quarta-feira, 7 de maio de 2008

Profissão Teólogo: Entrevista com Márcio Fabri

A diferença entre pastor e teólogo. Uma reflexão sobre a profissionalização do teólogo. Entrevista especial com Márcio Fabri dos Anjos
“A confusão entre os papéis do teólogo e do pastor me parece inadequada, em especial por estas funções exigirem habilitações bem diferenciadas.” Esta é a opinião do teólogo Márcio Fabri dos Anjos. Em entrevista concedida à IHU On-Line, por e-mail, o professor falou sobre a presença da Teologia na sociedade contemporânea, sobre a possibilidade de reconhecimento dos cursos de Teologia por parte do MEC e das propostas de profissionalização do teólogo e as características sociais da proposta. Para ele, “as perguntas éticas da humanidade devam ser sempre assumidas pela Teologia”.

Márcio Fabri dos Anjos é Doutor em Teologia pela Pontifícia Universidade Gregoriana, Roma, Itália (1975). Ex-presidente da SOTER - Sociedade de Teologia e Ciências da Religião (1991-1998); fundador e ex-presidente da SBTM - Sociedade Brasileira de Teologia Moral (1980-86). Diretor do Instituto Alfonsianum de Ética Teológica. É pesquisador e docente do Centro Universitário São Camilo, São Paulo; professor orientador de doutorado da Accademia Alfonsiana, da Pontificia Università Lateranense, Roma, Itália; professor de teologia moral no ISPES - Instituto São Paulo de Estudos Superiores e na Pontifícia Faculdade de Teologia N. S. da Assunção (São Paulo); assessor da CRB - Conferência Nacional dos Religiosos do Brasil; membro da diretoria da SBB - Sociedade Brasileira de Bioética; membro da Câmara técnica de Bioética do CREMESP - Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo. Tem desenvolvido estudos principalmente na área de bioética e religião, com ênfase em conceitos fundamentais como vulnerabilidade, autonomia, dignidade humana e argumentação ética.

Destaco na entrevista quatro trechos:

IHU On-Line – Para o senhor, qual é o papel da Teologia na sociedade contemporânea?
Márcio Fabri dos Anjos – (...) A Teologia ganha particular relevância quando se percebe a estreita relação entre fé e processos históricos, fé e transformações culturais. Isto ficou claro com a Teologia do Político na Europa e a Teologia da Libertação na América Latina; e não menos claro nas contribuições da Teologia em grandes temas da atualidade como os fundamentalismos, questões de ética social, de ecologia e bioética. A Teologia é capaz de apontar razões para além da simples razão instrumental dominante em nosso momento cultural, o que me parece fundamental.

IHU On-Line – Como as mudanças propostas pelo MEC e pelo Congresso Nacional afetam a Teologia praticada e ensinada hoje?
Márcio Fabri dos Anjos – Há dois assuntos diferentes nesta questão. A possibilidade de reconhecimento civil da Teologia, monitorado pelo MEC, foi a meu ver um importante avanço para colocar a Teologia como forma de conhecimento em sociedade. Além disso, ao monitorá-la pelo viés da cientificidade, provoca uma gradativa abertura do pensar teológico para além das fronteiras confessionais em que ela se dá. Assim, o reconhecimento civil da Teologia é um processo que ainda não acabou; supõe outros passos, alguns bem complexos, mas todos necessários. Quanto ao que tramita no Congresso Nacional, refere-se a projetos sobre a profissionalização do “teólogo/a”. Envolve questões como as características sociais deste profissional, exigências sobre sua habilitação e seus direitos. Há que se perguntar também que interesses estão subjacentes a estes projetos. Em 1994, coordenei um estudo publicado dois anos depois com o título “Teologia: profissão”. Mas na época o interesse básico era o reconhecimento civil que veio alguns anos depois.

IHU On-Line – Os proponentes dos projetos em tramitação no Congresso Nacional estariam fazendo prevalecer suas trajetórias de pastores com prejuízo para a exigência de formação acadêmica superior em Teologia?
Márcio Fabri dos Anjos – Os dois projetos têm diferenças, mas em ambos é preciso olhar a questão da profissionalização com uma metódica suspeita, como observou o professor Ricardo Willy Rieth. Aparece ali uma convergência para um cadastramento dos profissionais da área, permitindo a suspeita de interesses econômicos subjacentes. Isto se soma a um alargamento do profissional “teólogo” para incluir também quem exerce funções de “pastor/a” e alargar assim o grupo de associados. Mesmo que não se verifique tal suspeita, a confusão entre os papéis do teólogo e do pastor me parece inadequada, em especial por estas funções exigirem habilitações bem diferenciadas. Se as comunidades confessionais exigem ou não uma formação e atualização teológica de seus pastores/as, esta é uma questão interna à comunidade. Em sociedade, a habilitação do teólogo/a está sendo monitorada e reconhecida através de exigências acadêmicas, que devem ser melhoradas, mas que já estabelecem passos em vista do serviço da Teologia em sociedade.

