revisão da Bíblia destacou durante o lançamento que nem a Nova Vulgata, nem a nova tradução da Bíblia pretendem restabelecer um “texto original” único, mas procuram representar os textos que os primeiros cristãos conheceram, citaram e comentaram.

Luís Henrique Eloy e Silva e Johan Konings, coordenadores da tradução, com a Direção da CNBB

As introduções e notas, bem como os títulos e subtítulos das seções, embora aprovados pela Comissão para a Doutrina da Fé, não possuem caráter oficial, mas, baseadas em fontes científicas, fazem desta edição uma verdadeira “Bíblia de estudo”, servindo para cursos de Bíblia e de Teologia , em sintonia com as orientações do Magistério católico. Segundo o presidente da Comissão para a Doutrina da Fé da CNBB, dom Pedro Carlos Cipollini, a tradução é importante para a Igreja no Brasil porque serve de referencial. “A CNBB tem uma tradução aprovada e isso faz a diferença no sentido de que dá uma segurança maior no uso desse texto nas várias atividades da nossa Igreja”, disse o bispo.

Ao final do lançamento, o presidente da CNBB, dom Sergio da Rocha agradeceu aos exegetas e a todos os que colaboraram no aprimoramento das várias edições da Bíblia da CNBB, e de modo especial, nesta nova tradução. “Confiamos esta Bíblia Sagrada – Tradução Oficial da CNBB a Maria, Mãe da Igreja, discípula fiel do Senhor, que acolheu, meditou e cumpriu a Palavra”, disse o bispo.

Disponível para venda no site da Editora da CNBB.

Leia Mais:
Ler a Bíblia no Brasil hoje
Terceira edição da Bíblia da CNBB

terça-feira, 20 de novembro de 2018

A criação do homem segundo o Livro Eslavo de Henoc

Um trecho do relato da criação do homem, segundo o Livro Eslavo de Henoc.

Este é um apócrifo apocalíptico proveniente da Palestina ou do Egito. Foi escrito por um autor judeu ou judeu-cristão do século I d.C. A língua original era o grego. A versão que temos está em eslavo antigo.

Esta tradução em espanhol está no IV volume, de 1984, p. 177-178, da obra de DIEZ MACHO, A.; PIÑERO, A. (eds.) Apócrifos del Antiguo Testamento I-VI. Madrid: Cristiandad, 1982-2009. A tradução, do original, é de A. de Santos Otero.

Para entender melhor o contexto, confira o meu artigo Apocalíptica: busca de um tempo sem fronteiras. Sobre o Livro Eslavo de Henoc, confira, neste artigo, especialmente aqui.

DIEZ MACHO, A.; PIÑERO, A. (eds.) Apócrifos del Antiguo Testamento I-VI. Madrid: Cristiandad, 1982-2009
 
El sexto día di órdenes a mi Sabiduría para que creara al hombre, partiendo de siete elementos, a saber: su carne de la tierra, su sangre de rocío y del sol, sus ojos del abismo de los mares, sus huesos de piedra, su pensamiento de la celeridad angélica y de las nubes, sus venas y sus cabellos de hierbas de la tierra, su alma de mi propio espíritu y del viento. Y le doté de siete sentidos: oído en relación con la carne, vista para los ojos, olfato para el alma, tacto para los nervios, gusto para la sangre, consistencia para los huesos y dulzura para el pensamiento. Y me ingenié para que hablara palabras sagaces. Creé al hombre partiendo de la naturaleza visible e invisible, de ambas a la vez, muerte y vida; y la palabra  conoce la imagen lo mismo que a cualquier otra criatura, pequeña en  lo grande y grande en lo pequeño. Y le dejé establecido en la tierra como un segundo ángel, honorable, grande y glorioso. Y le constituí como rey sobre la tierra, teniendo a su disposición un reino gracias a mi Sabiduría. Y entre mis criaturas no había nada parejo a él sobre la tierra. Y le asigné un nombre que consta de cuatro elementos: Oriente, Occidente, Norte y Sur. Y puse a su disposición cuatro estrellas insignes, dándole por nombre Adán. Le doté de libre albedrío y le mostré dos caminos, la luz y las tinieblas. Entonces le dije: "Mira, esto es bueno para ti y aquello malo" (11,57-65).

sexta-feira, 16 de novembro de 2018

Mais uma peça do Mecanismo de Anticítera? Talvez não

Foi encontrada mais uma peça do Mecanismo de Anticítera? Ainda é cedo para dizer. O jornal israelense Haaretz diz que sim, mas confira, no Twitter, aqui.

De qualquer maneira, é uma boa oportunidade para conhecer o mais antigo "computador analógico" até agora descoberto.

