terça-feira, 31 de julho de 2007

A dor daqueles que doem toda a vida

O senhor sabe: tanta pobreza geral, gente no duro ou no desânimo. Pobre tem de ter um triste amor à honestidade. São árvores que pegam poeira - Guimarães Rosa, Grande Sertão: Veredas.

O teatro do horror
"A aviação comercial brasileira ganhará investimentos vultosos nos próximos anos. Não por ser esta uma questão de justiça, mas porque os reclamantes são poderosos. Se fosse pela justiça, o governo deixaria de se preocupar com aqueles que dormem nos corredores dos aeroportos por algumas noites, aquele povo bem servido que tem sofrido nas filas de chek-in, e trataria de multiplicar seus programas aos famintos da nação. Procuraria diminuir a dor daqueles que doem toda vida. Buscaria aquecer o frio daqueles que tremem em todo inverno. Daria abrigo àqueles que dormem mal toda noite. É provável que muitos discordem, ou que me odeiem por dizer isso. Provavelmente já passaram horas no saguão de Congonhas, tendo somente as mochilas como travesseiros. Mas será que já experimentaram as carências extremas? (...) Perdoe-me, leitor, o povo merece, sim, voar com dignidade para visitar os parentes na Europa e fazer compras em Miami. Sim, ninguém deveria enfrentar aquelas filas horríveis. Mas, por favor, não me diga que essa é uma questão de justiça. O que temos aqui é uma questão de poder. O apagão aéreo (...) tornou-se notícia permanente porque mexeu com gente graúda (...) Obviamente, nem todos os que voam são graúdos, mas parece que todos os graúdos voam", escreve Chico Guil em Carta Maior - 30/07/2007. Leia o texto completo.

>> Este é o post de número 1000 do Observatório Bíblico.

Resenhas na RBL - 30.07.2007

As seguintes resenhas foram recentemente publicadas pela Review of Biblical Literature:

Octavian D. Baban
On the Road Encounters in Luke-Acts: Hellenistic Mimesis and Luke's Theology of the Way
Reviewed by Thomas L. Brodie

Stephen Barton, ed.
The Cambridge Companion to the Gospels
Reviewed by Paul Foster

Dianne Bergant
Israel's Story: Part One
Reviewed by Sven Petry

John A. Bertone
The Law of the Spirit: Experience of the Spirit and Displacement of the Law in Romans 8:1-16
Reviewed by Volker Rabens

Thomas L. Brodie, Dennis MacDonald, and Stanley E. Porter, eds.
The Intertextuality of the Epistles: Explorations of Theory and Practice
Reviewed by Korinna Zamfir

Trevor J. Burke and J. Keith Elliott, eds.
Paul and the Corinthians: Studies on a Community in Conflict. Essays in Honour of Margaret Thrall
Reviewed by Joubert Stephan

Jacques Cazeaux
Le partage de minuit: Essai sur la Genèse
Reviewed by Hugh S. Pyper

Dorothea Erbele-Küster and Detlef Dieckmann, eds.
"Du hast mich aus meiner Mutter Leib gezogen": Beiträge zur Geburt im Alten Testament
Reviewed by Silvia Schroer

Dennis Hamm
The Acts of the Apostles
Reviewed by Steve Walton

James L. Kugel, ed.
Prayers That Cite Scripture
Reviewed by Marvin A. Sweeney

James Limburg
Encountering Ecclesiastes: A Book for Our Time
Reviewed by David Brian Warner

Mark Munn
The Mother of the Gods, Athens, and the Tyranny of Asia: A Study of Sovereignty in Ancient Religion
Reviewed by Gerhard van den Heever

Mikeal Parsons
Luke: Storyteller, Interpreter, Evangelist
Reviewed by Robert C. Tannehill

Susanne Rudnig-Zelt
Hoseastudien: Redaktionskritische Untersuchungen zur Genese des Hoseabuches
Reviewed by Eberhard Bons

