domingo, 21 de dezembro de 2008

Paulo de Tarso: um mestre que faz pensar?

A redescoberta de Paulo pela pós-modernidade. Entrevista especial com Alain Gignac

Alain Gignac é enfático ao dizer que a redescoberta de Paulo de Tarso pela pós-modernidade se dá em dois sentidos. “Paulo alimenta a (pós)modernidade, e esta permite redescobrir Paulo”. Um mestre que faz os filósofos ocidentais pensarem, mesmo os ateus. “Para todos esses filósofos, a leitura das cartas foi determinante como catalisador de seu próprio pensamento – que não se situava necessariamente na linha de Paulo e, mesmo seguidamente se opunha a ele”. E Paulo nos confronta na época de individualismo e consumismo exacerbados em que vivemos, provoca Gignac: “Na história da literatura, trata-se do primeiro escritor a se expressar em ‘eu’ com tal força. Mas o ‘eu’ de Paulo é livre e inscrito em uma comunidade, não é individualista e isolado, nem escravo e alienado”.

Enquanto forem lidas, suas cartas continuarão nos forçando a refletir. Por isso, “não há momento propício para ler Paulo, mas ao contrário, a leitura de Paulo pode criar um momento propício, o momento capaz de criar o novo”. Analisando as críticas de Nietzsche a Paulo, Gignac aponta que o filósofo alemão “dissocia Jesus e Paulo para opô-los e para atacar o apóstolo se servindo de um Jesus que lhe convém”. E completa: “O cristianismo não está fundado em Jesus, mas no Cristo – ou seja, uma interpretação pascal da vida e da morte de Jesus”. A respeito da morte na cruz, o teólogo destaca que Paulo sabe que esta é uma “morte vergonhosa, mas ele está longe de dizer que se trata de uma morte gloriosa. Paulo não exclui o sofrimento nem o escândalo da morte. Sua retórica não visa à sublimação, mas marca fortemente o paradoxo”.

Gignac é professor assistente na Faculdade de Teologia e Ciências da Religião da Universidade de Montreal, Canadá, desde 1999, onde leciona Novo Testamento. Especializado no corpus paulino, ele se interessa pelos métodos de análise sincrônica (retórica, estrutural, narratológica e intertextual) e os seus impactos hermenêuticos. A sua investigação Ler a Carta aos Romanos hoje, subvencionada pelo governo canadense, propõe-se reler Romanos com estes métodos, mas também aborda o horizonte do questionamento moderno/pós-moderno: como o escrito paulino propõe uma identidade e um agir no seu leitor? De sua produção acadêmica, citamos Juifs et chrétiens à l'école de Paul de Tarse. Enjeux identitaires et éthiques d'une lecture de Rm 9-11. Montréal: Médiaspaul, 1999; [Commentaire de la Lettre aux Romains. Paris: Cerf, en préparation].

A entrevista foi concedida por e-mail, com exclusividade à IHU On-Line.

Confira a entrevista em Notícias - IHU On-Line: 21/12/2008

Alain Gignac
Sommaire des intérêts de recherche
Rédaction d’un commentaire scientifique synchronique sur la Lettre aux Romain; lecture du corpus paulinien en contexte postmoderne (Lyotard, "déconstruction" de Rm 1); réception de Romains par des philosophes contemporains (Alain Badiou, Jacob Taubes, Giorgio Agamben); analyse narratologique de la Lettre aux Galates.

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