Reprodução do Mecanismo de Anticítera, feita por Mogi Vicentini em 2007

:: Peça do mais antigo computador da História é encontrada no Mar Egeu - AH: 14.11.2018

Disco de bronze foi descoberto no mesmo local onde o misterioso Mecanismo de Anticítera, computador analógico de 2100 anos, havia sido encontrado

Um disco de bronze foi encontrado por arqueólogos mergulhadores no fundo do Mar Egeu, próximo à ilha de Anticítera. Os especialistas acreditam que a peça é a parte que faltava da Máquina de Anticítera, computador analógico da Grécia antiga que desapareceu no mesmo local há 2 200 anos. Os restos do computador, datado de 87 a.C., foi resgatado em 1901, a uma profundidade de cerca de 43 metros na costa da ilha de Anticítera, localizada entre Cítera e Creta. O objeto, que parecia uma pedra corroída e esverdeada, não recebeu muita atenção. Em 1971, o físico britânico Derek de Solla Price submeteu o objeto a uma série de análises. Com o auxílio de raios gama, ele descobriu que a “pedra” era, na verdade, um complexo calculador astronômico. Formado por 27 engrenagens de bronze, o aparelho empregava, no século 1 a.C., um tipo de engrenagem que acreditava-se que havia sido desenvolvida apenas no século 16. A Máquina de Anticítera era utilizada para guiar navios, realizar operações matemáticas básicas, calcular a órbita da Lua, do Sol e dos cinco planetas mais próximos da Terra. Também era capaz de prever eclipses lunares e solares. Por isso, é considerada o computador analógico conhecido mais antigo.



:: Missing Piece of Antikythera Mechanism Found on Aegean Seabed - By Philippe Bohstrom - Haaretz- Nov 15, 2018

Bronze disk unearthed by archaeologists in same wreck where original 2,200-year-old computer had been found; also located bits of the ship that Jacques Cousteau and looters hadn't destroyed

More than 2,200 years after it sank beneath the waves, diving archaeologists have possibly found a missing piece of the Antikythera Mechanism, the fantastically complicated, advanced analog "computer" found in a shipwreck off a Greek island. Scanning shows the encrusted cogwheel to bear an image of Taurus the bull. The Antikythera Mechanism was discovered in 1901, technically speaking. An encrusted lump was salvaged by Greek sponge divers in clunky metal diving suits from the Mediterranean seabed. Not that anybody realized what it was at the time. It would take decades and advanced x-ray technology for scientists to realize that the "rock" was a wondrously advanced sophisticated analog calculator consisting of dozens of intermeshed gears. The Mechanism could do not only basic math: with dozens of exquisitely worked cogwheels, it could calculate the movements of the sun and moon, predict eclipses and equinoxes, and could be used to track the solar system planets, the constellations, and much more.


:: Antikythera anticlimax: ancient computer excitement a case of over-anticipation - By Jamie Seidel - News.com.au - November 14, 2018

The 2200-year-old Antikythera Mechanism, one of the most fascinating archaeological finds, has just suffered a big setback.

The analog computer has fascinated a generation of computer entrepreneurs. So a series of expeditions to the small island of Antikythera between Greece and Crete has been funded to see if more fragments of the mysterious device could be recovered. One tantalising piece was found on the seabed during an expedition last year. A heavily encrusted bronze disc, about 8cm wide. Now, a new article in the Israeli publication Haaretz has sent a quiver of anticipation around the world. It declared it to be a lost cog from the Anikythera mechanism itself. And, as it carried the sign of a bull — Taurus — it proves the machine was more complex than many dared dream. But … not so fast.


:: No, Archaeologists Probably Did Not Find a New Piece of the Antikythera Mechanism - By Jason Daley - Smithsonian.com - November 15, 2018

A bronze disc found near the shipwreck last year is likely not a cog wheel from the ancient Greek astronomical proto-computer

This week, word began to spread around some corners of the web that a new piece of the legendary ancient Greek computer known as the Antikythera Mechanism may have been found. But the claims, which surfaced following a Haaretz feature on the ongoing archaeological work in the area where the device was first uncovered, are misleading at best.

The Antikythera Mechanism is one of the most well-known and intriguing archaeological discoveries of all time. During a 1900-1901 investigation, sponge divers near the Greek island of Antikythera discovered the arms of bronze and marble statues reaching out of the seabed, remains of a shipwreck dating to the 1st or 2nd century B.C., and a rock-encrusted object that appeared to be a series of cogs and gears. Over the coming decades, researchers examined the mechanism, eventually determining it was likely a complex device that contained more than 30 gears used to calculate the date, position of planets, constellations and, perhaps, additional information. It was, in other words, a primitive sort of computer. But pieces of the salvaged device, including some cogs, were missing, presumably lying on the sea floor at the wreck site.

Researchers have since returned to the site in hopes of finding these lost pieces, including Jacques Cousteau who found bones at the wreck and pulled up bronze statues in 1976. Two other scientific expeditions took place in 2012 and in 2017.

