segunda-feira, 12 de julho de 2010

Caim, de Saramago, por Eduardo Hoornaert

Acabei de ler uma instigante resenha do romance Caim de Saramago.

Escrita por Eduardo Hoornaert, foi publicada pela REB 70, n. 278, abril de 2010 (na edição impressa, p. 515-516). Está disponível online.

Um trecho:
O que se pode dizer é que Saramago não tem a intenção de escandalizar seus (suas) leitores(as) com disparates levianos e incongruentes contra os textos bíblicos, mas pretende lutar contra uma apresentação banalizada da Bíblia, que tira o sentido do texto, mas que infelizmente constitui a leitura comum nos dias em que vivemos. A estranheza que esse romance provoca em nós mostra que a maioria de nós não costuma ler a Bíblia, mas apenas conhece uma apresentação da literatura bíblica feita durante séculos pelas igrejas, por meio de sermões e do catecismo e de literatura de divulgação bíblica. O(a) leitor(a) atento(a) descobrirá logo que Saramago não comenta textos bíblicos. O romance todo só tem uma citação (da Carta aos hebreus, 11,4) no pórtico de entrada. Pelo resto, Saramago não comenta a Bíblia; ele se refere o tempo todo ao que se pode chamar de apresentação catequética da Bíblia, ou seja, à “história sagrada”. Seu romance é uma crítica ácida e corrosiva da ”história sagrada” tal qual é intensamente difundida e universalmente conhecida, pois ela retira o conteúdo vivo das narrativas bíblicas e joga a carcaça morta ao povo, ou seja, um amontoado de histórias incompreensíveis e estranhas...

Termina assim:
O romance de Saramago pode criar desconforto em leitores(as) acostumados(as) à apresentação de um deus senhor todo-poderoso. Pois a apresentação da história bíblica feita pelo autor é de caráter militante. Por trás do tom de leveza e humor que perpassa o texto existe a ânsia de alguém que percebe que a humanidade se deixa enganar. O alvo do romance é a fé do rebanho que se recusa a pensar com liberdade. Saramago gostaria que o ser humano fosse mais consciente de suas potencialidades e se libertasse do domínio de representações que secularmente explicam as Sagradas Escrituras como lhes convém. Ele desconstroi a maneira em que as narrativas bíblicas são apresentadas ao povo e, para tanto, transforma Caim em herói da liberdade humana. Vale a pena ler Caim. É um livro que, além de proporcionar o prazer causado pelo domínio perfeito da língua portuguesa, ajuda a pensar.


Leia Mais:
Saramago e seu novo romance Caim
Morreu o escritor José Saramago (1922-2010)

Nenhum comentário:

Postar um comentário