sexta-feira, 31 de outubro de 2014

Triunfalismo aecista em Minas Gerais vira farelo

A projeção triunfalista de que Aécio ganharia as eleições presidenciais com grande folga em Minas acabou se transformando na principal debilidade do PSDB. Ao contrário dos piores prognósticos tucanos, o candidato perdeu na sua terra natal por mais de 500 mil votos no 2º turno.

Muitos aecistas, inconformados com a derrota, ainda estão se perguntando: Por que Aécio perdeu em Minas? Por que Aécio perdeu em casa?

Hoje li algo interessante.

O artigo Por que Aécio perdeu em casa? de Najla Passos. Foi publicado em Carta Maior em 29/10/2014.

Começa assim:

Com forte controle da imprensa, cooptação dos poderes e um grande arco de alianças que, nas eleições municipais de 2008, chegou a envolver até mesmo a maioria do PT estadual, o PSDB passou quase uma década vendendo a imagem de uma Minas Gerais unificada em torno da figura do tucano Aécio Neves, que governou o Estado de 2003 a 2010. Mas o partido enalteceu tanto a imagem do Estado que vendia nas propagandas oficiais que acabou acreditando nela.

A projeção triunfalista de que Aécio ganharia as eleições presidenciais com grande folga em Minas acabou se transformando na principal debilidade do PSDB. Ao contrário dos piores prognósticos tucanos, o candidato perdeu na sua terra natal por mais de 500 mil votos no 2º turno.

Mais para a frente diz:

De acordo com o cientista político Juarez Guimarães, professor da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) ... a vitória do candidato petista Fernando Pimentel para o governo de Minas, somada à derrota de Aécio para Dilma no Estado, já no 1º turno, provocou intensa movimentação na base de apoio do PSDB, formada por mais de 20 partidos. Com a vitória do petista e a derrota de Aécio na sua terra natal, prefeitos do interior do Estado, de várias legendas, começaram a migrar para o PT. “Uma das explicações fortes é que houve essa migração de bases fisiológicas do Aécio Neves para a candidatura da Dilma. Em uma vitória em 2º turno por 51,64% a 48,36% dos votos, esta migração teve grande relevância”, esclarece.

Além disso, o professor explica que os mineiros entraram no 2º turno frente a duas grandes derrotas para Aécio, o que dissolveu toda a aura e toda a simbologia política da sua condição de disputar as eleições nacionais com o discurso de que ele representava Minas Gerais, de que ele reafirmava a unidade de Minas Gerais.

“É importante lembrar, inclusive, que nas últimas disputas eleitorais no Estado, o PSDB chegava a afirmar que ‘Minas é Aécio’. Uma afirmação talvez mais forte do que aquela de Luiz XIV de que ‘O Estado sou eu’. Em Minas, é ‘O Estado e a sociedade sou eu’. Uma afirmação muito triunfalista, que revelava essa ideologia do aecismo em Minas Gerais”, acrescenta Juarez.

E ainda:

Já a inédita exposição do projeto tucano ao contraditório no Estado, ainda conforme ele [Juarez], se deve a um processo mais amplo. Para o cientista político, o PSDB monopolizou o discurso eleitoral no Estado por quase uma década, com base em um forte controle midiático e no enfraquecimento da oposição. Em Minas Gerais, ao contrário do resto do país, houve uma aliança entre a maioria do PT com o PSDB, em 2008, para indicar Marcio Lacerda, do PSB, à prefeitura de Belo Horizonte.

“Por alguns anos, a oposição ao Aécio ficou muito enfraquecida, pelo fato do seu principal partido apoiar o governo. Então, nós passamos de uma situação em que o Aécio não tinha que enfrentar o contraditório para uma situação em que ele teve que lidar com forte contraditório, com capacidade de vocalização pública. E, ao invés de conseguir unir Minas, acabou por revelar as forças sociais que dividem o Estado”, esclarece.

E, quase no final:

Juarez Guimarães ressalta, por fim, que, nos últimos anos, no Estado, houve um acúmulo muito importante dos movimentos sociais de oposição ao projeto do PSDB, que conseguiram criar um espírito público de oposição no Estado.


Leia o texto completo.


Leia Mais:
Eleições 2014: quem ganhou e quem perdeu?
Aécio

quinta-feira, 30 de outubro de 2014

Carta dos Excluídos aos Excluídos

Encontro dos Movimentos Sociais com o Papa produz Carta dos Excluídos aos Excluídos - Cristina Fontenele: Adital 30/10/2014

O histórico Encontro Mundial dos Movimentos Sociais (EMMS) com o Papa Francisco debateu três temas principais – pão, terra e lar – e produziu uma Declaração Final, uma espécie de "Carta dos Excluídos ao Excluídos”, que servirá de base de trabalho para os movimentos sociais em seus respectivos países.

Realizado entre 27 a 29 de outubro no Vaticano, o Encontro foi organizado e promovido pelo Pontifício Conselho da Justiça e da Paz e teve como objetivo o fortalecimento da rede de organizações populares, favorecendo o conhecimento recíproco e promovendo a colaboração entre os movimentos e as Igrejas locais.

Em três dias, reuniram-se mais de 100 dirigentes de movimentos sociais, assim como bispos, agentes de pastorais, intelectuais e acadêmicos de todo o mundo para uma troca de experiências e ideias.

Leia o texto.

Também em espanhol:
Encuentro de los Movimientos Sociales con el Papa produce Carta de los Excluidos a los Excluidos

El histórico Encuentro Mundial de los Movimientos Sociales (EMMS) con el Papa Francisco debatió tres temas principales –pan, tierra y hogar– y produjo una Declaración Final, una especie de "Carta de los Excluidos a los Excluidos”, que servirá de base para el trabajo de los movimientos sociales en sus respectivos países.

Realizado entre el 27 y el 29 de octubre en el Vaticano, fue organizado y promovido por el Pontificio Consejo de la Justicia y de la Paz, y tuvo como objetivo el fortalecimiento de la red de organizaciones populares, favoreciendo el conocimiento recíproco y promoviendo la colaboración entre los movimientos y las Iglesias locales.

En tres días, se reunieron más de 100 dirigentes de movimientos sociales, así como obispos, agentes de pastorales, intelectuales y académicos de todo el mundo para un intercambio de experiencias e ideas.

quarta-feira, 29 de outubro de 2014

Eleições 2014: quem ganhou e quem perdeu?

Tão importante quanto dizer quem ganhou e quem perdeu é dizer quem saiu ganhando e quem saiu perdendo. Nem sempre estas coisas coincidem, como se verá.

Quem ganhou e quem perdeu na eleição presidencial - Flávio Aguiar: Carta Maior 28/10/2014

Dilma Rousseff – ganhou e saiu ganhando. O sucesso de sua candidatura dependeu muito de seu estoicismo (ao enfrentar os insultos no Itaquerão), da sua firmeza (ao responder de modo duro às acusações de Aécio nos debates), de sua capacidade de se comprometer com a manutenção (salário, empregos) e com a mudança (eventual correção no caso Petrobras) de rumos. Provou e comprovou que tem luz própria e estofo de estadista.

Aécio Neves – perdeu e saiu perdendo. Provou que sua habilidade retórica não o protege de ataques porque não está preparado para isto. Achou que podia ganhar no grito, isto é, só atacando uma pauta negativa, sem se comprometer ou revelar seu verdadeiro programa para o país. Tergiversou. Conseguiu mais votos pelo antipetismo do que por si próprio. Não tem luz própria, e agora está ameaçado em seu arraial. José Serra já afia os caninos e Geraldo Alckmin planta seus chuchus na cerca de São Paulo para aprimorar seu picolé, ambos tendo em vista 2018. A vida de Aécio não será fácil.

Armínio Fraga – perdeu, mas se saiu perdendo é outra história. Cometeu um erro fatal. No debate com Guido Mantega, ao falar das dificuldades do cidadão brasileiro...

Marina Silva – perdeu e saiu perdendo. Cresceu nas pesquisas depois da tragédia de Eduardo Campos e seus companheiros de voo, mas se confundiu com o próprio crescimento. Atirou para todos os lados em busca de votos, rolou e enrolou, disse e desdisse, contradisse e entrou na dança e na contradança, mas o que ficou na lembrança é que quem tem poder sobre ela é o pastor Malafaia. Quem se curva à chantagem de pastor jamais vai chegar à presidência. De quebra, apresentou uma lista de reivindicações a Aécio para apoiá-lo, não viu nenhuma atendida e apoiou assim mesmo. Eu não votaria nela nem pra Associação de Pais e Mestres. Comprometeu a credibilidade de sua futura Rede, que pode virar uma rede para pescar goiabas. É pena. O Brasil precisa de um partido ambientalista forte.

PT – Empate técnico, graças à atuação e à vitória de Dilma Rousseff. Na verdade saiu perdendo. Perdeu cadeiras no Parlamento, mas não só isto. Em alguns momentos, em alguns lugares...

