segunda-feira, 19 de janeiro de 2015

Marcos: um relato da prática de Jesus

Leia primeiro aqui.

Este é um texto mais curto do que o anterior e em linguagem mais simples, que foi preparado em 1981 para ser usado pelo Serviço de Pastoral Litúrgica da Arquidiocese de Ribeirão Preto em 1982 e que fez parte do Projeto Marcos, um conjunto de atividades pastorais tendo o evangelho de Marcos como centro. O projeto foi estudado na reunião do clero em setembro, em Brodowski, e aprovado na reunião da Coordenação de Pastoral no dia 16 de setembro de 1981 com a presença do arcebispo Dom Bernardo José Miele. O texto da revista Estudos Bíblicos da postagem anterior é mais longo e a abordagem mais acadêmica, mas neste aqui a proposta de leitura de Marcos é a mesma.


Chegar em Marcos de que lado? Geralmente a gente começa pelo autor, data e lugar  em que o livro foi escrito, e as pessoas para quem o autor escreveu. Só depois é que se vai ao texto. 

Vamos percorrer outro caminho. Não é atalho não. Talvez seja até mesmo dar volta. Mas deve valer a pena. Vamos começar pelo texto. Depois que compreendermos o texto e a maneira como foi criado, vamos compreender o resto. É uma proposta.


1. Narrando um prática
De entrada uma coisa chama a nossa atenção em Marcos. Ainda no início do evangelho, Mc 1,21-22, diz o texto: “Entraram em Cafarnaum e, logo no sábado, foram à sinagoga. E ali ele ensinava. Ficaram encantados com o seu ensino, porque lhes ensinava com autoridade e não como os escribas - (os doutores da Lei)”.

Logo no v. 23 o texto passa a contar uma ação de Jesus. E o que é que ele ensinava? O texto não diz. Casos como esses vão se repetir por todo o evangelho (Marcos só indica o conteúdo deste ensinamento ou pregação quando trata da paixão (8,31; 9,31) e de ensinamentos particulares (capítulos 11-12). O que significa isto?

É que o texto de Marcos, ao contrário de Mateus e Lucas, preocupa-se muito mais com a prática de Jesus do que com seu discurso (seu ensinamento). A narração de Marcos não é, na verdade, uma coleção de “palavras” ou de “discursos” de Jesus, mas a exposição de suas práticas e estratégias. E podemos esclarecer: para Marcos a atuação concreta de Jesus, sua prática é que é seu ensinamento. A boa nova não é um ensinamento só em palavras, mas um ensinamento através de determinadas ações concretas.

2. Os atores do texto
Então, percebendo isto, é bom a gente começar a se preocupar com as atitudes do personagem principal do texto, que é Jesus. E também com as atitudes dos outros personagens que se movimentam ao redor de Jesus ao longo desses 16 capítulos.

Quem são esses personagens?

O personagem principal, sem sombra de dúvida, é Jesus. Ao redor dele movem-se seus seguidores, os discípulos. Por sinal, o Jesus de Marcos é sempre um Jesus com os discípulos, menos em duas ocasiões; quando os discípulos partem em missão e quando Jesus é preso. Outro grupo que se destaca é a multidão que procura Jesus, porque o admira e precisa de seus milagres. Finalmente, do outro lado da barricada, estão os representantes do poder judaico: fariseus, escribas, herodianos, anciãos, chefes dos sacerdotes, saduceus. E romanos. São os seus inimigos, gente que o procura para vigiar, investigar, prender e matar.

Agora, começando pelo início do evangelho, podemos observar como é que se movimentam estes personagens na construção do texto de Marcos.

3. Caminho programático
Mc 1,1 é o título do livro. Um título que é uma confissão de fé, uma afirmação que Marcos vai demonstrar ao longo dos 16 capítulos. Jesus é confessado como o Cristo e como o Filho de Deus.