Wolfgang Schrage
Vorsehung Gottes? Zur Rede von der providentia Dei in der Antike und im Neuen Testament
Reviewed by Michael Labahn

Mikael Sjöberg
Wrestling with Textual Violence: The Jephthah Narrative in Antiquity and Modernity
Reviewed by Rüdiger Bartelmus

Simpósio da ABIB sobre Bíblia e Ciências Humanas

ABIB: Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica - Regional São Paulo

I Simpósio Regional Bíblia e Ciências Humanas

Data: 25 de agosto de 2007
Local: Seminário Teológico da Igreja Presbiteriana Independente
Rua Genebra, 180 – Bela Vista – São Paulo
(próximo à Câmara Municipal e às estações Anhangabaú e Sé do Metrô)

:: Apresentação
A Associação Brasileira de Pesquisa Bíblica – ABIB, recentemente instituída, tem o objetivo de congregar pesquisadores e pesquisadoras em Bíblia nos mais diversos campos e ambientes, com vistas a favorecer a identidade acadêmica. Para tanto, vem realizando congressos em âmbito nacional – o próximo deverá ocorrer em 2008 – e também eventos de alcance regional.

:: Simpósio Regional São Paulo
Em 25 de agosto de 2007, será realizado o I Simpósio Regional São Paulo, com o tema Bíblia e Ciências Humanas, que espera reunir biblistas do Estado, seja para acompanhar a programação e interferir no debate, seja para contribuir com a apresentação de uma comunicação acadêmica.

:: Programação
8h Abertura
8h30 Mesa-redonda: Bíblia e Ciências Humanas
Conferencistas:
. Prof. Dr. Archibald Mulford Woodruff (UMESP, Seminário da IPI)
. Prof. Dr. André Chevitarese (UFRJ)
11h Intervalo
11h30 ABIB: apresentação e notícias
12h30 Almoço
14h Comunicações acadêmicas
16h Intervalo
16h30 Conferência: Bíblia e Ciências Humanas - Perspectivas
Conferencista:
. Prof. Dr. Milton Schwantes (UMESP, EDT)
18h Encerramento

:: Inscrições
Para efetuar a inscrição no I Simpósio Regional Bíblia e Ciências Humanas, favor preencher os dados abaixo e enviar para o endereço eletrônico abib.sp@bol.com.br. Caso haja interesse em apresentar uma comunicação, pedimos que os dados sejam enviados até dia 10/08.
A taxa de inscrição, a ser paga no momento da abertura dos trabalhos, é de:
R$ 20,00 (sócios da ABIB)
R$ 30,00 (não-sócios)

:: Ficha de Inscrição:
Nome:
Endereço:
Telefone:
E-mail:
Instituição e atividade que exerce em ligação com a Bíblia:
Título da comunicação (caso queira fazê-la):
Resumo da comunicação (10 a 15 linhas):

> No dia do evento será possível afiliar-se à ABIB, caso haja interesse.

Martini e a missa em latim

Leia no blog de Antonio Lombatti a postura crítica do Cardeal Carlo Maria Martini sobre a missa em latim.

Notícia publicada no jornal Il Sole 24 Ore, de Milão.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

Mark Goodacre e seu "personal blog"

Você já soube do Mark Goodacre's Personal Blog?

Novinho em folha, começou dia 28.

Comece lendo o post Why I am experimenting with a personal blog.

Como classificá-lo? Blog pessoal? Penso que, inventado pelo guru dos biblioblogueiros, cai melhor em cultura.

sábado, 28 de julho de 2007

Congresso Internacional da CBA 2007

Será realizado nos dias 4 a 7 de agosto de 2007 o Setuagésimo Encontro Internacional da Associação Bíblica Católica da América, a CBA: The Catholic Biblical Association of America. O local é a Universidade Santa Clara, Santa Clara, Califórnia, USA.

Veja o programa aqui e aqui.