PSDB – Desastre. Perdeu e saiu perdendo. Na mídia internacional, que pode ser conservadora em grande parte mas sempre chama os bois pelo seu nome verdadeiro, e não o de fantasia, o PSDB brasileiro é descrito como “business friendly”, o que deve ser traduzido por “amigo do mercado”...

Geraldo Alckmin – ganhou, mas saiu perdendo. Sua gestão da água em São Paulo foi, é e será um desastre...

Lula – não ganhou porque não concorria. Mas saiu ganhando: continua sendo a principal referência de unidade do PT e seu maior cabo eleitoral...

Fernando Henrique Cardoso – não perdeu, porque não concorreu. Mas saiu perdendo feio, sobretudo por ter perdido várias oportunidades de ficar quieto e não dizer nada. As mais evidentes foram...

Luciana Genro – perdeu, mas saiu ganhando. Os elogios à sua campanha superaram as hostes pssolistas. Deu demonstração de coerência e consistência...

Eduardo Jorge e o Partido Verde – que vergonha! Apoiar o Aécio no segundo turno! Viraram um puxadinho, o biocapitalismo do capitalismo selvagem. Bom, muitas cúpulas do PV aqui na Europa se comportam assim...

Extrema-direita – saiu ganhando. Malafaia chantageou Marina com sucesso. Feliciano e Bolsonaro tiveram votações consagradoras. Levy Felix, o candidato do conduto excretor, triplicou seus votos. O Pastor Everaldo tanto latiu...

PMDB – Empate técnico, o que para ele é vitória. Saiu ganhando. Continua sendo um partido-esponja, que tudo absorve. Parece um polvo, com tentáculos em toda a parte...

PIG e Veja em particular – perderam feio, a ver se saíram perdendo. Puseram todas as suas fichas em derrubar Dilma e o PT desta vez por todas. Não deu certo. Esqueceram de combinar com o povo brasileiro...

O camarote do Itaú no Itaquerão – perdeu, saiu perdendo, deu vexame internacional. Foi se roçar nas ostras, como se diz.

Gilmar Mendes, Joaquim Barbosa e Sérgio Moro – não perderam, porque não concorriam. Mas saíram perdendo. Gilmar Mendes suspendeu um dos direitos de resposta conseguidos pelo PT... Joaquim Barbosa sumiu, depois de ser o grande herói do linchamento conhecido como processo 470...  Sérgio Moro vai se candidatar ao título de “Juiz Transparência”, tal é a quantidade de vazamentos em suas audiências. Deve ser coisa da National Security Agency, um caso para Snowden e Assange juntos.

O povo brasileiro – ganhou e saiu ganhando. Não precisa explicar.

Leia o texto completo. Onde há pontinhos ... há mais.

Quem é Flávio Aguiar? Veja aqui e aqui.

Texto bíblico: um processo ou um produto?

Brennan Breed, escrevendo sobre a história da recepção do texto bíblico, seus problemas e desafios [o que é teoria da recepção? o que é reader-response criticism?], diz no artigo Biblical Reception History: A Dangerous Supplement, publicado, em outubro de 2014, em The Bible and Interpretation:

Os estudiosos da Bíblia com frequência imaginavam o texto bíblico como algo estático, fechado em um contexto original, com uma forma ideal, que o tempo e mãos descuidadas alteraram, e que olhos e ouvidos negligentes entenderam  mal. Assim, uma das tarefas do estudioso da Bíblia foi fixar o texto original e salvá-lo dos acréscimos que sempre ameaçaram submergi-lo ou pervertê-lo.

Para gerações inteiras de estudiosos da Bíblia, a forma padrão de comunicação, em especial com o público leigo, foi a seguinte: "Isto é o que você pensa que a Bíblia diz, mas o texto original realmente diz isso. E aqui está o que você acha que isso significava, mas ele realmente quis dizer isso". Para muitos, este é um argumento muito convincente. Texto e significado tinham perdido o rumo com o correr do tempo, mas existem estudiosos para colocá-los de volta em seu lugar. No entanto, se é verdade que toda a história textual e interpretativa da Bíblia é uma complementação, uma variação contínua, uma pluriformidade e uma heterarquia [o que é?], então devemos conceber o texto bíblico como um processo e não um produto.

Leia o artigo.

E confira também o livro do autor: Nomadic Text: A Theory of Biblical Reception History. Bloomington, IN: Indiana University Press, 2014, 320 p. (ebook KIndle)

Diz a editora:
Brennan W. Breed claims that biblical interpretation should focus on the shifting capacities of the text, viewing it as a dynamic process rather than a static product. Rather than seeking to determine the original text and its meaning, Breed proposes that scholars approach the production, transmission, and interpretation of the biblical text as interwoven elements of its overarching reception history. Grounded in the insights of contemporary literary theory, this approach alters the framing questions of interpretation from "What does this text mean?" to "What can this text do?"

Brennan W. Breed is Assistant Professor of Old Testament at Columbia Theological Seminary.


E fica a pergunta: mesmo que a intenção do autor do texto seja algo irrecuperável para o estudioso atual, ainda existe, pelo menos para alguns textos bíblicos, um contexto no qual ele foi criado, um "mundo do texto"? Ou não?

Vejo mais proveito na abordagem socioantropológica...

segunda-feira, 27 de outubro de 2014

A vitória de Dilma em 2014

Está longe de ter sido uma vitória qualquer. Foi uma vitória da coragem do eleitor humilde e solitário que enfrentou, resistiu e não se dobrou diante do paredão midiático antipetista, confiando seu voto em Dilma. A disputa encerrava uma dimensão geopolítica capaz de influenciar os acontecimentos na América Latina e a agenda da luta pelo desenvolvimento em diferentes partes do mundo. Não era pouco o que estava em jogo, portanto.


Em eleição livre e democrática, Dilma Rousseff enfrenta e volta a vencer golpistas - Redação RBA: 26/10/2014 
Foi uma vitória maiúscula. A reeleição de Dilma Vana Rousseff (PT) escreve muitos capítulos inéditos e carrega uma força simbólica que, se não é maior que a das demais disputas vencidas pelo PT no plano federal, é única. A mulher nascida em Belo Horizonte em 1947 mais uma vez deixa de joelhos, boquiaberta, a repressão que lhe tentou cassar os direitos políticos. Se havia alguma dúvida de que esta era uma eleição do candidato do sistema patriarcal brasileiro contra todo o resto, a edição do Jornal Nacional na véspera eliminou qualquer margem de ingenuidade (...) Dividida entre interesses públicos e privados, a emissora dos Marinho atendeu novamente a seu chamado de classe ao exibir reportagem sobre supostas denúncias de que Dilma e Luiz Inácio Lula da Silva teriam ciência de um esquema de pagamento de propinas utilizando verbas da Petrobras (...) Sob o pretexto de um protesto de jovens que empilharam lixo em um prédio da editora, que chamou de “ataque” à sede do Grupo Abril, o Jornal Nacional dedicou seis minutos a narrar a “denúncia” da revista Veja, uma publicação que nunca esteve tão à altura da alcunha de “mídia golpista”. Lá pelas tantas aparecia a figura de Aécio Neves, candidato do PSDB dado a vitórias no tapetão. Fosse tão ético quanto jura ser, o tucano teria se recusado a ecoar uma reportagem feita com base num depoimento inventado (...) Mas Aécio, a exemplo do Jornal Nacional, atendeu a seu DNA de classe, uma elite financeira que há muito chegou à conclusão de que vale qualquer coisa para tirar o PT do poder...
Leia o texto completo.

Leia Mais:
Em discurso da vitória, Dilma prega diálogo e reforma política com participação popular
Vídeo do discurso de Dilma após a vitória
A eleição em números - Infográficos do G1
Veja: um insensato partido neoliberal

sexta-feira, 24 de outubro de 2014

Veja: um insensato partido neoliberal

>> Última atualização: 29.10.2014 - 10h30

A grande imprensa brasileira foi indispensável para que o neoliberalismo tenha sido construído da forma que o foi. A Veja diz ser indispensável para o país que queremos ser. A pergunta é: quem está incluído nesse “nós” oculto? A classe trabalhadora é que não.


Quais os interesses defendidos por Veja?

Os interesses são os dominantes como um todo, mais especificamente os da burguesia financeira e dos anunciantes multinacionais. Em que pese o discurso de defesa da liberdade de expressão articulado à publicidade, o que importa para a revista são os interesses em torno da reprodução capitalista. A revista busca se mostrar como independente, o que se daria através de sua verba publicitária. É fato que a revista tem uma verba invejável, mas isso não a transforma no Quarto Poder, que vigiaria os demais de forma neutra. Ao mesmo tempo em que ela é portadora de interesses sociais, faz parte da sociedade, a sua vigilância é totalmente delimitada pela conjuntura e correlação de forças específica.

