terça-feira, 9 de fevereiro de 2010

CEARP: Aula Inaugural de 2010

No dia 27 de janeiro recebi uma comunicação do Secretário Geral do CEARP, Luiz Henrique Bugnolo, solicitando que, junto com os Professores Francisco de Assis Correia e Alfeu Piso, participasse da Aula Inaugural no dia 1 de fevereiro de 2010, fazendo uma memória do que vivemos ao longo dos 32 anos de existência do Centro de Estudos da Arquidiocese de Ribeirão Preto.

Por que nós três e por que agora? Em 2008 o Curso de Teologia completou 30 anos e o CEARP 40 anos. E nenhum evento fora realizado para comemorar as datas. E nós três? Por sermos os mais antigos professores em atividade no CEARP...

Alfeu declinou do convite, pela urgência do tempo. Francisco fez um histórico da instituição desde o seu início em 1968, quando ainda se chamava Curso de Preparação ao Presbiterato. Em 11 tópicos e com muita clareza, mostrou as várias etapas de constituição e funcionamento do CEARP até hoje, apontando, também, possíveis perspectivas para o futuro.

Eu, que só cheguei aqui em 1979, quando já começava o segundo ano de Teologia, limitei-me a este curso - nunca trabalhei na Filosofia - e fiz algo um pouco diferente, que chamei pretensiosamente, creio, de Fazer Teologia no CEARP Hoje. O que vou transcrever aqui é apenas um roteiro do que falei para Diretores, Professores e alunos da Teologia e Filosofia nos 25 minutos que me foram concedidos. Durante a fala, alguns aspectos foram mais desenvolvidos do que aparecem neste roteiro.

No final, após os testemunhos e/ou questões levantadas pelos presentes, nós três, Francisco, Alfeu e eu fomos homenageados pelo Diretor Geral do CEARP, Nilton Peres, que nos entregou placas comemorativas do evento.


Fazer Teologia no CEARP Hoje

Abordo três pontos:
. O que é próprio da Teologia
. Algumas características do mundo atual
. Onde se insere o CEARP neste processo


> Coloco um pressuposto: Uma Teologia que não aborda os problemas de sua época não serve para nada.


:: Teologia como discurso que tematiza as relações de homens e mulheres no tempo e no espaço com as epifanias de Deus. Donde, teologias - no plural - que:

. Caracterizam-se pelo uso de sistemas conceituais, trabalhando a partir de regras bem - ou razoavelmente bem - definidas

. Distinguem-se do discurso religioso, enquanto este é altamente simbólico e tem uma preocupação direta e imediatamente prática, como os discursos catequéticos, homiléticos, proféticos etc.

. Sendo mais eficazes quando são teorias sobre a Fé e não teorias da Fé - as Teologias devem procurar produzir conhecimento e não reconhecimento

. Concluindo-se, assim, que as melhores Teologias são aquelas que não tomam o lugar da Fé e nem deixam que esta tome o seu (cf. BOFF, Cl. Teologia e Prática: Teologia do Político e suas mediações. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 1993, II parte, cap. III).


:: Mundo atual como mundo plural: talvez uma das mais marcantes características da chamada pós-modernidade:

. Realidade plural: pluralismo das sociedades, culturas, religiões

. Realidade contraditória: desigualdades econômicas, sociais, culturais

. Realidade fragmentada: pessoas integradas e pessoas marginalizadas - nações inteiras - até continentes

. Onde não é mais possível postular a centralidade da cultura ocidental e nem a sua supremacia

. E nem o cristianismo como religião superior ou o Cristo "em sua roupagem ocidental" como centro absoluto, em contraposição às demais mediações históricas consideradas como relativas

. A globalização realçou as diferenças, multiplicou os discursos, acirrou os enfrentamentos e tornou inadiáveis as alianças regionais como barreiras contra a avalanche do pensamento único do único Império

. Mundo que colocou em nossas telas, e delas saltou para nossas mentes e corações, a contingência do existir: as novas mídias nos fazem partilhar, quase em tempo real, as tragédias da natureza e da sociedade e nos dão a dimensão de nossa fragilidade e de nossa força.

. Paradoxo? Homens e mulheres sempre conseguiram, nos últimos 4 milhões de anos - desde Ardi, ou Ardipithecus ramidus, “símio do chão”, uma fêmea de hominídeo primitivo, que viveu há 4,4 milhões de anos - encontrar soluções para os problemas que enfrentaram.


:: Onde se insere, neste processo, o CEARP em seus trinta e poucos anos de existência?

