sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Mês da Bíblia 2011: Êxodo, segundo a revista Concilium

VAN IERSEL, B.; WEILER, A. et al. Êxodo: paradigma sempre atual. Concilium, Petrópolis, n. 209, 1987, 144 p.

Por Sebastião de Magalhães Viana Junior

A Revista Internacional de Teologia “Concilium” foi fundada em 1965 pelos teólogos Congar, Hans Küng, Metz, Rahner e Schillebeeckx. Como era de se esperar, tendo seu início com os maiores teólogos europeus do século XX, aos poucos agrupou ao seu redor teólogos de renome do mundo inteiro. Este exemplar da Revista que está conosco traz três listas dos membros do comitê de direção e dos de consulta de Sagrada Escritura e História da Igreja. De fato, são nomes de peso, espalhados pelo mundo, cujo pensamento se reúne nos resultados das publicações. Elaborada por teólogos europeus, latino-americanos, asiáticos, americanos e africanos, e com publicação simultânea em 7 línguas (francês, inglês, italiano, alemão, holandês, espanhol e português), cada número da Revista sempre volta seu olhar e a direção de sua reflexão para algum tema específico e de interesse para os cristãos, ainda que muitos dos temas sejam polêmicos. Isso acontece porque a motivação para a fundação da Revista se encontra na vontade de manter vivo o “espírito do Concílio Vaticano II”, empenhado em abrir a Igreja Católica para o diálogo com o mundo. Quando um número traz um tema relevante e/ou polêmico, o pano de fundo para sua escolha é manter sempre aberto o diálogo da teologia com a sociedade.

Neste fascículo, que apresentaremos, há uma novidade: “é o primeiro elaborado após a decisão da comissão de direção de reunir num mesmo número a matéria de exegese e de história da Igreja” (p. 5). O que quiseram foi "tornar visível a eficiência da Sagrada Escritura na história que se segue após” (p. 5), ou seja, sem Escrituras a história desenvolvida a partir delas, cujos próprios fundamentos estão nelas, não faz sentido. Tratar do Êxodo desse ponto de vista não significa descartar a importância de sua análise teológica, adotando a atualidade de sua discussão como critério. Por evidenciar tão bem a liberdade, o Êxodo torna-se um “paradigma sempre atual”, “de eficácia perene”. Isso já oferece bastante material para nossa apresentação.

Os temas discutidos foram assim distribuídos: “após o editorial, Roland Murphy – desde o início e até há pouco tempo, um dos diretores da seção de exegese [lembrando que este número é de 1987] – faz uma breve análise sobre a relação entre a Sagrada Escritura e a História da Igreja. [...] Do próprio tema se trata em quatro seções.

A primeira se restringe às Escrituras, mas já demonstra de algum modo como o acontecimento-êxodo se torna um paradigma. Rita Burns explica como, no Pentateuco, as experiências do Egito são tematizadas. Zenger chega à conclusão de que o tema do novo êxodo em Isaías – realizado no mesmo tempo das tradições mais recentes do Pentateuco – amplia essa temática. As reflexões sobre os dados bíblicos terminam com o artigo de Casey a respeito de como este tema é apresentado no Apocalipse de São João.

Na segunda seção tomamos conhecimento de desenvolvimentos ulteriores. Pinchas Lapide escreve sobre a tradição judaica pós-bíblica. John Newton analisa alguns textos programáticos de diferentes movimentos eclesiais que apelam para o êxodo-evento, enquanto Weiler faz pesquisas a respeito da experiência de comunidades semelhantes. A seção termina com uma contribuição esclarecedora de Kort sobre o romance de Leon Uris intitulado Exodus.

A terceira seção se dedica aos desenvolvimentos contemporâneos na própria teologia. Dussel expõe a teologia da libertação, Young a teologia negra e Bergant a teologia feminista. Dussel elabora um modelo estrutural do êxodo-paradigma, relevante também para as duas outras formas de teologia.

A quarta seção apresenta um caráter mais estimativo e hermenêutico. O sociólogo e teólogo Baum avalia a influência do êxodo-paradigma na política, o teólogo da libertação Severino Croatto esclarece os efeitos recíprocos do motivo do êxodo na história da libertação e das experiências nesta história sobre a interpretação daqueles trechos bíblicos. Tracy finalmente tenta uma avaliação teológica” (p. 5-6).