Sobre este tema, indispensável livro disponível para download gratuito, em pdf, aqui.


Leia Mais:
Veja e as eleições de 2014
Mídia e eleições
Bomba! As novas denúncias da Veja
Golpe midiático em marcha: Globo entra hoje no “escândalo” da “Veja”
Golpe eleitoral de Veja, PSDB e Globo não pode ficar impune
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terça-feira, 21 de outubro de 2014

Reviravolta nos estudos bíblicos: da sinfonia à polifonia

Outro aspecto que caracteriza os estudos bíblicos hoje, segundo Philip R. Davies:

O enfoque conhecido como Teologia Bíblica, seja do Antigo como do Novo Testamento, tem sido quase que inteiramente eliminado dos estudos bíblicos. Ele era o equivalente da sinfonia na música clássica - entendida como o concerto harmônico de vários sons. O que temos agora nos estudos bíblicos é uma verdadeira polifonia - entendida como a pluralidade autônoma de vários sons -, conceito que caracteriza melhor o amplo leque das novas abordagens utilizadas no estudo da Bíblia. Estas novas abordagens constituem uma verdadeira reviravolta literária, e afetam radicalmente a forma como a Bíblia é estudada atualmente por muitos estudiosos.

Leia Mais:
Estudos bíblicos migram da teologia para a antropologia

Estudos bíblicos migram da teologia para a antropologia

Um dos aspectos que caracterizam os estudos bíblicos hoje, segundo Philip R. Davies:

Os estudos bíblicos estão migrando de uma pátria teológica e povoando outras regiões acadêmicas - ou, para inverter a metáfora, estão sendo colonizados por elas. Os estudiosos da Bíblia agora trabalham com os críticos literários, historiadores, filósofos, cientistas sociais, críticos culturais e analistas de mídia. Como consequência disso, os estudos bíblicos aproveitam a multiplicidade e o hibridismo característicos da sociedade pós-colonial. Agora abordamos a mitologia antiga e a moderna ficção científica, e empregamos ideias e métodos da psicologia social, da política, da linguística, da teoria crítica e, praticamente, de todo tipo de tendência intelectual moderna. A partir de um núcleo histórico, doutrinal e disciplinar, que era em geral bastante isolado das ciências humanas - excluindo-se ocasionais pinceladas filosóficas - os estudos bíblicos se ampliaram e se estabeleceram definitivamente no campo das ciências humanas.

A migração mais importante, entretanto, tem sido a da teologia para a antropologia. Ou, em outros termos, migraram os estudos bíblicos do estudo do que 'Deus' fez e disse, para o estudo de como os seres humanos falam sobre seus deuses. Os estudos bíblicos abordam a natureza, a crença e a imaginação humanas: estamos, de fato, estudando, e tentando compreender, a nós mesmos. Parte disto é um confronto explícito com identidades, antigas e modernas, tanto de autores como de leitores. As nossas imagens e discursos sobre 'Deus' não revelam mais um diáfano mundo celeste, mas desnudam a nossa dura realidade concreta.

domingo, 19 de outubro de 2014

Você sabe o que é delação premiada?

O regime democrático, ao contrário do que se pensa, não se fortalece com o emprego de meios inconstitucionais para obter eficiência na persecução penal. O regime democrático se fortalece precisamente quando os direitos fundamentais da pessoa são preservados, independentemente de seu caráter, de sua personalidade, de sua condição social, de seus antecedentes ou de seu comportamento. A democracia não é simplesmente o regime da maioria, a democracia é o regime no qual todos possam, como pessoas de direito, exercerem, livremente, sua real capacidade de concordância ou discordância. 


Leia o artigo O que se esconde na delação premiada, escrito por Juarez Tavares e Frederico Figueiredo e publicado em Carta Maior em 16/10/2014.


Um trecho:

Mesmo longe de períodos eleitorais, a delação premiada já é um instrumento extremamente controvertido dentro do direito processual penal. Se é defendido por uns, como modelo de eficiência, é também gritante sua incompatibilidade com certas garantias constitucionais inerentes a regimes democráticos. Há uma série de direitos fundamentais que não podem ser renunciados pelo indiciado ou acusado, como o de pleitear do judiciário a reparação de ato que o prejudique, de interpor recursos que lhe são assegurados, de se insurgir contra coação processual, de não se submeter aos ditames da outra parte, de ser tratado com isonomia e de ser considerado presumidamente inocente até a prolação de sentença condenatória definitiva.

A violação desses direitos transforma em prova ilícita todas as informações prestadas pelo delator, que devem ser, por isso mesmo, eliminadas dos autos. E como o direito brasileiro acolheu a teoria extrema da prova ilícita, pela qual ficam contaminados todos os atos que a ela se vinculem, o procedimento penal daí decorrente é também juridicamente imprestável. Cabe à autoridade judicial tomar medidas preventivas contra eventuais prejuízos causados por informações não comprovadas nas delações, protegendo-as por sigilo judicial — a violação desse sigilo constitui uma grave infração, a configurar o delito previsto no art. 10 da Lei 9.296/96.

No entanto, a delação premiada é uma realidade e sua utilização no auxílio de investigações parece uma prática cada vez mais generalizada no Brasil. Como se por trás do instituto houvesse uma lógica muito mais forte do que a defesa de direitos fundamentais. Não surpreende que ela obedeça aos mesmos ditames do mercado (...).

Tal como está ocorrendo, com a divulgação espetacular na grande imprensa dos nomes das pessoas acusadas pelo delator no processo que corre, em parte, em Curitiba, em parte, no Supremo Tribunal Federal, sob o beneplácito do judiciário, que faculta essa divulgação como se fosse o resultado de um processo público e democrático, o que se pretende é mais do que evidente: influir diretamente no pleito eleitoral, dando impressão de que tudo o que foi delatado corresponde à mais pura verdade. A imprensa e o judiciário, principalmente este, deveriam atender aos preceitos constitucionais de presunção de inocência e do devido processo legal, que exigem, antes de tudo, que a determinação da responsabilidade penal só pode se dar sob o pressuposto da proteção da pessoa, e não para atender a fins políticos ou ideológicos.

O regime democrático, ao contrário do que se pensa, não se fortalece com o emprego de meios inconstitucionais para obter eficiência na persecução penal. O regime democrático se fortalece precisamente quando os direitos fundamentais da pessoa são preservados, independentemente de seu caráter, de sua personalidade, de sua condição social, de seus antecedentes ou de seu comportamento. A democracia não é simplesmente o regime da maioria, a democracia é o regime no qual todos possam, como pessoas de direito, exercerem, livremente, sua real capacidade de concordância ou discordância. Se quisermos alcançar no Brasil os objetivos mais sublimes de um regime democrático centrado na proteção da dignidade da pessoa humana e orientado pela realização plena da cidadania, é hora de rever todos esses instrumentos perversos de delação, que alimentam o desrespeito a direitos fundamentais e, no fundo, conduzem a uma política estatal sem ética e sem compostura, bem ao gosto dos regimes ditatoriais.


Sobre os autores

Juarez Tavares é Professor Titular de Direito Penal da Universidade do Estado do Rio de Janeiro e Professor Visitante na Universidade de Frankfurt am Main, Alemanha.

Frederico Figueiredo é Doutor em Direito pela Universidade de Frankfurt am Main, Alemanha.

Os estudos bíblicos nos últimos 50 anos

Philip R. Davies, em artigo disponível em Academia.edu, avalia os últimos 50 anos dos estudos bíblicos. Ele escolheu, em sua análise, três dos principais temas da disciplina, especificamente secularização, colonização e ficcionalização.

Biblical Studies: Fifty Years of a Multi-Discipline

Diz o Abstract  do artigo:
The creation of an autonomous and secular discipline of biblical studies can be traced back through several stages, in particular to cultural changes brought about by the Reformation and the Enlightenment. But it is only in the last 50 years or so that this discipline (more accurately, a multidiscipline) can be truly said to have emerged as distinct from Scripture, which now ought to be treated as a separate discipline belonging to theology rather than the human sciences. This review traces some of the principal themes of this discipline, specifically secularization, colonization and fictionalization. These themes are traced through a number of developments, beginning with the fundamental issue of what constitutes the ‘meaning’ of a text. Finally, it is suggested that the relationship between humanistic biblical studies and theological Scripture is becoming, and will continue to be, more explicitly addressed, but that no clear resolution can be foreseen.