It was during that last expedition that marine archaeologists from the Greek Ephorate of Underwater Antiquities and Lund University in Sweden uncovered more treasures including pieces of a bronze statue and an encrusted bronze disk with four tabs on it that appeared almost like a cog wheel. That piece, called the Taurus disk because it bears the image of a bull, is the artifact that Haaretz identified as a possible part of the mechanism. But even the article backpedals, conceding, "It will be difficult to prove what exactly the Taurus disk is: part of the original Antikythera Mechanism, part of a second such mechanism, if one existed, or something else entirely.”

As Jamie Seidel at News.com.au reports, experts have not publicly suggested that the disk functioned as a cog wheel. Rather X-rays of the disk conducted last year revealed that image of the bull and the four holes. Following the excavation, Sarah Gibbens of National Geographic wrote that the small disk was “reminiscent” of the Antikythera Mechanism, but that expedition co-leader Aggeliki Simossi said it was unclear what its purpose was. "It is maybe decoration for furniture or maybe a seal, or it could be an instrument," as Simossi told Gibbens. "It is very early to say."

While Haaretz and others reported the bull image suggests the disc was used in the machine to predict the position of the constellation Taurus, it does not appear to be finely crafted enough function as a cog wheel in the precision machine. As Seidel reports, in a best-case scenario, it may have adorned the case the Antikythera Mechanism was housed in, but there is no proven relation to the device.

That does not mean other bits of the mechanism aren’t to be found in the wreck. In fact, the expedition re-examining the wreck, called Return to Antikythera, holds out the possibility that more bits and pieces of the machine, which some believe may have been two distinct devices, can be found.

Whatever the case, the machine was truly ahead of its time, and the world wouldn’t see such intricate mechanical work again for 1,000 years. While we don’t know all we’d like about the mechanism, we are learning more about the ship it sailed on. It was likely a massive Greek grain ship, one of the largest ancient ships ever found, as archaeologist Brendan Foley, who led the new expeditions, tells Haaretz. At the times of its sinking, which likely happened in a storm, it was probably full of grain, statues and wealthy passengers, perhaps one who clung to his prized gadget as he sank into the sea.

Leia também: Mysterious Disk Found in Ancient Greek Shipwreck - By Sarah Gibbens -  National Geographic - October 4, 2017



Vídeos no Youtube mostram o funcionamento do Mecanismo de Anticítera.


Para saber mais, um livro: JONES, A. A Portable Cosmos: Revealing the Antikythera Mechanism, Scientific Wonder of the Ancient World. New York: Oxford University Press, 2017, 312 p. - ISBN 9780199739349.

sábado, 10 de novembro de 2018

Ayrton's Biblical Page: 19 anos online

Criada em 10 de novembro de 1999, Ayrton's Biblical Page está comemorando hoje 19 anos de existência.

Ayrton's Biblical Page celebrates today 19 years online.

Sobre a pesquisa do Pentateuco

Preste atenção nestas datas: 1878 > 1883 > 1974 > 1975 > 1976 > 1977

A teoria clássica das fontes JEDP do Pentateuco, elaborada no século XIX por Hupfeld, Kuenen, Reuss, Graf e, especialmente, Julius Wellhausen (1844-1918), vem sofrendo sérios abalos, de forma que hoje os pesquisadores consideram impossível assumir, sem mais, este modelo como ponto de partida. O consenso wellhauseniano sobre o Pentateuco foi rompido. Lembro que o primeiro livro de Julius Wellhausen sobre o tema foi publicado em 1878 (Geschichte Israels) e o mais importante em 1883 (Prolegomena zur Geschichte Israels).

Julius Wellhausen: 1844-1918 - Alemanha

Thomas L. Thompson (1939) chegou à conclusão de que as narrativas patriarcais estavam refletindo muito mais o primeiro do que o segundo milênio, e a datação tradicional dos patriarcas e sua historicidade caíram por terra. Seu livro foi publicado em 1974.

Thomas L. Thompson: 1939 - Estados Unidos da América

John Van Seters (1935) concluiu que o J deveria ser visto como um autor pós-D, e que a ‘Hipótese Documentária’ deveria ser totalmente revista. Van Seters publicou sua pesquisa em 1975.

John Van Seters: 1935 - Canadá

Em 1976 e em 1977 apareceram os livros de Hans Heinrich Schmid (1937-2014) e de Rolf Rendtorff (1925-2014) sobre o mesmo assunto. H. H. Schmid chegou à conclusão de que o Pentateuco era o produto do movimento profético, assim como o era o livro do Deuteronômio, e de que o J deveria ser visto em estreita associação com a escola deuteronômica nos últimos anos da monarquia ou na época do exílio. Rolf Rendtorff não vê nenhuma conexão original entre Gênesis e Êxodo-Números, mas sim uma posterior costura deuteronomista ligando estas tradições. Donde se conclui que a ideia de fontes, tal como a J, deve ser abandonada, e que a formação do Pentateuco a partir de temas independentes é que deve ser pesquisada.

