quarta-feira, 18 de junho de 2008

Vim para combater o comunismo e virei 'comunista'

Uma vida na América Latina a serviço da libertação. Entrevista especial com José Comblin

Na última semana, o IHU recebeu a visita do Pe. José Comblin. Ele palestrou sobre a originalidade histórica da Conferência de Medellín durante o evento De Medellín a Aparecida: marcos, trajetórias e perspectivas da Igreja Latino-Americana. A IHU On-Line aproveitou a sua vinda e conversou pessoalmente com ele sobre sua trajetória, sua vida e sobre alguns aspectos da prática teológica hoje (...) José Comblin é teólogo. Participou do primeiro grupo da Teologia da Libertação. Esteve na raiz das equipes de formação de seminaristas no campo em Pernambuco e na Paraíba (1969), do seminário rural de Talca, no Chile (1978) e, depois, na Paraíba, em Serra Redonda (1981). Estas iniciativas deram origem à chamada Teologia da enxada. Além disso, esteve na origem da criação dos Missionários do Campo (1981), das Missionárias do Meio Popular (1986), dos Missionários formados em Juazeiro da Bahia (1989), na Paraíba (1994) e em Tocantins (1997). É autor de inúmeros livros, dentre eles A ideologia da segurança nacional: o poder militar na América Latina (Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978). O IHU acaba de publicar o Cadernos Teologia Pública nº 39, intitulado Conferência Episcopal de Medellín: 40 anos depois, com a conferência que ele proferiu no evento.

Destaco três trechos da entrevista:


IHU On-Line – Como o senhor veio para o Brasil?
José Comblin – Eu vim a pedido do Papa Pio XII, que tinha um temor tremendo do comunismo. Ele fez um apelo, na década de 1950, a todos os episcopados do mundo para mandar sacerdotes à América Latina com o intuito de salvar o continente do comunismo, porque estava convencido de que este ia invadir toda a América Latina. Aí, então, todas as dioceses foram avisadas pelos seus respectivos bispos de que o Papa tinha pedido isso. O meu bispo deu a entender que não gostava muito da idéia, mas, já que era um pedido do Papa, se houvesse algum candidato ele iria examinar. Aí me apresentei porque já estava cansado de ficar lá (na Bélgica) e procurava uma oportunidade para sair do país. Quase todos que saíram de lá para lutar contra o comunismo viraram comunistas (risos). Porque, chegando aqui, logo se viu que quem tinha preocupação social era visto como comunista. Então, foi isso. Havia muitos “comunistas” e por isso havia a impressão de que o país iria se transformar. Agora, comunista mesmo, do partido...

Trabalhei por quatro anos em Campinas e um dia estava trabalhando com os operários de lá e perguntei se havia comunismo no país e eles me responderam que sim. Então, eu disse que ainda não tinha visto e me falaram: “Sim, tem muitos comunistas em Campinas, mas a metade é da polícia que está infiltrada”. Era, de fato, um número insignificante diante do temor do Papa. Getúlio Vargas tinha acabado com o comunismo.

Antes de vir, sabia que precisava vir para a América Latina e que era necessário escolher entre a língua espanhola e o português. Escolhi o português, mas é claro que eu não sabia nada do Brasil. Ninguém, aliás, conhecia o país. Então, com dois colegas, respondemos ao pedido do arcebispo de Campinas. Ele queria três sacerdotes que fossem doutores, mas nunca explicou o motivo e para quê. Ficamos lá quatro anos e ele nunca disse o que queria. Depois de quatro anos, eu falei: “Eu tenho a impressão de estar sobrando; o senhor permite que a gente vá buscar outros desafios?”. E ele nos respondeu: “Ah! Pois não, pois não”. Eu só soube a explicação 30 anos depois. O bispo não estava satisfeito com o reitor da Universidade Católica [atual PUC-Campinas]. O reitor administrava a universidade como um negócio e não tinha lá nenhuma pessoa para substituí-lo e aí foi pedir lá fora. O reitor logo entendeu e criou todo um movimento de resistência e queria defender sua posição. Então, o bispo viu que o reitor tinha uma força social muito grande e, depois de quatro anos, ele nos liberou e cada um foi procurar outro trabalho.

