Acabei de ler uma instigante resenha do romance Caim de Saramago.
Escrita por Eduardo Hoornaert, foi publicada pela REB 70, n. 278, abril de 2010 (na edição impressa, p. 515-516). Está disponível online.
Um trecho:
O que se pode dizer é que Saramago não tem a intenção de escandalizar seus (suas) leitores(as) com disparates levianos e incongruentes contra os textos bíblicos, mas pretende lutar contra uma apresentação banalizada da Bíblia, que tira o sentido do texto, mas que infelizmente constitui a leitura comum nos dias em que vivemos. A estranheza que esse romance provoca em nós mostra que a maioria de nós não costuma ler a Bíblia, mas apenas conhece uma apresentação da literatura bíblica feita durante séculos pelas igrejas, por meio de sermões e do catecismo e de literatura de divulgação bíblica. O(a) leitor(a) atento(a) descobrirá logo que Saramago não comenta textos bíblicos. O romance todo só tem uma citação (da Carta aos hebreus, 11,4) no pórtico de entrada. Pelo resto, Saramago não comenta a Bíblia; ele se refere o tempo todo ao que se pode chamar de apresentação catequética da Bíblia, ou seja, à “história sagrada”. Seu romance é uma crítica ácida e corrosiva da ”história sagrada” tal qual é intensamente difundida e universalmente conhecida, pois ela retira o conteúdo vivo das narrativas bíblicas e joga a carcaça morta ao povo, ou seja, um amontoado de histórias incompreensíveis e estranhas...
Termina assim:
O romance de Saramago pode criar desconforto em leitores(as) acostumados(as) à apresentação de um deus senhor todo-poderoso. Pois a apresentação da história bíblica feita pelo autor é de caráter militante. Por trás do tom de leveza e humor que perpassa o texto existe a ânsia de alguém que percebe que a humanidade se deixa enganar. O alvo do romance é a fé do rebanho que se recusa a pensar com liberdade. Saramago gostaria que o ser humano fosse mais consciente de suas potencialidades e se libertasse do domínio de representações que secularmente explicam as Sagradas Escrituras como lhes convém. Ele desconstroi a maneira em que as narrativas bíblicas são apresentadas ao povo e, para tanto, transforma Caim em herói da liberdade humana. Vale a pena ler Caim. É um livro que, além de proporcionar o prazer causado pelo domínio perfeito da língua portuguesa, ajuda a pensar.
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