Mc 1,2-15, a introdução do evangelho, nos oferece três destaques que vale a pena anotar:
1. Observamos, em primeiro lugar, a importância da voz: do profeta, de João, do céu, de Jesus. A voz do céu interrompe de vez a de João, que desaparece e autoriza a voz de Jesus. Sua pregação começa já nos vv. 14-15.
2. Há, neste início de evangelho, um caminho geográfico seguido por Jesus: Galileia - Judeia - Galileia. Este caminho é programático, ou seja, é o programa geográfico de todo o evangelho. Antecipa, programando, o caminho seguido por Jesus: atuação na Galileia - na Judeia - volta à Galileia, ressuscitado. É bom a gente notar, desde já, que esta geografia de Mc é artificial, não é real.
3. A descida do Espírito inicia um tempo novo, que será o tempo da atuação de Jesus.

4. Um dia de Jesus na Galileia
Mc 1,16-45 descreve um dia de Jesus na Galileia, num arranjo artificial de Marcos. E, neste primeiro dia do texto, já são definidas várias posições:
1. Jesus situa-se em um grupo, para começar a ação própria de sua missão. Este primeiro grupo é formado por seus discípulos Simão, André, Tiago e João, filhos de Zebedeu. Todos pescadores, galileus, gente pobre e marginalizada na sociedade israelita. Esta ação de Jesus acontece em Cafarnaum e arredores, atingindo pouco a pouco toda a Galileia.
2. A ação de Jesus é de três tipos:

  • ensinamento novo, com autoridade
  • expulsão dos espíritos impuros
  • curas

3. Esta ação de Jesus provoca uma estratégia da multidão, isto é, ela usa certos meios para conseguir seu objetivo: procurar Jesus. E Jesus responde com outra estratégia: evitar a multidão, ficando fora das cidades.

5. A subversão da ideologia judaica
Mc 2,1-3,6 vai apresentar cinco controvérsias (discussões) de Jesus com os escribas e os fariseus. A ação de Jesus provoca duas leituras da realidade, duas maneiras diferentes de ver a realidade:

  • a dos seus adversários, que querem guardar a ideologia judaica, e que seguem a Lei e os esquemas sociais da época
  • e a do próprio Jesus, que está baseada num esquema novo: a chegada do reino de Deus, dentro do qual ele se situa.

Observamos, portanto, nestas cinco controvérsias, que:
1. A ação de Jesus é sistematicamente apresentada como subversiva da ideologia judaica
2. Os inimigos de Jesus, representados pelos escribas, fariseus e herodianos, utilizam a estratégia da tentação (= provocação), que chega ao máximo na decisão de matá-lo
3. Este conjunto de textos é excelente para mostrar como cada um interpreta os acontecimentos de acordo com o lugar que ocupa na sociedade ("Cada um puxa a brasa para a sua sardinha", diz o ditado).

Mc 3,6 termina uma primeira parte do texto e está na hora de fazermos um balanço do que aconteceu até aqui. Relendo Mc 1,2-3,6 anotamos quatro coisas importantes:
1. A voz do céu em 1,11 é dirigida a Jesus. Ele é eleito por Deus, que lhe dá a capacidade para sua missão.
2. Em 1,14 Jesus inaugura as suas atividades, começando uma série de ações que provocam algumas perguntas entre os seus ouvintes:

  • Quem é Jesus?
  • Com que autoridade ele age?
  • Será que chegou o momento da intervenção definitiva de Deus na história dos homens?

3. Os adversários analisam a ação de Jesus a partir de seus esquemas sociais e legais. Jesus apresenta suas ações como subversivas da ideologia judaica e as analisa segundo um esquema novo: da chegada do reino de Deus, dentro do qual ele se situa. Isto leva os adversários a decidirem a sua morte.
4. Qual é a estratégia de Jesus? Ele não quer que sua messianidade seja revelada pelos demônios. Estes, como seres não humanos, sabem quem ele é. Também a multidão não deve divulgar que Jesus é o Messias.