. O CEARP visto como estrutura de ensino (local de reprodução do saber), de pesquisa (produção do saber) e de extensão do saber (serviço à comunidade)

. Como aprendiz de Teólogo, vejo que o Curso de Teologia nos coloca três desafios:
- Aprender Teologia: apreender os conceitos básicos da área e ter o seu controle
- Fazer Teologia: todo cristão/ã faz alguma teologia quando produz um discurso religioso, mas um Curso de Teologia requer um nível mais rigoroso, exige o uso consciente de regras internas próprias do discurso teológico, herdadas da Tradição e solicitadas pela Comunidade e pelo Magistério atuais, sendo que Magistério e Teologia não estão em relação de subordinação, mas de colaboração, pois ambos estão subordinadas à Palavra e a Serviço do Povo de Deus
- Viver a Teologia: como biblista, considero como coisa séria a paixão pelo que se faz, com envolvimento total, em tempo integral; o construir o saber com método, com seriedade e rigor - sabedoria e ciência caminhando de mãos dadas; a consciência crítica que tenta se manter alerta e lúcida na rejeição do superado e no acompanhamento do que é proveitoso nas pesquisas mais recentes. Viver a Teologia como uma paixão profética! Como fazia o profeta Jeremias! Tenho desgosto e manifesto meu desapreço por uma Teologia morna e repetitiva, que olha apenas para si mesma e ignora a realidade ao seu redor. A volta aos fundamentos deveria ser para nos dar impulso, nos fortalecer face às novas situações, não para recriar um impossível passado e nele nos acomodarmos.

. Vejo, neste contexto, o CEARP com muita potencialidade, mas não totalmente desenvolvida. Muitas conquistas foram feitas nestes trinta e poucos anos, muitas iniciativas foram experimentadas com maior ou menor resultado, como seminários temáticos, revista, painéis, simpósios, palestras, melhoria significativa da biblioteca, das estruturas de ambiente e administração, semanas teológicas, semanas culturais, participação de professores em Congressos etc. Mas há - por razões internas e externas - certa estagnação, acomodação, discurso pronto, feito e satisfeito. Vejo que é preciso se lançar avante. Ousar. Sair do isolamento, da domus, do doméstico.

. Há muitas possibilidades: novas mídias, novos meios, novas produções: computadores, internet, blogs e páginas convencionais, revista eletrônica, seminários temáticos, ler e escrever, produzir, enfim.

. Ainda: debates com outras Faculdades de Teologia - questões como reconhecimento dos cursos de Teologia pelo MEC e suas consequências, a relação leigo/clero no campo do fazer teológico, a solidão teológica dos padres, o desafio das ciências e da cultura, as muitas vertentes da Teologia atual, a relação da Teologia com as Ciências da Religião, as conquistas (cada vez mais ameaçadas) do Vaticano II... São tarefas para muitos e para muito tempo.

. Como disse Kant, no início de sua fala, quando questionado sobre o significado da Aufklärung - O que são as Luzes? Sapere aude [Ouse saber]! Tenha a coragem de te servir de teu próprio entendimento!

4 comentários:

wijsman disse...

Caro Prof. Airton.
Parabéns pela sua exposição lúcida e instigante. Sua contribuição para a Teologia do Cearp muito aquece e enriquece um debate urgente.
Cordialmente,
João Madeira

wijsman disse...

não sei de onde o google retirou o 'wijsman'. Leia-se ao invés 'filosoof' e ainda assim num sentido pouco pretensioso do termo.

airtonjo disse...

Madeira,

Obrigado pelo incentivo.

Um abraço

Airton

Um pobre menino do destino disse...

(...) "Pois bem, agora vem uma constatação importante, e que intriga cada vez mais a Igreja. Nós podemos nos valer do trabalho realizado por Lucas, Paulo, e todos quantos colaboram para colocar por escrito a mensagem de Jesus, a partir da maneira como esta mensagem vinha sendo acolhida nas comunidades cristãs. E continuar com a mesma formulação cultural que esses escritos deram ao Evangelho vivido e anunciado por Jesus.

Mas, podemos também fazer como eles fizeram. Isto é, traduzir o Evangelho de Cristo numa roupagem mais adequada ao nosso tempo, na convicção de que a mensagem vivida e transmitida por Jesus de Nazaré é tão fecunda e tão permanente, que ela tem a força de fecundar também a realidade cultural de nossa época.

Para nós que somos herdeiros da cultura greco-romana, em nosso mundo ocidental, poderia parecer ocioso este empreendimento. Mas ele se torna urgente e indispensável para outros contextos culturais diferentes do nosso, sobretudo das grandes culturas orientais, e do mundo indígena americano.

Aí está o grande desafio de uma verdadeira inculturação do Evangelho. Depois de dois mil anos de sua recepção na cultura grega, a Igreja se depara com a ingente tarefa de fazer em outras culturas o que Lucas e Paulo fizeram para o mundo ocidental. Pois o Evangelho não pode ficar preso à roupagem ocidental que ele assumiu. No dizer do próprio Cristo, ele é fermento, tem a força de levedar outros trigos, possibilitando pães com outro sabor, que podem ser servidos em outras mesas. No momento em que os ocidentais parecem estar perdendo o apetite deste Pão da Vida, outros povos estão famintos da mesma verdade e do mesmo amor que Cristo testemunhou para toda a humanidade".

Trecho final do artigo Cultura e fé, escrito por Dom Demétrio Valentini, Bispo de Jales, SP, e publicado na Adital em 23/10/2006.

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