Hans Heinrich Schmid: 1937-2014 - Suíça

A crise do Pentateuco explodiu, então, em plena luz do dia e ninguém mais podia escapar da constatação de que a teoria clássica das fontes do Pentateuco, pelo menos em sua forma mais rígida, era insustentável.

Rolf Rendtorff: 1925-2014 - Alemanha

Confira: Mudança de paradigma na pesquisa do Pentateuco

quarta-feira, 7 de novembro de 2018

O Dia do Juízo

Dá vontade de revelar o final. Mas, não se pode. Porque Il Giorno del Giudizio [O Dia do Juízo], o livro que Andrea Tornielli e Gianni Valente escreveram (para Piemme, na Itália), não é um romance, mas uma investigação jornalística com o ritmo e as surpresas de um romance policial, cujo final, que ainda não foi escrito, poderia sacudir os fundamentos milenares da solidez vaticana. Uma investigação com muitíssimos documentos exclusivos e depoimentos inéditos, que retrata com precisão de cirurgião o assalto ao Pontificado do Papa Bergoglio por parte de forças que podem ser identificadas em uma mesma sensibilidade conservadora e que, após seis anos tramando na sombra, decidiu revelar a própria opinião sobre um padre argentino revolucionário capaz de voltar a acender a fé nos corações de milhões de pessoas, dando seu justo lugar aos desejos das hierarquias eclesiásticas e concentrando sua atenção nos pobres, humildes e deserdados. A mensagem é mais importante que o medo. Um tremendo chamado às origens do cristianismo que atemoriza o poder consolidado (Andrea Malaguti, O Papa, Viganò e a guerra dos dossiês: todos os detalhes de um livro, IHU Online - 07.11.2018)


Viene voglia di svelare il finale. Ma non si può. Perché Il Giorno del Giudizio, il libro scritto da Andrea Tornielli e Gianni Valente (ed. Piemme), non è un romanzo, ma un’inchiesta giornalistica con il ritmo e i colpi di scena di un giallo, il cui finale, ancora da scrivere, potrebbe scuotere alle fondamenta la millenaria solidità vaticana. Un’inchiesta ricca di documenti esclusivi e testimonianze inedite, che fotografa con precisione chirurgica l’assalto al pontificato di Papa Bergoglio da parte di forze riconducibili a una stessa sensibilità pervicacemente conservatrice, che, dopo sei anni passati a tramare nell’ombra, hanno deciso di portare alla luce il clamoroso dissenso verso un rivoluzionario prete argentino capace di riaccendere la fede nel cuore di milioni di persone, ridimensionando le brame delle gerarchie ecclesiastiche e concentrando la propria attenzione su poveri, umili e diseredati. Il messaggio torna a essere più importante del medium. Un richiamo spiazzante alle origini del cristianesimo che spaventa il potere consolidato (Andrea Malaguti, Il Papa, Viganò e la guerra dei dossier: i retroscena in un libro, Vatican Insider - 06/11/2018)


TORNIELLI, A. ; VALENTE, G. Il giorno del giudizio: Conflitti, guerre di potere, abusi e scandali. Cosa sta davvero succedendo nella Chiesa. Segrate (Milano): Piemme, 2018, 288 p. - ISBN 9788856669725.

TORNIELLI, A. ; VALENTE, G. Il giorno del giudizio: Conflitti, guerre di potere, abusi e scandali. Cosa sta davvero succedendo nella Chiesa. Segrate (Milano): Piemme, 2018, 288 p.

A “bomba” foi só a deflagração mais forte e recente de uma longa guerra que é travada nos anos de pontificado do Papa Francisco: uma batalha agressiva, que envolve grupos de poder e atravessa a Cúria vaticana e as Conferências Episcopais do mundo. No refluxo magmático de clericalismos, lobbies gays e ânsias cismáticas, contudo, não se pode ler o que está acontecendo hoje na Igreja com o esquema amigos-inimigos de Francisco. É preciso ir mais fundo, é preciso entender o que há de verdadeiro e de falso, e quais omissões revelam a instrumentalidade de tantas operações midiáticas, da tentativa de rotular Francisco como herege e da rede político-econômica internacional que sustenta a batalha contra ele, aliada com setores da Igreja estadunidense e com apoios até nos palácios vaticanos. É preciso ler documentos, descobrir os bastidores e ouvir as inquietantes versões dos fatos dos muitos protagonistas postos em causa por essa investigação.

