sábado, 11 de outubro de 2008

A linguagem religiosa do mercado

Em O Capital, Marx comparava o capitalismo a uma religião. As mercadorias são percebidas como ídolos, que têm vida própria e decidem o destino dos homens. Esse argumento foi utilizado pelos teólogos da libertação, como Hugo Assmann, Franz Hinkelammert, Jung Mo Sung, para desenvolver uma crítica radical do capitalismo como religião idólatra. A teologia do mercado, de Thomas Malthus ao último documento do Banco Mundial, é ferozmente sacrificial: exige que os pobres ofereçam suas vidas no altar dos ídolos econômicos. Walter Benjamin, ao escrever sobre isso em 1921, não havia lido O Capital. Ele se inspira no sociólogo Max Weber para analisar o caráter cultual do sistema. Na religião capitalista, a cada dia se vê a mobilização do sagrado, seja nos rituais na Bolsa, seja nas empresas, enquanto os adoradores seguem com angústia e extrema tensão a subida ou a descida das cotações. As práticas capitalistas não conhecem pausa, dominam a vida dos indivíduos da manhã à noite, da primavera ao inverno, do berço ao túmulo (Michael Löwy, em entrevista publicada pelo jornal O Estado de S. Paulo e reproduzida por Notícias: IHU On-Line de 13/01/2008)

[Hugo Assmann] fundou o Departamento Ecuménico de Investigaciones (DEI), onde, juntamente com o seu amigo Franz Hinkelammert, desenvolveu uma sólida linha de pesquisa sobre a relação teologia e economia. Um dos principais resultados de linha de pesquisa é o livro A idolatria do mercado (em co-autoria com F. Hinkelammert, 1989, Vozes), um livro fundamental que merece ser mais estudado e aprofundado. Nesse livro, Assmann desenvolveu uma crítica poderosa aos pressupostos teológicos do sistema de mercado capitalista e das teorias econômicas liberais e neoliberais. Ele desmascarou o que ele chamou de “seqüestro do mandamento do amor” e revelou o processo econômico e teórico que culmina, no capitalismo, com a absolutização do mercado que acaba por exigir e justificar sacrifícios de vidas humanas. Ele chamou esse processo de “idolatria do mercado”. O objeto da sua crítica não era o mercado como tal – que ele reconhecia como algo necessário na vida econômica de uma sociedade ampla e complexa –, mas a sua absolutização... (Hugo Assmann: teologia com paixão e coragem. Artigo de Jung Mo Sung, em Notícias: IHU On-Line: 25/02/2008)

E a direitona furiosa parece que, desta vez, enfiou a mão no "buraco do cupim" (construído pelo termitídeo Cornitermes cumulans) ou, caso se queira, do aterroada, bagabaga, cupim, cupineiro, cupinzeiro, itacuru, itacurubá, itapecuim, itapicuim, morro de muchém, murundu, surujê, tacuri, tacuru, tapecuim, tapicuém, termiteiro, terroada, torroada, tucuri... Como se pode ler em Idolatria do mercado? Dizem que o liberalismo é isso. Mas a coisa não faz o mínimo sentido, por Olavo de Carvalho, em Época, 16 de dezembro de 2000:
...se as pessoas não tiverem mais motivos extra-econômicos – isto é, biológicos, psicológicos, lúdicos, éticos ou fantásticos – para comprar o que compram, simplesmente não comprarão mais, a não ser na hipótese de um inconcebível capitalismo imaterial, no qual, todos os produtos tendo sido reduzidos a dinheiro, as pessoas comam dinheiro, vistam dinheiro, leiam dinheiro e troquem dinheiro por dinheiro [sublinhado meu].

Leia:
Analistas questionam a gravidade da crise - Notícias: IHU On-Line: 11/10/2008
Deus mercado virou diabo (siga os links para os respectivos artigos)

Por outro lado:
...o uso do termo “tóxico”, no plano internacional... era um cliente “subprime”... a injeção de dinheiro dos contribuintes nos bancos para salvá-los da bancarrota vem recebendo o nome de “bailout”...

Leia:
A semântica da crise - Flávio Aguiar, em Carta Maior: 08/10/2008

Um comentário:

Alexander De Bona Stahlhoefer disse...

interessante as suas considerações.
A compreensão da TdL sobre a economia é quase só sob o viés da hamartiologia. Você conhece teólogos que refletem economia pesando também a teologia da criação?
abraços

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