Sobre Philip R. Davies, confira aqui e aqui.

sexta-feira, 17 de outubro de 2014

Há uma onda reacionária em movimento

Não é acontecimento isolado. Há uma onda reacionária em movimento, que abala e ameaça os fundamentos mais comezinhos da vida civilizada e democrática. Sua encarnação política é o antipetismo. Seu redentor, o candidato tucano Aécio Neves. Os piores valores animam aqueles que mergulham e surfam nesta onda. Preconceito social, racismo, homofobia, machismo, ódio regional, xenofobia, fundamentalismo religioso. A cruzada da direita para derrotar o PT convocou todos os demônios da sociedade brasileira. Os conservadores perderam a vergonha na cara. Batem no peito e se enchem de orgulho em ser o que são: um grupo político-social que veste simbolicamente as camisas pardas dos inimigos mais ferrenhos da civilização.


O fascismo brasileiro é mais complexo do que o italiano ou o nazismo alemão. Ele é mais difícil de identificar, possui um ódio mais pulverizado direcionado uma massa ampla e difusa. É animado por uma mídia suja, uma polícia violenta, um movimento religioso fanático e uma elite sui generis que, na teoria, defende o liberalismo, mas na prática age para defender privilégios (...) Se Celso Russomanno (PRB) e o Pastor Feliciano (PSC) não tivessem sido os deputados mais bem votados em São Paulo, e se o Rio de Janeiro não tivesse escolhido Jair Bolsonaro (PP) em primeiro lugar, eu poderia jurar que o deputado mais votado no Rio Grande do Sul, Luis Carlos Heinze (PP), que declarou que “quilombolas, índios, gays e lésbicas: tudo o que não presta” era um caso isolado de uma possível patologia gaúcha. Mas infelizmente não é.


quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Nascente do Rio Paranaíba secou

Se não mudarmos a forma como estamos usando os recursos naturais, é possível que isso continue ocorrendo e culmine em problemas maiores, o que pode afetar várias cidades da Bacia Hidrográfica do Rio Paranaíba

Estiagem em MG faz secar uma das principais nascentes do Rio Paranaíba

O longo período de estiagem [em 2014] tem afetado a região do Triângulo Mineiro e causado prejuízos. Uma das preocupações dos moradores e ambientalistas da região é com a nascente do Rio Paranaíba, que está secando com o longo período sem chuvas.

Nas nascentes dos afluentes a situação não é diferente. Segundo o presidente do Comitê da Bacia Hidrográfica (CBH) dos Afluentes do Alto Paranaíba, Antônio Geraldo de Oliveira, as que não secaram, perderam pelo menos um terço da vazão. “Já começa, perto das nascentes, o impacto. Depois, tem a poluição com esgoto. Isso prejudica as hidrelétricas e o transporte hidroviário”, explicou.

O Paranaíba é um dos rios que formam o Rio Paraná. Da nascente segue cerca de 250 quilômetros até a divisa entre Minas, Goiás e Mato Grosso do Sul. A bacia hidrográfica do Paraná ocupa 2,6% do território nacional, tem quatro grandes usinas hidrelétricas e é essencial para 197 municípios brasileiros [o Rio Paranaíba passa por Patos de Minas].

A nascente seca não prejudica o volume do rio porque ele tem vários afluentes. Mas segundo o biólogo da Universidade Federal de Viçosa, Vinícius Albano Araújo, a situação é um alerta da natureza. “Se não mudarmos a forma como estamos usando os recursos naturais, é possível que isso continue ocorrendo e culmine em problemas maiores, capazes de afetar várias cidades”, afirmou.

Segundo o dono da propriedade onde a nascente está, Márcio José da Silva, o problema começou a se agravar em 2013. “Não choveu em dezembro, nem em janeiro, nem em fevereiro. Tem que diminuir mesmo”, explicou.


Fonte: G1 Triângulo Mineiro - 15/10/2014 20h16


O rio Paranaíba, juntamente com o rio Grande, é um dos formadores do rio Paraná. Sua nascente está situada na Serra da Mata da Corda, no município de Rio Paranaíba/MG, e possui altitude de cerca de 1.100 m. Percorre aproximadamente 100 km até alcançar o perímetro urbano de Patos de Minas/MG e segue mais cerca de 150 km até tornar-se limítrofe entre os Estados de Goiás e Minas Gerais. Neste ponto, encontram-se os limites municipais entre Coromandel e Guarda-Mor em Minas Gerais, e Catalão em Goiás. A partir deste trecho, o rio Paranaíba continua sendo o divisor entre Goiás e Minas Gerais até o município de Paranaíba/MS, onde passa a formar a divisa entre os Estados de Minas Gerais e Mato Grosso do Sul. O Paranaíba segue até a confluência com o rio Grande, exutório da bacia, para formar o rio Paraná.

Após tornar-se limite estadual, o rio Paranaíba recebe o rio São Marcos, um de seus principais afluentes pela margem direita, onde alcança o reservatório da usina hidrelétrica – UHE Emborcação. A jusante recebe o rio Araguari pela margem esquerda e o rio Corumbá pela margem direita. Estes dois cursos d’água desembocam em áreas de remanso do reservatório da UHE Itumbiara, que também está situada no rio Paranaíba.

Ao passar entre os municípios de Itumbiara/GO e Araporã/MG, o rio Paranaíba encontra a UHE Cachoeira Dourada. A partir desse ponto, o rio recebe outros três grandes afluentes da bacia, que são os rios Meia Ponte e Turvo e dos Bois pela margem direita, e o rio Tijuco pela margem esquerda. Em seguida, encontra um outro barramento, a UHE São Simão, que é a última usina do rio Paranaíba, a partir da qual se inicia a hidrovia Tietê-Paraná, com vários terminais para o transporte de grandes cargas.

Em seu trecho final, recebe os rios Claro, Verde e Corrente, afluentes na sua margem direita. Em seguida o rio Paranaíba recebe o rio Aporé ou do Peixe, rio limítrofe entre Goiás e Mato Grosso do Sul, e assim inicia-se a fronteira entre o Estado do Mato Grosso do Sul e Minas Gerais. Depois de aproximadamente 100 km, o rio Paranaíba encontra o rio Grande para formar o rio Paraná (Do site do Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio Paranaíba).


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segunda-feira, 13 de outubro de 2014

Dilma e Aécio: dois projetos diferentes de Brasil

Em entrevista a CartaCapital, o ex-presidente Lula fala de FHC, ascensão social, crescimento, emprego e eleições 


Lula: "Não é Dilma contra Aécio. São projetos diferentes de sociedade" - Mino Carta: CartaCapital 13/10/2014

Uma imperiosa contradição está no ar: como seria possível uma renovação se o tucanato pretende voltar ao passado, e disso não faz mistério? Como seria possível, de resto, que promessas de mudança pudessem ser postas em prática por conservadores empedernidos? Conservador conserva, diria o Chico Anysio de antigos tempos.

Não bastassem as antecipações de Arminio Fraga, candidato a ministro da Fazenda em caso de vitória tucana, a fornecer um trailer de puríssima marca neoliberal, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso apressa-se a esclarecer, entre a ameaça e o didatismo, que quem vota Dilma além de pobre é desinformado. E qual seria a informação correta?

Fraga prontifica-se a informar o globo de um polo ao outro, no debate com Guido Mantega, mediado (mediado?) na Globo por Miriam Leitão: a crise econômica mundial acabou há cinco anos. Gostaríamos de imaginar, na nossa irredutível ousadia, o que pensam a respeito Angela Merkel , ou Barack Obama. Tendemos a acreditar que ambos os citados, e outros mais habilitados à citação, agradeceriam Fraga por sua oportuníssima revelação.  Há incertezas quanto a existência de Deus, mas dúvidas não subsistem em relação a Fraga , seu profeta.

Na linha das revelações, o Clube Militar informa que, com Dilma reeleita, o País estará à beira da sovietização. Há militares ainda dispostos a recorrer a terminologias emboloradas. Ao longo da campanha tucana, corroboradas pelos editoriais dos jornalões, desfraldaram termos mais contemporâneos. Imperdoável é ser “chavista”, ou “bolivariano”. Pois o único, indiscutível chavista brasileiro é Fernando Henrique Cardoso, que provocou a alteração constitucional destinada a permitir sua reeleição. E não hesitou para tanto em comprar votos de parlamentares.

Não invoquemos, de todo modo, exames de consciência por parte da mídia nativa, postada de um lado só na qualidade de porta-voz da casa-grande. Neste exato instante ela transforma em peça eleitoral o vazamento de depoimentos secretos do ex-diretor da Petrobras Paulo Roberto Costa, do doleiro Youssef e de sua contadora. Deles emerge uma complexa história, cujo ponto central seria a chantagem sofrida por Lula, por parte de parlamentares da base governista, para forçá-lo a nomear Costa para a direção da estatal.

Era de esperar que a mídia nativa extraísse da manga a carta pretensamente letal. O déjà vu é próprio destas atribuladas vésperas eleitorais desde quando o PT apresenta um candidato à Presidência da República. Lula avisa: “Nunca fui submetido a qualquer gênero de chantagem por parte de congressistas. Fala-se de fatos que teriam ocorrido há dez anos, de sorte que, para averiguar a sua veracidade, seria preciso ouvir o então ministro das Relações Institucionais, o então chefe da Casa Civil, o presidente da Câmara, o líder do PT”.