The Seventieth International Meeting of The Catholic Biblical Association of America will be held August 4-7, 2007 at Santa Clara University, Santa Clara, CA.

quinta-feira, 26 de julho de 2007

Religião e formação de classes... - Bibliografia

Leia:
>> Introdução
>> Capítulo 1: Solidariedade e formação de classes à luz da etnologia
>> Capítulo 2: O sistema judaico de parentesco
>> Capítulo 3: Condições da economia na região montanhosa da Judéia no tempo do domínio persa
>> Capítulo 4: Crise agrária, revolta dos camponeses e reforma de Neemias
>> Capítulo 5: Arrendamento estatal grego e luta dos Macabeus pela liberdade
>> Capítulo 6: Apresentação de sociedades asiáticas em etnografia helenística
>> Capítulo 7: A evolução de um domínio sem tradições na Judéia e a revolta crescente contra ele
>> Capítulo 8: Estabelecimento da antiga relação de classes na Judéia
>> Capítulo 9: Oposição da religião à política


Bibliografia
> A bibliografia, quando possível, foi atualizada e traduções para o português, quando encontradas, foram preferidas nas citações. O ISBN - International Standard Book Number ou Número Padrão Internacional de Livro - sendo encontrado, será citado, pois facilita a busca pelo livro. Nesta bibliografia, com duas exceções, são citados apenas autores mencionados no resumo. No livro a bibliografia ocupa as páginas 167-173.

BACHOFEN, J. J. Der Mythus von Orient und Occident: eine Metaphysik der alten Welt. München: Beck, 1956.

CAUSSE, A. Du groupe ethnique à la communauté religieuse: le problème sociologique de la religion d'Israël. Paris: Librairie Félix Alcan, 1937.

DROYSEN, J. G. Geschichte des Hellenismus. München: Deutscher Taschenbuch Verlag, 1986. ISBN 9783423059763

DURKHEIM, E. Da divisão do trabalho social. 2. ed. São Paulo: Martins Fontes, 2004. ISBN 853361022X

EDDY, S. K. The King is Dead: Studies in the Near Eastern Resistance to Hellenism 334-31 B.C. Lincoln: University of Nebraska Press, 1961.

FORTES, M. Kinship and the Social Order: The Legacy of Lewis Henry Morgan. London : Routledge, 2004. ISBN 9780415330091.

FRIED, M. The Evolution of Political Society: An Essay In Political Anthropology. New York: McGraw-Hill, 1967. ISBN 9780075535799.

GARCÍA MARTÍNEZ, F. Textos de Qumran: edição fiel e completa dos Documentos do Mar Morto. Petrópolis: Vozes, 1995.

GODELIER, M. Ökonomische Anthropologie: Untersuchungen z. Begriff d. sozialen Struktur primitiver Gesellschaften. Reinbek (bei Hamburg): Rowohlt, 1982. ISBN 9783499250439.

HENGEL, M. The Zealots: Investigations into the Jewish Freedom Movement in the Period from Herod I Until 70 A.D. London: T & T Clark, 2000. ISBN 9780567293725.

KREISSIG, H. Die sozialen Zusammenhänge des judäischen Krieges: Klassen und Klassenkampf im Palästina des 1. Jahrhunderts v.u. Z. Berlin: Akademie-Verlag, 1970.

LÉVI-STRAUSS, C. As estruturas elementares do parentesco. 3. ed. Petrópolis: Vozes, 2003. ISBN 8532628583.

MAUSS, M. Ensaio sobre a dádiva. Lisboa: Edições 70, 1989. ISBN 9789724402260.

MEYER, E. Die Entstehung des Judentums: eine historische Untersuchung. Hildesheim: G. Olms, 1987. ISBN 3487009951.

MORGAN, L. H. Ancient Society for Researches in the Lines of Human Progress from Savagery through Barbarism to Civilization. New Brunswick, NJ: Transaction Publishers, 2000. ISBN 9780765806918.

PATAI, R. Sitte und Sippe in Bibel und Orient. Frankfurt am Main: Ner-Tamid-Verlag, 1962.