IHU On-Line – Como o senhor analisa hoje a presença da Igreja em sua vida e a sua presença na evolução da Igreja Católica?
José Comblin – Parte dessa resposta você precisa perguntar aos outros o que eles acham. Para mim, foi muito interessante. Eu aproveitei muito. Eu pude conviver com Dom Hélder por muitos anos, assim como com Dom Leônidas Proaño, no Equador, com Manuel Larraín, no Chile... Com todos os grandes da Igreja latino-americana. Conheci os grandes bispos de Medellín pessoalmente, colaborando muito, porque andei muito pela América Latina. Depois veio um novo pontificado e aí a coisa mudou. Mas, como eu digo sempre, uma geração como aquela que fez Medellín só acontece uma vez na história. Quando diversos países se encontram com a mesma perspectiva, é milagroso! É muito difícil se imaginar que isso possa se reproduzir novamente. Daqui a mil anos, talvez. Foi uma situação privilegiada para mim.

IHU On-Line – Como o senhor analisa o trabalho teológico atual?
José Comblin – Faltou outra geração da Teologia. Agora todos têm mais de 70 anos e depois disso um ou outro se destacou. Coincide com o fato de que todos os seminaristas que estudam fora vão para Roma. Precisamos de uma nova geração que não queira estudar em Roma, mas até agora isso ainda não aconteceu. No Terceiro Mundo, apareceram, depois da crise sacerdotal posterior ao Concílio, seminaristas com um nível intelectual muito fraco. Na medida em que o nível intelectual é fraco, eles são mais autoritários e se agarram no direito canônico. Mas, hoje, os evangelizadores são os movimentos, pois João Paulo II sempre desconfiou dos religiosos. No entanto, esses movimentos são burgueses. De qualquer modo, o mundo sempre muda...No entanto, se hoje a Igreja não se move é porque a sociedade não se move. O que acontece na América Latina são sinais positivos, porque a influência que os Estados Unidos têm sobre ela não conseguiu derrubar Chávez e Correa. Vamos ver o que acontece na Bolívia! Agora, depende do Lula, porque se grandes países aceitam a divisão da Bolívia isso se dará tranqüilamente, mas, se o Brasil e Argentina se opõem, o projeto de divisão não andará. De qualquer maneira, só a eleição de um índio mostra que a sociedade latino-americana também está mudando.

Leia a entrevista completa em Notícias do Dia - IHU On-Line: 18/06/2008.

Veja as publicações de Comblin.


Observo ainda que, nestes dias, pequena publicação de um bispo brasileiro de 90 anos de idade, Dom Clemente Isnard, está causando significativa polêmica. E quem recomendou a publicação foi José Comblin.


Leia:
D. Clemente Isnard lança livro e desafia leis da Igreja
Dom Clemente ISNARD Reflexões de um Bispo sobre as instituições eclesiásticas atuais. São Paulo: Olho dÁgua, 2008, 40 p. - ISBN 9788576420163
'Não nos comportemos como fariseus'. Entrevista com D. Clemente Isnard
Carta de Dom Clemente Isnard sobre a publicação do seu livro

3 comentários:

Anônimo disse...

Adquiri o livro de Dom Clemente Isnard.
Achei interessante suas idéias e acho que vale a pena serem discutidas e refletidas com calma.

Se há algo certamente condenável é dificultar ou proibir um sacerdote desta idade, com todo esse tempo de dedicação a instituição católica de expressar suas idéias de como ajudar a igreja ou fazê-la melhor. Ningém é obrigado a concordar ou instituir essas idéias, mas pelo menos a humildade de ouví-las e refletir sobre as mesmas deveria ser encorajada.

Como já havia dito em outro comentário, acredito que se não fosse o celibato seria padre.

Um abraço e obrigado novamente.

Fábio Abilio

Geraldo disse...

Li toda a entrevista desse homem... Não falou o nome de Deus, Jesus ou Maria uma única vez! Alias religião é um assunto ausente na entrevista. Ali só se tratou de política!

Vejo que passou a vida usando a Igreja para fazer militancia. Muitas almas podem ter se perdido por falta do sacerdote que ele não quiz ser.

Agora terá que enfrentar julgamento de Nosso Senhor... Acabou o mundo da "luta de classes". Hora de prestar contas... Que Deus tenha piedade de sua pobre alma!

Geraldo Andrade

informadordeopiniao disse...

Muito bom que ele honrou o Mandamento e preservou o Sagrado do seu uso em vão, como diversos fascistas o o fazem para constranger os outros e inverter a lógica do evangelho, pregando uma religiosidade déspota e obscurantista, transformando-a num discurso de manipulação e escravização das pessoas. Em nome de uma antropologia dicotomista que não só afronta todo o corpo científico, como está muito mais para o gnosticismo do que o cristianismo (assim como praticamente toda a teologia do cativeiro).

Nossas homenagens a Comblin!!!!!!!

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