Pelo que pudemos perceber, grande parte da primeira seção não apresenta nada de novo. Com efeito, o terreno da exegese bíblica é bem movediço. Pisar nele é correr o risco de afundar e perder-se. Dizemos isso porque temos em mãos artigos escritos há mais de duas décadas, e, pelo modo como a pesquisa arqueológica tem avançado, reafirmar qualquer coisa sobre o Pentateuco (ou sobre qualquer outro livro bíblico) como verdade absoluta, sem considerar a possibilidade de amanhã ter de desfazer-se de tudo isso, é incorrer em erro grave com a ciência bíblica. O que até então se disse deve ser aceito até que não se diga algo mais bem fundamentado. Sendo assim, a primeira seção não nos interessa muito, já que pretendemos apresentar a atualidade sempre evidente do tema do Êxodo presente na narrativa bíblica. Claro que sua importância não deixa de existir, porque é a partir das Escrituras que é possível perceber o êxodo como paradigma.

As alusões ao Êxodo sempre são muito numerosas, desde os livros do Antigo Testamento até a História da Igreja, como vimos. Desde o início da tradição hebraica, o Êxodo tornou-se o grande ato salvífico de IHWH, através do qual Ele libertou Israel e o instituiu como povo. Muitos notaram que Israel vê as raízes de sua nacionalidade e de sua religião no Êxodo, muito mais do que poderiam vê-las na história dos patriarcas. A razão de sua fé é histórica. Acreditar que IHWH preocupa-se com o povo oprimido é possível porque Ele mesmo manifestou seu poder e sua vontade salvando-o da opressão. Não é sem razão que a memória desse evento permanece ainda muito viva. “Por quê? Por que esse êxodo de tão alta antiguidade já há muito não caiu no esquecimento? É porque nós, judeus, em contraste com outras religiões, nunca separamos a história mundial da história da salvação. Desde sempre a salvação é sentida em Israel como um processo histórico-terreno, que, entretanto, em seu significado mais profundo é antes de tudo de natureza religiosa. Pois nem Moisés nem Aarão são os heróis deste drama, mas Deus, que se revela como o libertador dos fracos e desprovidos de direitos” (Pinchas Lapide, p. 49).

Esse grande evento era comemorado na festa da Páscoa, na qual era feita a recitação litúrgica da história do grande acontecimento (cf. Dt 6,20ss). Celebrar é tornar célebre. Era preciso celebrar a Pessah (páscoa), a festa judaica da libertação e da constituição do povo. Celebrar é fazer ser lembrado: quanto mais se lembra menos se esquece. Mais do que a libertação e constituição do povo, em primeiro lugar, celebrava-se o Deus vivo como fonte da vida.

Este tema liga-se diretamente ao da seção seguinte, na qual são apresentados enfoques genitivos da teologia (da libertação, do negro, da mulher), a partir da leitura do Êxodo. Embora os autores dessa seção (Enrique Dussel, Josiah Young e Dianne Bergant) escrevam com muita propriedade, deve ficar claro que eles não têm a pretensão de reelaborar toda a teologia bíblica. À luz de sua fé e do conhecimento que têm, pretendem, nos parece, decifrar esses setores relevantes da existência humana. Contudo, o ponto de vista que orienta seu trabalho e sua pesquisa há de reconhecer sua própria insuficiência diante do grande leque de possibilidade de novos enfoques. Em vinte anos, quantos outros não poderiam ser discutidos, tendo como ponto de partida o mesmo Êxodo? Como aconteceu outrora com o povo de Israel, sempre que houver alguma insatisfação com o modo como as coisas estão estabelecidas, numa relação dominador-dominado; sempre que houver um certo “mal-estar” por isso, presente geralmente em grupos minoritários e fracos, haverá um novo modo de acender esperanças. As teologias descritas nessa seção são sempre libertadoras; elas respondem aos sinais dos tempos, porque animam a práxis transformadora das relações humanas.

Por esse motivo, o Êxodo é sempre um paradigma atual: ele desemboca em práticas transformadoras, onde houver uma realidade que precise ser mudada (por exemplo, quanto ao espaço da mulher na sociedade, ele se reflete na teologia quando se redescobre e se resgata imagens maternas de Deus, purificando-o de imagens patriarcais e cheia de conotações masculinas, ou quando, na Bíblia, as figuras femininas são redescobertas; quanto ao negro, a teologia cujo enfoque se volta para ele, aparece como resposta ao etnocentrismo, que procura estabelecer uma determinada etnia como a perspectiva humana padrão. Quando surge a discriminação de multidões e de povos inteiros, lá é necessário haver o êxodo deles).

Enfim, cremos que neste mês da Bíblia, empenhados na leitura do livro do Êxodo, teremos um novo vigor para propor mudança onde imperar experiências baseadas no sistema de opressão. A proposta de leitura desse número da Revista “Concilium” para o mês da Bíblia de 2011 é válida, embora o fascículo seja de 1987. Isso só reafirma o que dissemos com os diversos autores: “Êxodo: paradigma sempre atual”. Ela vem ajudar-nos, iluminando-nos com o texto bíblico, a confrontar nossas vidas com a Palavra de Deus, levando-nos também ao nosso êxodo.

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