Il tentato "golpe" contro Francesco esplode come "bomba mediatica" a Dublino, la mattina del 26 agosto 2018, durante il viaggio-lampo in Irlanda per l'incontro delle famiglie, che nelle intenzioni del pontefice doveva servire anche a chiedere perdono per lo scandalo degli abusi su minori e seminaristi. È l'invettiva dell'arcivescovo Carlo Maria Viganò, che coinvolge gli entourage di ben tre papi e che accusa Bergoglio di aver coperto il cardinale Theodore McCarrick, arrivando a chiedere le dimissioni del papa. La "bomba" è solo la deflagrazione più forte e recente di una lunga guerra che si combatte negli anni del pontificato di papa Francesco: una battaglia senza esclusione di colpi che coinvolge gruppi di potere e attraversa la curia vaticana e le conferenze episcopali del mondo. Nel rigurgito magmatico di clericalismi, lobby gay e ansie scismatiche, non si può tuttavia leggere quel che accade oggi nella Chiesa con lo schema amici-nemici di Francesco. Occorre andare in profondità, occorre capire cosa c'è di vero e di falso, e quali omissis svelano la strumentalità di tante operazioni mediatiche, del tentativo di bollare come eretico Francesco e della rete politico-economica internazionale che sostiene la battaglia contro di lui, alleata con settori della chiesa statunitense e con appoggi anche nei palazzi vaticani. Occorre leggere documenti, scoprire retroscena e ascoltare le inquietanti versioni dei fatti dei tanti protagonisti chiamati in causa da questa inchiesta.

Andea Tornielli

Leia também:

''O dia do juízo'': foi assim que McCarrick foi nomeado como arcebispo de Washington

“Il Giorno del Giudizio”: così McCarrick venne nominato a Washington

O que está acontecendo na Igreja do Papa Francisco?

Gianni Valente

:. Quem é Andrea Tornielli?
Andrea Tornielli, vaticanista, giornalista del quotidiano "La Stampa" e responsabile del sito web "Vatican Insider", collabora con varie riviste italiane e internazionali. È autore del bestseller, scritto con papa Francesco, Il nome di Dio è Misericordia (pubblicato in 100 Paesi) e di numerose altre pubblicazioni, tra cui ricordiamo la prima biografia del pontefice, Francesco. Insieme (2013), tradotta in 16 lingue. Sempre per Piemme ha pubblicato nel 2017 il volume In viaggio, con una conversazione con papa Francesco.

:. Quem é Gianni Valente?
Giornalista. Collabora con la rivista italiana di geopolitica «Limes» e con «Vatican Insider», il portale plurilingue online del quotidiano «La Stampa» dedicato all’informazione globale sull’attività della Santa Sede e le vicende delle comunità cristiane in tutto il mondo. È autore dei volumi Il Tesoro che fiorisce. Storie di cristiani in Cina (Roma 2002); Ratzinger professore (Edizioni San Paolo, 2008), dove ha ricostruito l'itinerario di studio e d'insegnamento percorso di Joseph Ratzinger nelle facoltà teologiche tedesche; Ratzinger al Vaticano II (Edizioni San Paolo, 2013) e Francesco, un papa dalla fine del mondo (Emi, 2013).


Leia Mais:
Para entender o caso Viganò

quinta-feira, 1 de novembro de 2018

Biblical Studies Carnival 152

Seleção de postagens dos biblioblogs em outubro de 2018.

October 2018 Biblical Studies Carnival

Trabalho feito por Jacob J. Prahlow em seu blog Pursuing Veritas.

terça-feira, 30 de outubro de 2018

Apocalíptica: literatura de resistência

Os desastres se sucederão. Haverá boato sobre boato.

Na segunda-feira, 29, no Segundo Ano de Teologia do CEARP, começamos o estudo da literatura apocalíptica judaica, item da Literatura Pós-Exílica.

É uma introdução ao tema, com exemplos do livro de Daniel e de alguns apócrifos.

A citação acima é de Ezequiel. Falando da crise que se aproxima no confronto com a Babilônia, no século V a.C., o profeta alerta: “Os desastres se sucederão; haverá boato sobre boato. Buscar-se-á uma visão de profeta, mas a lei fará falta ao sacerdote, e o conselho aos anciãos” (Ez 7,26).

Acabei de ler um artigo sobre a pesquisa do livro de Daniel nos últimos 20 anos.

Recomendo:

MERRILL WILLIS, A. C. A Reversal of Fortunes: Daniel among the Scholars. Currents in Biblical Research, Vol. 16(2), 2018, p. 107­–130.


Quem é Amy C. Merrill Willis?

Amy C. Merrill Willis

quarta-feira, 24 de outubro de 2018

Geocodificação: localidades bíblicas no Google Earth

Bible Geocoding: The location of every identifiable place mentioned in the Bible.

Bible Geocoding


Complete Bible. Also available: KMZs arranged by book and by chapter. Turn book or chapter layers on and off to see patterns across the Bible. Use Google Earth to open KML and KMZ files.

Atlas: the atlas lists all the places alphabetically, complete with thumbnails, verses, and photos (when available).