PEREIRA DE QUEIROZ, M. I. Réforme et révolution dans les sociétés traditionnelles: histoire et ethnologie des mouvements messianiques. Paris : Éditions Anthropos, 1968.

POLANYI, K. Trade and Market in the Early Empires: Economies in History and Theory. New York: The Free Press, 1957.

SAHLINS, M. D. Sociedades tribais. 2. ed. Rio de Janeiro: Zahar, 1974.

SCHOLEM, G. Über einige Grundbegriffe des Judentums. Frankfurt am Main: Suhrkamp, 1996. ISBN 3518133179

THACKERAY, H. St. J./MARCUS, R./WIKGREN, A./FELDMAN, L. H. Josephus I-X, Cambridge: Harvard University Press, 1926-1965.

TOV, E. (ed.) The Dead Sea Scrolls Electronic Library, a CD-Rom edition. Leiden: Brill, 2006. ISBN 9789004150621.

WEBER, M. Ancient Judaism. New York: The Free Press, 1967. ISBN 9780029341308. Original: Das antike Judentum. Max Weber, Gesammelte Politische Schriften. Potsdamer Internet-Ausgabe (texto online).

________ Economia e Sociedade: Fundamentos da Sociologia Compreensiva, Vols. 1 e 2. Brasília: Editora da UnB, 2004. ISBN 852303142X e 8523003908.

quarta-feira, 25 de julho de 2007

SAFE - Saving Antiquities for Everyone

SAFE - Saving Antiquities for Everyone - é uma organização sem fins lucrativos dedicada a preservar a herança cultural mundo afora.

Our mission is to raise public awareness about the irreversible damage that results from looting, smuggling and trading illicit antiquities.

Dica de Jim Davila em PaleoJudaica.com.

terça-feira, 24 de julho de 2007

Esquizofrenia informativa de los medios opositores

En los últimos días, los medios opositores han difundido infinitas versiones sobre la causa por la cual el avión de TAM siguió de largo por la pista central de Congonhas, atravesó una avenida y se estrelló contra un depósito (...) Esa misma esquizofrenia informativa se vive con respecto a los cada vez más habituales apagones aéreos. El domingo los principales medios brasileños sostenían que los retrasos y las complicaciones que paralizaron durante horas los aeropuertos brasileños el sábado habían sido provocados por un boicot de los controladores aéreos... Leia em Página/12, diário argentino, edição de hoje, sobre a crise aérea e os meios de comunicação brasileiros.

Leia Mais:
E a imprensa arremeteu - Gilson Caroni Filho em Carta Maior: 20/07/2007
O que estava em causa na cobertura da mídia após o acidente da TAM era a construção da "crônica da tragédia anunciada". Ao incluir as vítimas fatais no seu cálculo político, mais uma vez a mídia folhetinizou um drama real, banalizando a vida.

Mídia eleva tom contra Lula. Ministro do STM sugere golpe - Marco Aurélio Weissheimer em Carta Maior: 24/07/2007
Editoriais e colunistas falam em “colapso do lulismo”, “corriola governamental” e incapacidade de governar o país. Ministro do Superior Tribunal Militar diz que “pessoas de bem vão se pronunciar como já fizeram em um passado não muito distante”.