Tomados em conjunto, comportamentos e eventos dão razão a Lula quando afirma que esta eleição, antes ainda de confrontar Dilma e Aécio, coloca frente a frente dois projetos de Brasil, duas visões profundamente opostas de vida, de mundo, de política, de fé.

Veja a entrevista e/ou leia o texto.


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Dilma e Aécio, nosso sonho e nossa tragédia

Estão em jogo nossa magia, nosso sonho e nossa tragédia. Nossa magia é a vitalidade assombrosa e anárquica do país. Nosso sonho é ver a vitalidade casada com a doçura. Nossa tragédia é a negação de instrumentos e oportunidades a milhões de compatriotas, condenados a viver vidas pequenas e humilhantes. Que em 26 de outubro o povo brasileiro, inconformado com nossa tragédia e fiel a nosso sonho, escolha o rumo audacioso da rebeldia nacional e afirme a grandeza do Brasil.


Roberto Mangabeira Unger escolhe Dilma e vê grandeza contra pequenez - Brasil 24/7 - 13/10/2014

Da Folha de S. Paulo: Roberto Mangabeira Unger: Por que votar em Dilma - 13/10/2014

O povo brasileiro escolherá em 26 de outubro entre dois caminhos. Que escolha o rumo audacioso da rebeldia nacional e afirme a grandeza do Brasil.

As duas candidaturas compartilham três compromissos fundamentais, além do compromisso maior com a democracia: estabilidade macroeconômica, inclusão social e combate à corrupção. Diferem na maneira de entender os fins e os meios. Diz-se que a candidatura Aécio privilegia estabilidade macroeconômica sobre inclusão social e que a candidatura Dilma faz o inverso. Esta leitura trivializa a diferença.

Duas circunstâncias definem o quadro em que se dá o embate. A primeira circunstância é o esgotamento do modelo de crescimento econômico no país. Este modelo está baseado em dois pilares: a ampliação de acesso aos bens de consumo em massa e a produção e exportação de bens agropecuários e minerais, pouco transformados. Os dois pilares estão ligados: a popularização do consumo foi facilitada pela apreciação cambial, por sua vez possibilitada pela alta no preço daqueles bens. Tomo por dado que o Brasil não pode mais avançar deste jeito.

A segunda circunstância é a exigência, por milhões que alcançaram padrões mais altos de consumo, de serviços públicos necessários a uma vida decente e fecunda. Quantidade não basta; exige-se qualidade.

As duas circunstâncias estão ligadas reciprocamente. Sem crescimento econômico, fica difícil prover serviços públicos de qualidade. Sem capacitar as pessoas, por meio do acesso a bens públicos, fica difícil organizar novo padrão de crescimento.

O país tem de escolher entre duas maneiras de reagir. Descrevo-as sumariamente interpretando as mensagens abafadas pelos ruídos da campanha. Ficará claro onde está o interesse das maiorias. O contraste que traço é complicado demais para servir de arma eleitoral. Não importa: a democracia ensina o cidadão a perceber quem está do lado de quem.

1. Crescimento econômico: realismo fiscal e manutenção do sacrifício consequente são pontos compartilhados pelas duas propostas.
Aécio: Ganhar a confiança dos investidores nacionais e estrangeiros. Restringir subsídios. Encolher o Estado. Só trará o crescimento de volta quando houver nova onda de dinheiro fácil no mundo.
Dilma: Induzir queda dos juros e do câmbio, contra os interesses dos financistas e rentistas, sem, contudo, render-se ao populismo cambial. Usar o investimento público para abrir caminho ao investimento privado em época de desconfiança e endividamento. Apostar mais no efeito do investimento sobre a demanda do que no efeito da demanda sobre o investimento.

Construir canais para levar a poupança de longo prazo ao investimento de longo prazo. Fortalecer o poder estratégico do Estado para ampliar o acesso das pequenas e médias empresas às práticas, às tecnologias e aos conhecimentos avançados. Dar primazia aos interesses da produção e do trabalho. Se há parte do Brasil onde este compromisso deve calar fundo, é São Paulo.

2. Capital e trabalho
Aécio: Flexibilizar as relações de trabalho para tornar mais fácil demitir e contratar.
Dilma: Criar regime jurídico para proteger a maioria precarizada, cada vez mais em situações de trabalho temporário ou terceirizado. Imprensado entre economias de trabalho barato e economias de produtividade alta, o Brasil precisa sair por escalada de produtividade. Não prosperará como uma China com menos gente.

3. Serviços públicos
Aécio: Focar o investimento em serviços públicos nos mais pobres e obrigar a classe média, em nome da justiça e da eficiência, a arcar com parte do que ela custa ao Estado.
Dilma: Insistir na universalidade dos serviços, sobretudo de educação e saúde, e fazer com que os trabalhadores e a classe média se juntem na defesa deles. Na saúde, fazer do SUS uma rede de especialistas e de especialidades, não apenas de serviço básico. E impedir que a minoria que está nos planos seja subsidiada pela maioria que está no SUS. Na segurança, unir as polícias entre si e com as comunidades. Crime desaba com presença policial e organização comunitária. A partir daí, encontrar maneiras para engajar a população, junto do Estado, na qualificação dos serviços de saúde, educação e segurança.

4. Educação
Aécio: Adotar práticas empresariais para melhorar, pouco a pouco, o desempenho das escolas, medido pelas provas internacionais, com o objetivo de formar força de trabalho mais capaz.
Dilma: A onda da universalização do ensino terá de ser seguida pela onda da qualificação. Acesso e qualidade só valem juntos. Prática empresarial, porém, tem horizonte curto e não resolve. Os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia indicam o caminho: substituir decoreba por ensino analítico. E juntar o ensino geral ao ensino profissionalizante em vez de separá-los. Construir, do fundamental ao superior, escolas de referência. A partir delas, trabalhar com Estados e municípios para mudar a maneira de aprender e ensinar.

5. Política regional
Aécio: Política para região atrasada é resquício do nacional-desenvolvimentismo. Tudo o que se pode fazer é conceder incentivos às regiões atrasadas.
Dilma: Política regional é onde a nova estratégia nacional de desenvolvimento toca o chão. Não é para compensar o atraso; é para construir vanguardas. Projeto de empreendedorismo emergente para o Nordeste e de desenvolvimento sustentável para a Amazônia representam experimentos com o futuro nacional.

6. Política exterior
Aécio: Conduzir política exterior de resultados, quer dizer, de vantagem comerciais. E evitar brigar com quem manda.
Dilma: Unir a América do Sul. Lutar para tornar a ordem mundial de segurança e de comércio mais hospitaleira às alternativas de desenvolvimento nacional. E, num movimento em sentido contrário, entender-nos com os EUA, inclusive porque temos interesse comum em nos resguardar contra o poderio crescente da China. Política exterior é ramo da política, não do comércio. Poder conta mais do que dinheiro.

7. Forças Armadas 
Aécio: O Brasil não precisa armar-se porque não tem inimigos. Só precisa deixar os militares contentes e calmos.
Dilma: O Brasil tem de armar-se para abrir seu caminho e poder dizer não. Não queremos viver em um mundo onde os beligerantes estão armados e os meigos, indefesos.

8. O público e o privado
Aécio: Independência do Banco Central e das agências reguladoras assegura previsibilidade aos investidores e despolitiza a política econômica.
Dilma: A maneira de desprivatizar o Estado não é colocar o poder em mãos de tecnocratas que frequentam os grandes negócios. É construir carreiras de Estado para substituir a maior parte dos cargos de indicação política. E recusar-se a alienar aos comissários do capital o poder democrático para decidir.


Aécio propõe seguir o figurino que os países ricos do Atlântico Norte nos recomendam, porém nunca seguiram. Nenhum grande país se construiu seguindo cartilha semelhante. Certamente não os EUA, o país com que mais nos parecemos. Ainda bem que o candidato tem estilo conciliador para abrandar a aspereza da operação.

Dilma terá, para honrar sua mensagem e cumprir sua tarefa, de renovar sua equipe e sua prática, rompendo a camisa de força do presidencialismo de coalizão. E o Brasil terá de aprender a reorganizar instituições em vez de apenas redirecionar dinheiro. Ainda bem que a candidata tem espírito de luta, para poder aceitar pouco e enfrentar muito.

Estão em jogo nossa magia, nosso sonho e nossa tragédia. Nossa magia é a vitalidade assombrosa e anárquica do país. Nosso sonho é ver a vitalidade casada com a doçura. Nossa tragédia é a negação de instrumentos e oportunidades a milhões de compatriotas, condenados a viver vidas pequenas e humilhantes. Que em 26 de outubro o povo brasileiro, inconformado com nossa tragédia e fiel a nosso sonho, escolha o rumo audacioso da rebeldia nacional e afirme a grandeza do Brasil.