Overlays: overlays for Google Earth let you see how maps of ancient and modern Jerusalem fit satellite imagery.

Bodies of Water: download a KML with outlines of the most of the bodies of water in the Bible.

Photos: about 10,000 photos of places in the Bible. These photos use the Flickr and Panoramio APIs and are thus of varying quality—many of them just happen to be of people or places near the ancient locations. But a lot of the photos are quite helpful: see Beersheba, Capernaum, and Ur, for example. I recommend BiblePlaces.com for professional-quality photos of places in the Holy Land. Todd Bolen has done a fantastic job taking and collating photos.


O que é geocodificação?

terça-feira, 23 de outubro de 2018

A História de Israel e Judá na pesquisa atual V

:. A História de Israel e Judá na pesquisa atual I
:. A História de Israel e Judá na pesquisa atual II
:. A História de Israel e Judá na pesquisa atual III
:. A História de Israel e Judá na pesquisa atual IV
:. A História de Israel e Judá na pesquisa atual V

TOBOLOWSKY, A. Israelite and Judahite History in Contemporary Theoretical Approaches. Currents in Biblical Research, Vol. 17(1), 2018, p. 33-58.

Este artigo de Andrew Tobolowsky, História israelita e judaíta em abordagens acadêmicas contemporâneas, analisa a evolução do estudo das histórias de Israel e Judá, com ênfase nos últimos dez anos. Durante esse período, tem havido um interesse crescente em evidências extrabíblicas como o principal meio de construir histórias abrangentes, e um renascimento do interesse em teorias pós-modernas. Este estudo oferece uma discussão geral sobre as tendências da última década, considerando a possibilidade dos autores judaítas só terem assumido uma identidade israelita após a queda de Israel [= reino do norte]. Depois de mostrar as principais tendências nos estudos da Bíblia e da História de Israel de modo genérico, o autor aborda o período pré-monárquico, a monarquia unida, os dois reinos de Israel e Judá e o exílio babilônico e, por fim, a época persa.

This article surveys developments in the study of the histories of ancient Israel and Judah with a focus on the last ten years. Over that period there has been an increased focus on extrabiblical evidence, over biblical text, as the primary means of constructing comprehensive histories, and a revival of interest in post-modern and linguistic-turn theories with respect to establishing what kinds of histories should be written. This study offers a general discussion of the last decade’s trends; an inquiry into the possibility that Judahite authors only assumed an Israelite identity after the fall of Israel; and an era-by-era investigation of particular developments in how scholars think about the various traditional periods of Israelite and Judahite history. The latter inquiry spans the pre-monarchical period to the Persian period.

Andrew Tobolowsky: Visiting Assistant Professor at the College of William and Mary in Williamsburg, Virginia, USA.

Sempre que o assunto tiver sido tratado em minha página, Ayrton's Biblical Page, ou neste blog, Observatório Bíblico, colocarei um link. As principais obras citadas terão links para a Amazon.com.br. O texto em português é um resumo e uma tradução livre minha. O texto em inglês na parte final do post é citação do artigo. A publicação será feita em 5 postagens.

DAVIES, P. R. ; RÖMER, T. (eds.) Writing the Bible: Scribes, Scribalism and Script. Abingdon: Routledge, 2014, 224 p.



5. A época persa - The Persian Period and Beyond

A época persa tem sido extensamente reavaliada nos estudos da última década. Se há uma mudança de paradigma nos estudos, é aqui que ela acontece. Propostas estão sendo abandonadas, como a de uma "revolução religiosa" no Yehud ou, pelo menos parcialmente, a teoria da Autorização Imperial Persa. Estas propostas podem ser conferidas em E. Stern, 1999, 2006, 2010; Christian Frevel et alii, 2014; James W. Watts, 2001.

Constata-se que na época persa surgiu um significativo interesse pelo passado, presente na visão bíblica da história que então se desenvolveu. Assim, têm sido publicados muitos estudos recentes sobre o período persa, considerado como época crucial para a formação textual de todos os tipos, incluindo o Tetrateuco, Pentateuco, Hexateuco e Eneateuco, bem como de outros materiais que tentam pensar a identidade judaica.

Por exemplo: Erhard Blum, em T.B. Dozeman ; K. Schmid (eds.), A Farewell to the Yahwist? The Composition of the Pentateuch in Recent European Interpretation (2006) e em  T. B. Dozeman ; T. Römer ; K. Schmid (eds.), Pentateuch, Hexateuch or Enneateuch? Identifying Literary Works in Genesis through Kings (2011); J. C. Gertz, em T. B. Dozeman ; K. Schmid (eds.), A Farewell to the Yahwist? The Composition of the Pentateuch in Recent European Interpretation (2006); Thomas Römer, em Joel S. Baden (ed.), The Strata of the Priestly Writings: Contemporary Debate and Future Directions (2009); Konrad Schmid, 2007, 2012a e 2012b; Thomas Römer & M.Z. Brettler, 2000; E. Ben Zvi, 2011; David S. Vanderhooft, 2011; J. Berquist, 2006.