6.  Mc 3,7-8,30: Jesus é o Messias, dizem os discípulos
A partir de Mc 3,7 o texto sofre uma reviravolta: começa aqui uma distinção clara entre a multidão e os discípulos: "Jesus retirou-se com os seus discípulos" e a multidão o seguia. Esta separação entre os dois grupos vai sendo realizada progressivamente até chegar ao máximo em 8,29 com a confissão de Pedro reconhecendo Jesus como o Messias. O barco, usado a partir deste momento, será um elemento fundamental para definir o círculo "Jesus + discípulos" que se distancia, geográfica e estrategicamente, da multidão. Mc 3,7-12 é uma espécie de programa do texto que vai até 8,30, onde termina a primeira parte do evangelho de Marcos.

Olhando do alto, podemos anotar em Mc 3,7-8,30 seis elementos de destaque:
1. O barco é um elemento de união destes trechos narrativos. Ele aparece em 3,9 e desaparece em 8,14.
2. Os personagens principais que tomam conta do texto são: Jesus, a multidão e os discípulos. Os adversários aparecem bem menos.
3. O texto separa claramente o ensinamento à multidão e o ensinamento aos discípulos. Somente os discípulos saberão ler as práticas de Jesus como sendo práticas messiânicas.
4. Observando-se o texto, vemos as várias leituras feitas a partir da ação de Jesus. Vê-se também a sua estratégia como resposta a estas leituras. Assim parece que o tema central aqui é o segredo messiânico, elemento fundamental no evangelho de Marcos.
5. Relendo a estratégia de Jesus:

  • em relação aos inimigos: ele evita as cidades; entra às escondidas; deixa-os e vai para outro lugar. O motivo: os adversários querem matá-lo.
  • em relação à multidão: às pessoas curadas por ele (e aos demônios) ele proíbe de falar, para evitar um messianismo político. Por outro lado, ele não rejeita a multidão. Está no meio dela, curando e ensinando. Mas, em geral, ele se afasta quando há um número exagerado de pessoas.
  • em relação aos discípulos: formam um círculo ao redor de Jesus e ele age e ensina-lhes separado da multidão. Insiste para que o reconheçam como o Messias.

6. Mc 8,27-30 é o miolo do evangelho. O barco é substituído pelo caminho. Os discípulos ao redor dele, passam a ser os discípulos que o seguem. Jesus, finalmente, faz diretamente aos discípulos a primeira pergunta:"Quem dizem os homem que eu sou?" E separa claramente a multidão e os discípulos: “E vocês, quem dizem que eu sou?” A resposta de Pedro é fundamental: “Tu és o Messias”. Só os discípulos chegam a compreender a ação de Jesus como messiânica. Pedro é o símbolo dos cristãos de todos os tempos.

7. A subida a Jerusalém
Mc 8,31-10,52 é o passo seguinte. A partir de 8,31 Jesus estará preocupado em mostrar aos seus discípulos que o caminho seguido por ele é diferente da esperança messiânica israelita na libertação do poder romano. Podemos resumir isto em quatro pontos:
1. A partir da confissão feita pelos discípulos, reconhecendo o messianismo, Jesus vai explicar-lhes que tipo de Messias ele é: não um Messias glorioso e rei poderoso, como esperavam os judeus, mas um Messias que sofre e morre na cruz, ressuscitando em seguida.
2. Este ensinamento é dado em parte na Galileia (estar ao redor de Jesus) e em parte no caminho para Jerusalém (seguir Jesus).
3. A subida para Jerusalém mostra uma estratégia precisa de Jesus: ele vai se colocar frente a frente com o pensamento judaico, representado pelos sumos sacerdotes, anciãos, escribas e saduceus.
4. Jesus propõe uma prática messiânica e eclesial oposta à maneira de pensar e de agir da sociedade da época: eles querem dominar, Jesus manda servir; querem guardar a vida para si, Jesus manda perdê-la; querem ser ricos, Jesus prefere a pobreza; fazem de tudo para serem os primeiros, Jesus prefere os últimos; eles querem parecer adultos, Jesus pede para que se tornem como crianças.