Quem é Roberto Mangabeira Unger? Professor na Harvard University... Veja aqui e aqui.

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Se Aécio, dez conquistas perderemos

Empregos, melhores salários, poder aquisitivo, investimentos produtivos, infra-estrutura, mobilidade, reforma política, luta contra a corrupção, segurança e soberania.

Dez coisas que o Brasil vai perder se eleger Aécio Neves

Flávio Aguiar - Carta Maior 11/10/2014

Quem hoje tem 25 anos tinha 13 em 2002, quando Lula foi eleito pela primeira vez Presidente da República. Quem tem 18, tinha 6 naquela ocasião. Os eleitores entre estas idades  viveram os oito anos do mandato do FHC como adolescentes ou como crianças. Não têm uma noção muito precisa, para dizer o mínimo, do que significa “perder direitos” ou “posições”. Entraram na maturidade “ganhando direitos e posições”, como o emprego, por exemplo.

Pode parecer hoje que tudo vai continuar assim, independentemente de quem estiver no Palácio do Planalto, no Ministério da Fazenda e no Banco Central. Mas não é bem assim. Aqui está uma lista do que o Brasil vai perder caso Aécio Neves seja eleito presidente, com Armínio Fraga como seu braço direito na economia.


1) Empregos – Aécio e Armínio costumam falar coisas vagas, imprecisas. Mas nisto Armínio foi muito claro: mais desemprego não faria mal ao país. Por quê? Porque na visão deste tipo de economista o desemprego ajuda a comprimir os salários para baixo, e isto torna o Brasil “mais competitivo”. Ou seja, eles pensam no modelo que está devastando as economias europeias, levando-as à recessão prolongada e atingido sobretudo os mais jovens.

2) Melhores salários – Esqueça qualquer política de valorização do salário mínimo, dos salários em geral, das pensões e aposentadorias, da participação dos assalariados na renda nacional. As políticas sociais serão reduzidas, no mínimo. Tudo isto, que hoje faz o Brasil ser considerado um sucesso internacional, é condenável do ponto de vista desta visão econômica ortodoxa.

3) Poder aquisitivo – Em consequência, o poder aquisitivo da população é rebaixado. A economia entra em recessão para quem tem menos, embora possa até “melhorar” para quem já tem mais. É como o tipo de política que os conservadores estão mantendo e anunciando o aprofundamento na Inglaterra: compressão dos créditos e da disponibilidade monetária e de ajuda social (como para comprar a casa própria, por exemplo) para o mais pobres (pronunciamento do chanceler econômico inglês, George Osborne, que pode ser lido no The Guardian). Tudo em nome da “austeridade”. Sim: “austeridade” para quem já leva uma vida austera; abono para quem já desfruta de uma vida abonada.

4) Investimentos produtivos – A prometida e esperada política de juros elevados se destina a favorecer e manipular a especulação com os títulos da dívida pública. Assim foi no governo FHC (que também desfrutou de uma altíssima taxa de desemprego, por exemplo, 25% em Salvador, atingindo também sobretudo os mais jovens). Portanto, o ideal deste tipo de economia é tornar o Brasil atraente para os capitais especulativos – aqueles que se volatilizam e vão embora assim que surge a menor contrariedade ou aparecem praças mais atraentes. Como aconteceu na Irlanda, na Islândia, em Chipre e outros países que se tornaram momentaneamente as meninas dos olhos deste tipo de especulação. Já os investimentos em setores produtivos exigem um controle e uma orientação dada pelo Estado e sinalizada (apoiada e garantida) pelos bancos públicos, justamente o setor que o tipo de política prevista por Aécio e Armínio quer restringir e coibir.

5) Infra-estrutura – Esqueça. Este tipo de investimento, absolutamente necessário para garantir a dinâmica da economia e da vida brasileiras depende desta capacidade de garantir sua continuidade e orientação pelo setor público. O Brasil necessita de estradas, portos, aeroportos, rede ferroviária, transporte urbano, saneamento, hidrovias, energia, revitalização do seu setor industrial. Isto só é possível se houver um projeto claro para o país, se o país for de um projeto, e de longo prazo. Para visões como as de Aécio e Armínio, o Brasil não é um projeto: é uma praça, um mercado a ser explorado.

6) Mobilidade – Este foi um dos grandes temas das manifestações de junho. Sem investimentos adequados em infra-estrutura, não vai haver melhor transporte nem melhor circulação urbana, nada disso. Mas “mobilidade” não significa apenas transporte: significa também mobilidade social, investimento em educação, em acesso a ela, à universidade, programas de apoio a ela em todos os níveis simultaneamente. Se o programa dos candidatos Aécio e Armínio preveem a diminuição do poder de intervenção do Estado, adeus tais investimentos.

7) Reforma política – Que reforma política poderá fazer um partido cuja aliança histórica principal foi com o DEM, ex-PFL, o velho coronelismo travestido de liberalismo, que manietava o Nordeste quase inteiro. Aliás, este é um tema interessante: para um certo tipo de pensamento preconceituoso, nordestino não sabe votar quando passa a votar em frentes populares; quando votava no PFL, era a gema das eleições brasileiras.

8) Luta contra a corrupção  - Quem precisa de total autonomia não é o Banco Central, mas sim a Polícia Federal, como tem acontecido nos últimos anos. Nunca a Polícia federal foi tão ativa em levantamentos de caso de corrupção, e os chamados crimes do colarinho branco. Já nos tempos de FHC a dinâmica da PF era muito menor, vivíamos sob o programa do “Engavetador Geral da República”, lembra-se? Aliás, o número de CPIs engavetadas pelas maiorias do PSDB e seus aliados em São Paulo e Minas é inigualável.


9) Segurança – Se você acha que aumentar a segurança é baixar a idade penal, pode tirar ou por o cavalo da ou na chuva. Aumento de segurança se consegue com políticas de pleno emprego, educação, reforma das polícias militares e estaduais, tudo aquilo que empodera e revê os padrões policiais do país. Nosso sistema carcerário e judicial precisa de reformas profundas. Já temos universidades do crime nas penitenciárias, para adultos. Com os mais jovens, vamos criar também as escolas médias para a criminalidade.

10) Soberania – O Brasil é um dos únicos países que tem relações diplomáticas com todos os países da ONU. Sua aposta em fóruns multilaterais e na diversificação de sua política externa tem dado resultados muito bons para o país, ajudando a dinamizar relações comerciais e portanto a impulsionar nossa economia num momento de recessão mundial. A visão do PSDB acusa a política externa de nosso país de ser “ideologizada”, mas “ideologizada” será a deles, que querem arrefecer o Mercosul e a integração com os BRICS em nome de “se reaproximar” – leia-se, nos atrelar de modo subalterno – àquilo que de mais recessivo existe hoje no mundo – as políticas periclitantes dos EUA e da Zona do Euro, nos reintegrando a um clima ideológico herdeiro dos tempos da Guerra Fria.


O ideal do PSDB, declarado por FHC quando assumiu a presidência, era “o fim da era Vargas”. Sim, mas não para diante, porém para trás, em direção à República Velha, coronelícia (aliança do PSDB com o antigo PFL, hoje DEM, e seus antigos “currais eleitorais” no Nordeste, em Santa Catarina, etc.). Este ideal esteve presente desde antes, quando FHC literalmente presidiu a reforma monetária. O nome da nossa moeda passou a ser o “real”. Aparentemente uma palavra forte, cheia de “realidade”. Mas na verdade uma evocação da moeda dos tempos da República Oligárquica, do Império, que de tão desgastada que foi ao longo do temo tornou-se o popular “milréis”, “mil reais”. Mas é verdade que hoje o ideal do PSDB não é, de fato, tornar o Brasil um país apenas agrário-exportador, como era nos tempos da República Velha. Tornou-se o ideal de um país importador: importador da especulação financeira, da recessão, da subserviência programada.

Se conseguirem impor suas políticas, vão de novo quebrar o país, como já aconteceu em 2000/2002. Hoje o Brasil não é mais devedor, mas credor do FMI e da União Europeia. Nem é monitorado. Embora o Brasil não seja membro efetivo, mas convidado, da Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômicos, seu programa de luta contra a corrupção foi tão elogiado pela ONU que o levou a presidir a comissão temática da OCDE a respeito. O Brasil hoje não é mais parte da problemática, mas da "solucionática".

É tudo isto que o Brasil perderá, se o candidato Aécio e seu cardeal econômico, Armínio Fraga, forem sufragados.


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sábado, 11 de outubro de 2014

Aécio: dramático retrocesso social e político

A vitória de Aécio Neves representaria uma dramática regressão social e política, tanto ao nível interno do país como na sua política internacional.