IHU On-Line – Pensar a Teologia como profissão pode vir a ser um desacato à experiência religiosa pressuposta no fazer teológico?
Márcio Fabri dos Anjos – A Teologia da Libertação ressaltou a estreita relação que existe entre teoria e prática. O modo de gerar conhecimento hoje também privilegia a aproximação com a experiência e a particularidade. A profissionalização da Teologia pode ser então um desacato à experiência religiosa, e também ao método teológico, na medida em que dela se distanciar, tornando-se como que uma burocracia teórica, ou uma teologia de gabinete. Por outro lado a profissionalização coloca uma pergunta interessante sobre a aplicabilidade da Teologia. Os grupos religiosos em geral vinham destinando o estudo teológico para a formação de seus líderes religiosos, padres e pastores. O termo “leigo” chegou a entrar no vocabulário como sinônimo de “estar por fora”. Em países como a Alemanha, o estudo da Teologia tem, de longa data, outros endereços. No Brasil, esta destinação do estudo teológico está mudando, e traz perguntas sobre sua programação curricular. Acredito que o momento atual seja muito imaturo para a profissionalização da Teologia, mas julgo necessário trazer para os currículos as perguntas sobre a destinação do estudo teológico.

Leia a entrevista completa.

Fonte: Notícias do Dia - IHU On-Line: 07/05/2008

Leia Mais:
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Um comentário:

Anônimo disse...

É duro ser teólogo neste país. Os teólogos não tem reconhecimento civil e pior, nem mesmo de muitas comunidades cristãs. Tenho visto em muitas Igrejas pessoas que são formadas em outra área, ou, sem nenhuma formação,lecionando ou ensinando Bíblia em Igrejas. Muitas dessas pessoas não sabem nada sobre teologia ou mesmo sobre a própria Bíblia, mas mesmos assim, ficam ensinando nas igrejas - não me espanta o numero de ensinamentos estranhos que tem surgido na Igreja evangélica brasileira, pro exemplo, nesses últimos 30 anos.
Estas pessoas, muitas vz bem intencionadas,acham que basta um livro de teologia sistemática e um comentário bíblico qualquer, e pronto; não precisam de mais nada. É assim que muitos pensam.
Por outro lado, na sociedade Civil, muitas pessoas nunca ouviram falar de teologia. Alguns, de forma irônica,inclusive cristãos ignorantes, usam piadinhas afim de ridicularizar os teólogos como se estes fossem insignificantes. É triste, mas já testemunhei tudo isso.
É duro. Não temos nenhuma perspectiva de vida/salarial, não temos nenhum prestígio ou respeito. É por isso que muitos teólogos tem migrado para outras áreas - filosofia, sociologia, antropologia, história ou psicologia.Muitos fazem isso para sobreviver.
E nisto, em minha opinião, quem perde são todos, tanto a sociedade civil quanto a Igreja.
A sociedade Civil perde porque a teologia é conhecimento "univérsico",isto é, não fica preso apenas aos interesses internos e pequenos do mundo eclesial. A teologia tem essa capacidade de abordar todas as esferas por meio de uma construção teológica a serviço da vida. Por outro lado, as igrejas saem perdendo porque são os teólogos quem pesquisam. Hoje, se os cristãos, por exemplo, podem ter acesso a um bom livro de Teologia Sistemática, ou mesmo um bom livro de História do Cristianismo, ou, de um bom comentário Bíblico, ou ainda, acesso a uma Bíblia comentada, ou, acesso a livros devocionais ou dicionários bíblicos e teológicos, enfim, a um material teológico para auxiliar seus estudos da Bíblia, isso se deve a todos esses teólogos que se dedicaram a pesquisa. Muitos desses teólogos não ganharam quase nada em termos financeiro com estas pesquisas. Muito trabalharam, pesquisaram por amor ao conhecimento e pesquisa. Agora,não poucas as vezes, vejo alguns cristãos estúpidos e ignorantes falando mal dos teólogos. Francamente! É por isso que o Cristianismo evangélico brasileiro é uma vergonha. Isto é o reflexo da ausência de bons teólogos.Aprendam de uma vez por todas- os teólogos não são contra Deus ou contra a Igreja. Os teólogos são pesquisadores a serviço do reino e principalmente do Ser humano.
Em minha opinião, nem todo teólogo/a precisa ser um pastor ou padre, mas todo pastor ou padre precisa ser um teólogo. Se um médico ou qualquer outro profissional se preparam para a prática do seu ofício, então, todo aquele que deseja o episcopado tem que se preparar também. Por isso digo: todo pastor ou padre precisam estudar teologia - isso deveria ser obrigado por lei.Em minha opinião isso é apenas o básico. É lamentável quando vejo pastores desprezando a teologia - é por isso que muitos cristãos evangélicos vivem na ignorância seguindo todo tipo de ensinamento esquisito sendo motivo de piada na sociedade.
Sonho com dias melhores para nós teólogos e cristãos brasileiros.

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