A Obra do Cronista também tem sido reavaliada. O Cronista sempre foi relegado a segundo plano, quando comparado com a Obra Histórica Deuteronomista quanto à sua peculiar reconstrução histórica. Mas hoje, como sugere E. Ben Zvi, em 2009, podemos avaliar o seu poderoso senso de centralidade "etnocultural", que parece ter sido uma característica da época persa. O Cronista queria apresentar aos seus leitores uma visão diferente da perspectiva Deuteronomista. Por isso suas divergências.

Outros chamam a atenção para os erros e contradições do livro de Esdras, ao mesmo tempo em que defendem a historicidade das memórias de Neemias (Ne 1,1-7,5; 12-13). Assim, Lester L. Grabbe, 1998; David M. Carr, 2011; J. Blenkinsopp, em James W. Watts (ed.), Persia and Torah: The Theory of Imperial Authorization of the Pentateuch (2001).

Tudo isso nos mostra que, para compreendermos a reconstrução pós-exílica, devemos olhar menos o período imediato após a ascensão de Ciro, no século VI a.C., e muito mais o final da época persa, ou seja, o final do século V e o começo do seculo IV a.C. Nesta época é que teria ocorrido a "recuperação" do passado de Israel pelos autores bíblicos.

Observa-se, então, que os principais estudos da época persa não buscam a descoberta de novos dados, embora isto também tenha ocorrido, mas a interpretação de dados já conhecidos com métodos mais adequados. Como observa Ian D. Wilson, em 2016, a questão não é se alguns corpora bíblicos contêm material que remonta à Idade do Ferro, o que já foi demonstrado, mas como este material está representado nas formas discursivas pós-monárquicas. O que parece ser urgente é a construção de um modelo mais eficaz que consiga relacionar a história das tradições bíblicas com a construção de sua narrativa em um tempo determinado por um limitado grupo de atores.

Neste sentido trabalha K. L. Noll, em 2008, quando questiona o alcance das tradições bíblicas: em que proporção as tradições bíblicas chegaram às pessoas que viveram naquela época e naquela região? Parece cada vez mais claro, por exemplo, que muitas tradições nunca chegaram em Elefantina. Philip R. Davies e Thomas Römer, em 2014, também discutiram isso. Os ensaios desta obra tratam da divulgação de textos, da formação de livros e cânones e dos efeitos sociais e políticos da escrita e do conhecimento textual. As questões centrais discutidas incluem o status do escriba, a natureza da "autoria", a relação entre copiar e redigir e o status relativo do conhecimento oral e escrito.

Quanto tempo demorou para a Bíblia se tornar, não apenas canônica, mas "sagrada"? Quer dizer: tratada com o respeito devido às Escrituras como autoridade última e como algo que não poderia mais ser alterado. Datas limites para a canonização têm sido apresentadas de maneira consistente, mas a questão da "sacralidade" está apenas começando a ser tratada. Michael L. Satlow, em 2014, aborda isso.

Os estudos de Eva Mroczek, de 2015 e 2016, sobre a cultura literária extrabíblica, em épocas em que tipicamente se presumia uma "hegemonia do bíblico", são importantes. Thomas Römer também estudou, em 2012, a relação entre as narrativas bíblicas e o mundo mais vasto dos textos judaicos posteriores.

No último parágrafo do artigo, Andrew Tobolowsky nos diz que estes estudos não apenas descrevem o que está sendo pesquisado sobre a época persa e sua literatura, mas nos indicam o rumo que as pesquisas estão tomando. Devemos continuar enfrentando estas questões, tentando descobrir o que significa uma visão bíblica de história criada em um contexto específico por um conjunto específico de razões. E são diferentes interpretações de uma mesma história. Mais: histórias que levaram algum tempo para se tornar um relato significativo das vivências de Israel. Conhecer isso determinará o modo como contaremos a história, ou melhor, as histórias de Israel. Isto está apenas começando. 

SATLOW, M. How the Bible Became Holy. New Haven: Yale University Press, 2014, 416 p.



No period in the traditional sequence of biblical history has undergone a greater paradigm shift in the last decade than the Persian period. While various more dramatic proposals about it seem to have been largely set aside (e.g., Stern’s theory of a ‘Religious Revolution’ in Yehud and to a certain degree the so-called Persian Imperial Authorization theory [Stern 1999; 2006; 2010; Frevel, Psychny, and Cornelius 2014; Watts 2001]), many of the relevant developments have to do with reassessments of what has actually long been visible.