Michael Löwy: vitória de Aécio seria dramática regressão social e política - Carta Maior 11/10/2014

Tenho muitas críticas a Dilma. Acho que fez demasiadas concessões aos bancos, ao agronegócio, ao capital. Por isso dei todo meu apoio a Luciana Genro no primeiro turno. Mas o Senhor Aécio não fará "concessões". Ele é o representante direto dos bancos, do agronegócio, da oligarquia financeira, das classes dominantes. Ele é o candidato da Bolsa de Valores, do imperialismo americano, do Clube Militar (os aposentados da ditadura). Sua vitória representaria uma dramática regressão social e política, tanto ao nível interno do país como na sua política internacional. Na minha opinião, a única forma de evitar este desastre é votar por Dilma.

Quem é Michael Löwy?


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Em carta aberta, Roberto Amaral, presidente do PSB declara apoio a Dilma

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

Faça o download do ebook do Truco

O que é o Truco?

Durante as campanhas eleitorais dos candidatos à presidência, a Agência Pública, de reportagem e jornalismo investigativo, está realizando o projeto “Truco!”, que analisa e checa dados apresentados pelos presenciáveis durante o horário eleitoral gratuito da TV. Após os programas exibidos nas noites de terças e quintas-feiras e aos sábados, a Pública exibe, de maneira interativa, uma análise das principais promessas e informações expostas pelos candidatos. Os presidenciáveis podem receber a carta “Truco”, quando a promessa é inviável ou contraditória. A carta “Tá certo, mas não é bem assim” contesta uma informação incompleta, por exemplo, o candidato afirma que construiu 800 escolas em determinada região do país, no entanto, apenas metade está funcionando. O blefe é quando a afirmação não é verdadeira. Para contestar as informações, a Pública busca dados oficiais nos ministérios e nos governos, ou ainda especialistas que contrariem propostas na área da saúde, educação.


O Truco em ebook

O material do Truco com o resultado de toda a apuração dos programas do primeiro turno das eleições de 2014 está disponível para download gratuito em ebook nos formatos pdf, epub e mobi. O livro é dividido por candidatos, trazendo informações checadas e principais promessas de cada presidenciável.


E o Truco no segundo turno?

Chegamos ao segundo turno das eleições presidenciais, e agora o horário eleitoral gratuito na TV é uma peça ainda mais essencial na disputa pela presidência. No Truco! checamos os dados mais relevantes apresentados pelos presidenciáveis Dilma Rousseff (PT) e Aécio Neves (PSDB) durante os programas exibidos todos os dias na TV. E distribuímos a eles as “cartas” correspondentes, deixando claro ao leitor até que ponto o que os candidatos dizem na propaganda é verdadeiro, se o contexto correto muda a informação? Ou se o que diz o candidato é simplesmente um blefe. No segundo turno, todos os dias vamos “pedir o truco” às duas campanhas, um desafio público para que expliquem falas, dados ou promessas aparentemente insustentáveis. Também podemos discordar frontalmente dos candidatos quando acharmos suas propostas perigosas para a democracia e direitos humanos. Aí vamos carimbar um “Que medo” e fazer uma pequena matéria explicando o porquê. Temos também duas cartas novas: “candidato em crise”, quando há uma contradição com algo dito anteriormente, e “carta marcada”, quando a mesma afirmação questionável já foi usada no primeiro turno. Ao verificar esses dados, nosso objetivo é melhorar a qualidade do debate e estimular os eleitores a questionar o discurso dos presidenciáveis.

Acredito que a maioria dos brasileiros saiba o que é o truco, o popular jogo de cartas. Qualquer dúvida, clique aqui.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

Morreu o biblista Hans Heinrich Schmid (1937-2014)

Leio no blog do Jim West, em alemão, a notícia da morte de H. H. Schmid no dia 5 de outubro de 2014, aos 77 anos de idade.
Hiermit möchte ich Sie darüber informieren, dass unser sehr geschätzter Kollege Hans Heinrich Schmid leider am 5.10.2014 verstorben ist. Nicht nur unser Fach verdankt ihm sehr starke Impulse. Im Anhang finden Sie zwei Nachrufe. Wir werden H.H.Schmid ein ehrendes Andenken bewahren. Möge Gott ihn in Gnade in sein Reich aufnehmen. Die Universität Zürich trauert um Prof. Dr. Hans Heinrich Schmid emeritierter Professor alttestamentliche Wissenschaft und allgemeine Religionsgeschichte. Rektor der Universität Zürich 1988-2000 verstorben am 5. Oktober 2014 im Alter von 77 Jahren. Hans Heinrich Schmid habilitierte sich 1966 an der Universität Zürich. 1967 wurde er zum Assistenzprofessor und 1976 zum Ordinarius ernannt. 2000 trat er in den Ruhestand.
E:
Prof. Dr. theol. Hans Heinrich Schmid emeritierter Professor für alttestamentliche Wissenschaft und allgemeine Religionsgeschichte verstorben am 5. Oktober 2014 im Alter von 77 Jahren. Durch seine weit reichende Forschung und engagierte Lehre hat Hans Heinrich Schmid auf den Feldern der Allgemeinen Religionsgeschichte, Alttestamentlichen Wissenschaft und Biblischen Theologie seit seiner Zürcher Dissertation über mehr als drei Jahrzehnte wissenschaftlich gewirkt, viele Studierende, Kolleginnen und Kollegen begeistert und die Fachdiskurse des Alten Testaments bis heute massgeblich mitgeprägt.

Sobre a participação de H. H. Schmid, professor emérito e ex-reitor da Universidade de Zurique, Suíça, na pesquisa recente do Pentateuco há várias referências em meu blog e página.

As obras de Van Seters (1975), H. H. Schmid (1976) e Rolf Rendtorff (1977) constituem marcos históricos nos estudos do Pentateuco.

As publicações de H. H. Schmid podem ser vistas aqui.

Resenhas na RBL: 06.10.2014

As seguintes resenhas foram recentemente publicadas pela Review of Biblical Literature:

Abel Mordechai Bibliowicz
Jews and Gentiles in the Early Jesus Movement: An Unintended Journey
Reviewed by Michael G. Azar

Mark J. Boda, Carol J. Dempsey, and LeAnn Snow Flesher, eds.
Daughter Zion: Her Portrait, Her Response
Reviewed by Renata Furst

Warren Carter
Seven Events That Shaped the New Testament World
Reviewed by H. H. Drake Williams III

Israel Finkelstein
The Forgotten Kingdom: The Archaeology and History of Northern Israel
Reviewed by K. L. Noll
Reviewed by Daniel Pioske

Emmanouela Grypeou and Helen Spurling
The Book of Genesis in Late Antiquity: Encounters between Jewish and Christian Exegesis
Reviewed by Jeffrey L. Morrow

David Lincicum
Paul and the Early Jewish Encounter with Deuteronomy
Reviewed by Robert B. Foster
Reviewed by Archie T. Wright

Christopher McMahon
Reading the Gospels: Biblical Interpretation in the Catholic Tradition
Reviewed by Jean-François Racine

Claire S. Smith
Pauline Communities as ‘Scholastic Communities’: A Study of the Vocabulary of ‘Teaching’ in 1 Corinthians, 1 and 2 Timothy and Titus
Reviewed by Steve Walton


>> Visite: Review of Biblical Literature Blog

Resenhas na RBL: 03.10.2014

As seguintes resenhas foram recentemente publicadas pela Review of Biblical Literature:

Stéphanie Anthonioz
Le Prophétisme biblique: De l’idéal à la réalité
Reviewed by Michael S. Moore

Zvi Ben-Dor Benite
The Ten Lost Tribes: A World History
Reviewed by Joshua Schwartz

A. J. Culp
Puzzling Portraits: Seeing the Old Testament’s Confusing Characters as Ethical Models
Reviewed by Joel Stephen Williams

J. Christopher Edwards
The Ransom Logion in Mark and Matthew: Its Reception and Its Significance for the Study of the Gospels
Reviewed by Austin Busch

Joseph Fitzpatrick
The Fall and the Ascent of Man: How Genesis Supports Darwin
Reviewed by Paul Korchin

Nijay K. Gupta
Prepare, Succeed, Advance: A Guidebook for Getting a PhD in Biblical Studies and Beyond
Reviewed by Michael K. W. Suh

J. Todd Hibbard and Hyun Chul Paul Kim, eds.
Formation and Intertextuality in Isaiah 24–27
Reviewed by Andrew T. Abernethy
Reviewed by Jordan M. Scheetz

Stephen D. Moore
The Bible in Theory: Critical and Postcritical Essays
Reviewed by Ginny Brewer-Boydston

Christopher D. Stanley
Paul and Scripture: Extending the Conversation
Reviewed by Nijay Gupta


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Resenhas na RBL: 29.09.2014

As seguintes resenhas foram recentemente publicadas pela Review of Biblical Literature:

George J. Brooke, Daniel K. Falk, Eibert J. C. Tigchelaar, and Molly M. Zahn, eds.
The Scrolls and Biblical Traditions: Proceedings of the Seventh Meeting of the IOQS in Helsinki
Reviewed by Andrea Ravasco

Douglas Estes
The Questions of Jesus in John: Logic, Rhetoric and Persuasive Discourse
Reviewed by Cornelis Bennema

Amos Frisch
Torn Asunder: The Division of the Kingdom Narrative in the Books of Kings [Hebrew]
Reviewed by David A. Glatt-Gilad

Isaac Kalimi
Das Chronikbuch und seine Chronik: Zur Entstehung und Rezeption eines biblischen Buches
Reviewed by Ralph W. Klein

Mark C. Kiley
Gospel Essays: Frontier of Sacred and Secular
Reviewed by Douglas A. Hume

Carol Meyers
Rediscovering Eve: Ancient Israelite Women in Context
Reviewed by Marianne Grohmann
Reviewed by Aren M. Maeir

David W. Pao
Colossians and Philemon
Reviewed by James P. Sweeney

Jonathan Stökl and Corrine L. Carvalho, eds.
Prophets Male and Female: Gender and Prophecy in the Hebrew Bible, the Eastern Mediterranean, and the Ancient Near East
Reviewed by John W. Hilber
Reviewed by Ryan N. Roberts


>> Visite: Review of Biblical Literature Blog

terça-feira, 7 de outubro de 2014

Acabou de conhecer o Kindle?

Dicas aqui.

Dicas para novos usuários do Kindle - Cris Ferreira: Vida Sem Papel 07/10/2014
(...) Decidi aproveitar para apresentar a você este post de recapitulação, um roteiro para aqueles usuários que estão começando a conhecer seu Kindle. Os usuários mais experientes podem dar uma lida, pois pode ser que vocês encontrem aqui alguma dica que ainda não conheçam (...) Notem que vários destes artigos foram escritos há meses atrás, alguns antes de o Kindle começar a ser vendido no Brasil, alguns antes de muitas mudanças que tivemos desde então. Eu não tive tempo de atualizá-los, mas muitas das informações, principalmente no caso de tutoriais, ainda são bastante relevantes, então vou colocá-los aqui. Vale mencionar que entre estas dicas há varios artigos e tutoriais que também podem ser úteis para usuários de outros e-readers, como o Kobo e o Lev. Por isso, mesmo que você não possua um Kindle, vale a pena dar uma “passada” por este artigo para checar todas as dicas que eu organizei aqui.
Leia o texto.

Leia Mais:
Kindle

Enquanto isto, nos vestiários, no intervalo do jogo

Na expectativa das alianças que irão recompor as forças partidárias para o segundo turno da eleição presidencial, os jornais apresentam aos leitores um jogo de adivinhações que tenta dissimular suas preferências políticas. Daqui para a frente, seja qual for o movimento das peças, tudo será levado ao propósito maior da mídia tradicional, que é recompor sua influência sobre o poder Executivo federal.

O núcleo das análises é o destino que será dado aos votos que foram para a ex-ministra Marina Silva no primeiro turno. No entanto, há muita especulação sobre o significado da manifestação dos eleitores e muito desencontro nas opiniões em torno de algumas das disparidades reveladas pelas urnas (...).

Neste momento de transição entre os dois turnos da eleição presidencial, por exemplo, os jornais tentam empurrar para a opinião do público a tese de que todos os votos destinados a Aécio Neves e Marina Silva retratam um desejo majoritário de mudança. Então, nos editoriais e nos artigos de seus colunistas mais engajados, dá-se uma nova definição para essa suposta manifestação dos eleitores, com o intuito de nominar o candidato que seria o depositário desse desejo.

Essa manipulação fica mais clara após a declaração explícita de apoio a Aécio Neves feita pelo jornal O Estado de S.Paulo. Para o leitor típico do tradicional diário paulista, não há estranheza: quem lê o Estado não apenas espera que ele se declare contra o governo do PT, mas se regozija com cada linha que reafirma essa orientação ideológica.

O jornal é conservador desde sempre, produz e realimenta uma visão de mundo típica da elite paulista, e não há mal nenhum nisso. O problema está em fingir-se uma expressão da vontade popular, coisa que nenhum dos grandes diários representa.


Tem mais. Leia.

Fonte: Luciano Martins Costa, O círculo vicioso das manipulações - Observatório da Imprensa: 07/10/2014 . Também aqui.

Leia Mais:
Apoio a Aécio vai desmascarar Marina
No segundo turno, a disputa será política - Também aqui.

Infográficos das eleições de 2014

:: O mapa da votação nos municípios: veja em detalhe a votação para presidente, governador e senador - O Globo - Atualizado em 06/10/2014 às 11:10:44

:: Eleições 2014: apuração dos votos para presidente no 1º turno - Valor - Última atualização: 06/10/2014 às 11:10:44

:: Eleição 2014 em números: dados e infográficos sobre o processo eleitoral - G1 (várias páginas) - outubro de 2014

segunda-feira, 6 de outubro de 2014

Dilma x Aécio: dois projetos de país

Minas tornou-se a pedra no meio da língua de Aécio. Quanto mais ele ataca Dilma e o PT, mais complicado fica explicar a derrota no seu Estado.

Serão três semanas de confronto duro entre dois projetos de país e duas estratégias de enfrentamento da crise mundial, que está longe de acabar.

Uma, preconiza desarmar a sociedade e amesquinhar o  Estado. Liberado o campo – de que faz parte derrotar o PT - entrega-se a economia à lógica do arrocho, esfarelando direitos, empregos, renda e soberania, para dessa forma canalizar riqueza aos mercados encarregados de reordenar  o país, a economia e os pilares do crescimento.

É a mesma lógica da ‘contração expansiva’ (contração dos de baixo para abrir caminho à expansão dos do alto) aplicada na Europa há quatro anos, com os resultados sabidos.

A outra estratégia envolve uma obstinada negociação política das linhas de passagem para um novo ciclo de desenvolvimento.

Ancora-se em quatro patas: avanço da igualdade, salto na infraestrutura, impulso industrializante do pré-sal e reforma política com democracia participativa.

Nessa repactuação  de metas, prazos, concessões, sacrifícios, ganhos e salvaguardas, a voz dos mercados não poderá se impor, nem abafar a da sociedade, que para isso requisita canais adicionais que a vocalizem.

Esse é o jogo, cujo segundo tempo começa agora.

Leia o texto completo.


Fonte: Saul Leblon, Há uma pedra no meio da língua de Aécio. Em Carta Maior 06/10/2014


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quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Todo o mundo tem a incerteza do que afirma

O título? Guimarães Rosa, Lá nas campinas, em Tutameia.

Quero deixar claro que essa concepção que defendo implica desenvolver educação reflexiva e crítica, e não apenas informativa. As informações estão disponíveis nas mídias e redes sociais. Na escola, temos a oportunidade e o dever de auxiliar nossos alunos a compreender a construção histórica da vida social e a produzir conhecimentos sobre o mundo com as informações que recebem e podem acessar.

Nem o professor nem a instituição escolar possuem mais o monopólio da divulgação da informação. Nesse sentido, aulas para a simples transmissão de informações tornaram-se anacrônicas e desinteressantes. Nós professores temos que aproveitar a disponibilidade de acesso à informação e desenvolver em nossas aulas projetos de pesquisa, busca de estabelecimento de relações, problematizações.

Vários autores têm nos ensinado que vivemos no meio de disputas entre diferentes regimes de verdade. A “verdade” deve ser buscada nas pesquisas, é meta a ser alcançada, horizonte para o trabalho de pesquisadores científicos. Os historiadores, em seus estudos, produzem e fundamentam versões que são geradas a partir de diferentes teorias e metodologias de pesquisa. Mas uma vez a pesquisa realizada, novas questões podem ser  levantadas e “verdades” tornam-se versões. Os professores precisam se manter atualizados e se posicionar diante das diferentes versões. É preciso, também,  que os alunos aprendam como se faz a história, como se produz o conhecimento histórico, mas, também, qual a versão mais atual e eticamente comprometida.

Fonte: Ana Maria Monteiro, O fim do monopólio do professor e da instituição escolar - IHU On-Line 450 - 11/08/2014.

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Omnia disce. Videbis postea nihil esse superfluum

The Friedberg Genizah Project

The Friedberg Genizah Project (FGP) is pleased to announce that, following an Agreement with the Oxford Bodleian Libraries, high-quality digital images produced by the Oxford digitization services for all Genizah manuscripts and fragments in these Libraries (about 25,000 images) will be displayed in the Friedberg Genizah website.

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The Rylands Genizah Collection

Biblical Studies Carnival 103

Seleção de postagens dos biblioblogs em setembro de 2014.

Biblical Studies Blog Carnival | September 2014

Trabalho feito por Mike Skinner, do blog Cataclysmic.