8. A rejeição definitiva do judaísmo
Mc 11,1-13,37 mostra o confronto de Jesus com o centro do poder judaico, em Jerusalém, no Templo. Confronto que vai acabar na rejeição definitiva do judaísmo por parte de Jesus e de Marcos. É que devemos pensar que Marcos se preocupa com a vida da comunidade em Antioquia ou na Galileia (talvez em Roma), para a qual ele escreve seu evangelho por volta de 70 d.C. Resumindo em três pontos, observamos que:
1. Nestes textos Jesus age e ensina no Templo, centro do poder religioso judaico. Só que durante a noite ele se retira de Jerusalém para os povoados vizinhos, onde certamente está mais seguro.
2. A prática e o ensinamento messiânicos de Jesus rejeitam o judaísmo em favor de uma abertura do cristianismo aos gentios (os não-judeus). E isto porque os judeus primeiro rejeitam o Messias. Esta abertura ao mundo gentio acontecia nas primeiras comunidades. Seu grande teórico foi Paulo de Tarso, que defendia a salvação também para os gentios que não viviam debaixo da Lei e das obrigações judaicas.
3. O Templo de Jerusalém, simbolizado pela figueira que nada produz, será destruído no ano 70 por Tito, general romano. Marcos mostra que isto é uma consequência da rejeição do Messias pelos sumos sacerdotes, escribas e anciãos.

9. Abandonado por todos, Jesus é executado como rebelde
Mc 14,1-16,8 conta os últimos acontecimentos vividos por Jesus em Jerusalém: é o momento da sua prisão, morte e ressurreição. Vejamos como isto nos é contado por Marcos:
1. É o momento do encontro final entre “Jesus + discípulos” com os adversários. Isto só é possível na medida em que um discípulo, Judas Iscariot, passa para o outro lado e o entrega.
2. Não é só Judas quem o nega. Também Pedro o faz. Mas há uma diferença essencial nas duas rejeições: Pedro nega em palavras, mas não o faz de fato; Judas não o diz, mas faz.
3. O texto tem a preocupação constante de mostrar que Jesus caminhou conscientemente para a sua morte: é a única maneira de abafar o escândalo de seu fracasso, transformando-o em vitória.
4. A partir de sua prisão, Jesus é levado passivamente de um lado para outro, em flagrante contraste com sua atitude tão autônoma e independente quando demonstrava o seu messianismo através de variados sinais.
5. Os seus adversários não aparecem como indivíduos, ninguém é chamado pelo nome, mas são vistos como classe, defensores da ordem judaica. Diante deles, Jesus declara claramente o seu messianismo. Todo o processo é descrito como uma farsa e Pilatos condena Jesus como se fosse zelota, agitador político, “rei dos judeus”.
6. Contra Jesus unem-se o poder judaico, os romanos e a multidão. Multidão nacionalista que prefere libertar um dos seus líderes zelotas. Jesus está complemente só.
7. O evangelho de Marcos termina em 16,8. Não se sabe, segundo seu texto, das aparições de Jesus ressuscitado. As mulheres que encontraram o túmulo vazio nada contam a ninguém. Parece que Marcos esperava a volta definitiva do Messias na Galileia, para breve. O texto se abre para o mundo gentio (não-judeu). Mais tarde, a comunidade, que não entendeu estar completo o texto até Mc 16,8, acrescenta-lhe os vv. 9-20.

10. Quem é o autor do texto?
A tradição identificou o autor com João Marcos, judeu de Jerusalém (At 12,12), companheiro de Paulo e Barnabé (At 12,25;13,5.13;15,37-39), também companheiro de Pedro em Roma (1Pd 5,13).

Mas é preciso tomar cuidado com estas afirmações. O autor foi um cristão da segunda geração cristã! Só isto é que sabemos com toda certeza.

Marcos é o primeiro evangelho a ser escrito, talvez por volta do ano 70, em algum lugar do Império Romano, sendo Antioquia, na Síria, o lugar mais cotado. Ou talvez na Galileia ou mesmo em Roma. Escrito em grego, com um vocabulário simples e popular, Marcos tem como leitores, com certeza, uma comunidade composta em sua maioria de pobres e gentios.


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