It now seems likely that the late Persian period did feature the kind of revival of interest in the ancient Israelite past that might explain its importance as the locus in which the biblical vision of history finally emerged (Lipschits and Vanderhooft 2006, 2014; Vanderhooft 2011: 540; Frevel and Pyschny 2014; Leith 2014; Bocher and Lipschits 2013; Wyssmann 2014). There have therefore been a number of studies recently on the Persian period as the crucial site for textual formation of all sorts, including of the Tetrateuch, Pentateuch, Hexateuch, and Enneateuch, as well of other materials focused on the formation of familiar biblical ways of thinking about ethnic identity at that time (Blum 2006; 2011; Gertz 2006; Römer 2009; Schmid 2007, 2012a, 2012b; Römer and Brettler 2000; Ben Zvi 2011a, 2011b; Knoppers 2001, 2003; Vanderhooft 2011; Berquist 2006).

Indeed, as Ben Zvi (2009: 60) suggests, the composition of Chronicles, Ezra, and Nehemiah may even have been motivated by an explicit desire ‘to shape, communicate, and encourage its readers to... vicariously relive through their reading a somewhat different past than the one shaped...through the reading of the deuteronomistic history, and for that matter, the Primary History’ (2009: 60). As a composition, it is ‘strongly shaped by the powerful sense of “ethnocultural” centrality that characterized the postmonarchic and most likely Persian-period works that eventually became included in the HB’ (2009: 77).

Others, in reconstructing the overall shape of Persian-period interactions with the biblical past, have drawn attention to the ramifications of the historiographical errors (and contradictions) in the account of the immediate aftermath of the Persian conquest in the book of Ezra. By contrast, there is also a growing consensus with respect to the plausibly historical character of the so-called ‘Nehemiah Memoir’, usually located in Neh. 1.1–7.5 and 12–13 (Grabbe 1998: 122-23, 152; Carr 2011: 205-208; Blenkinsopp 2001: 57). The combination of these factors, demonstrating that the late sixth and much of the fifth century bce were remembered rather poorly by biblical authors and that Jerusalem was apparently still essentially a ruin by the middle of the fifth century, suggests that scholars should look to the late fifth and early fourth centuries bce —and not the immediate aftermath of Cyrus’s conquest—for the major locus of the Yehudite ‘recovery’ of an Israelite past.

So, again, the major trends operating in the study of the Persian period today do not have as much to do with the uncovering of new data, although this has also occurred, as they do with the replacement of flawed models of tradition inheritance and representation with approaches more in tune with contemporary theorizing. As Wilson notes, the overall issue is not whether any biblical corpora contain material that dates to the Iron Age, as it seems clear that many do. Instead, it is that nevertheless their repetition in biblical form is primarily ‘representative of distinctly postmonarchic discursive formations’ (2016:6).

What now seems most necessary in confronting the biblical account of the past—as intimated in this article’s introductory discussion of theoretical trends—is the development of a new and more active model of the relationship between the history of biblical traditions and their construction into a comprehensive narrative account within a fairly limited time horizon by a fairly limited number of actors.

In this vein, Noll’s (2008) recent discussion of the flaws in typical approaches to doctrinal dissemination is very valuable. As he points out, despite nearly constant assumptions to the contrary, it is actually quite difficult to explain how biblical traditions would ever have reached most of the people who had lived in the region historically, and it now seems increasingly clear that many such traditions had not reached, for example, the Persian garrison at Elephantine. A similar discussion has also been produced by Davies, in a collection dealing generally with crucial issues in the writing of biblical literature (Davies 2014; Davies and Römer 2014). Obviously, what we can say about scribal culture, and when, must determine in large part how we reconstruct the reception of biblical and pre‐biblical texts throughout Israelite and Judahite history.

Michael Satlow (2014) has recently drawn attention to how very long it was before the Hebrew Bible was, in his term, ‘holy’, by which he means not just canonized but treated with the respect appropriate to scripture as an ultimate authority and as something that could no longer be altered. The late frontier of the former has been acknowledged consistently for some time, but the importance of the late date of the latter is just now beginning to be appreciated.

Towards that end, Eva Mroczek’s (2015; 2016) recent studies of extra-biblical literary culture, demonstrating its considerable creativity with respect to biblical subjects well into periods in which, in her term, the ‘hegemony of the biblical’ had been presumed, is of special importance.

Thomas Römer (2012) has also studied the possibility that biblical narratives were influenced by the wider world of Jewish textuality in later periods. In other words, neither the worlds of biblical textuality nor extrabiblical textuality were closed to each other or clearly dominated by the other until much later than has typically been supposed.

Not only do these studies represent crucial developments with respect to thinking about the Persian period and its literature, they are also intimations of where this field of study is generally likely to go. We will and must keep grappling with what it means that the biblical vision of history was ultimately created in a specific context, for a specific set of reasons; that it would not have matched everyone’s vision of the same history at that time or previously; and that, once completed, it did not immediately (or quickly) become the pre‐eminent account of  Israelite history. What this will do to how we tell the history—rather histories—of Israel is just now coming into view.