Vôo TAM 3054 - Especial da Folha Online

Atualizando: 25.07.2007 - 10h00
Novas reflexões sobre a tragédia do Airbus - Bernardo Kucinski em Carta Maior: 24/07/2007
Confirmou-se por completo e ganhou musculatura a tese central do meu primeiro comentário, então apenas intuída, de que o desastre da TAM deu-se num contexto de maximização de lucros. A estratégia das companhias, que fez de Congonhas um centro nacional de redistribuição de passageiros (“hub”), foi explicada por Daniel Ritter no jornal Valor da sexta (20) e confirmada elo executivo da TAM José Hélcias, no Estadão desta terça (...) Ao anunciar a desativação de Congonhas como “hub”, o governo admite que, mesmo depois de instalado o caos na malha aérea, continuava aceitando criticamente o sistema deixado pelo governo anterior no qual as companhias definiam a política pública para o setor. Essa passividade estava implícita no meu primeiro comentário, mas não suficientemente enfatizada (...) Desde o primeiro momento, deu-se a exploração político-partidária da tragédia, pela mídia e pelos principais líderes tucanos, José Serra e Tasso Jereissati. Assim como desastre se dá no contexto de uma crise generalizada do tráfego aéreo, sua politização também é uma extensão natural do processo de linchamento do governo Lula que vem desde o “mensalão”. O ataque começou no momento mesmo da tragédia, quando os âncoras, sem informação suficiente para comentar as cenas espetaculares do incêndio, fixaram-se obsessivamente no problema da pista. Mesmo porque a pista foi liberada ainda sem as ranhuras previstas no projeto e o caos aéreo já durava dez meses. Mas já naquela noite, os repórteres do Estadão ficaram sabendo que o avião voava há uma semana com o reverso travado (...) Só que o Estadão preferiu desprezar esse verdadeiro furo de reportagem que poderia mudar o rumo do noticiário... Leia o texto completo.

Religião e formação de classes na antiga Judéia 9

Leia:
>> Introdução
>> Capítulo 1: Solidariedade e formação de classes à luz da etnologia
>> Capítulo 2: O sistema judaico de parentesco
>> Capítulo 3: Condições da economia na região montanhosa da Judéia no tempo do domínio persa
>> Capítulo 4: Crise agrária, revolta dos camponeses e reforma de Neemias
>> Capítulo 5: Arrendamento estatal grego e luta dos Macabeus pela liberdade
>> Capítulo 6: Apresentação de sociedades asiáticas em etnografia helenística
>> Capítulo 7: A evolução de um domínio sem tradições na Judéia e a revolta crescente contra ele
>> Capítulo 8: Estabelecimento da antiga relação de classes na Judéia


9. Oposição da religião à política

9.1. J. J. BACHOFEN louva a vitória do Ocidente sobre o Oriente nas derrotas de Cartago e Jerusalém.

Obs.: este capítulo vai analisar três metas dos judeus nas suas revoltas contra o domínio helenístico-romano:
. a dos essênios
. a da revolução de Bar Kosiba
. a da libertação dos escravos por dívida

:: Renovação da aliança com Deus
9.2. Segundo o Documento de Damasco, a comunidade essênia rompeu com a ordem social dominante nos séculos II a.C./I d.C. e se organizou internamente segundo princípios alternativos. O princípio constitutivo do grupo de Damasco não era o parentesco, mas a livre união. Importante é que o conteúdo de solidariedade do grupo de parentesco agnático se tornou independente e foi racionalizado em normas éticas, cuja validade fica assegurada através de um pacto.

9.3. A relação com os estrangeiros implica em não fazer nenhum negócio com eles: nada lhes deve ser vendido ou deles comprado. As relações comerciais se limitam à troca.

9.4. O conteúdo das relações sociais com os outros judeus, os de fora do grupo, aparece no Documento como expressão de um mundo que vive de acordo com outra lei. Sua separação dos outros e a sua condenação deles é justificada com o conceito de aliança Iahweh-Israel.

9.5. "Os conceitos religiosos do Manuscrito de Damasco têm pois seu fundamento não numa orientação para aquilo que vem, mas supõem a condição social de uma sociedade de classes e, contrastando com suas instituições impessoais e assimétricas, insistem nas relações pessoais e recíprocas" (p. 147) [Die religiösen Konzepte der Damaskusschrift beruhen daher nicht auf einer Orientierung am Überkommenen, sondern haben die gesellschaftliche Bedingung einer Klassengesellschaft zur Voraussetzung und insistieren kontrafaktisch zu deren unpersönlichen und reziproken Beziehungen].

9.6. Comparando o Documento de Damasco e Qumran (Regra da Comunidade):
. Damasco: pressupõe a propriedade privada e subordina a determinadas regras a circulação e consumo dos produtos; provavelmente se espelha nas regras de distribuição da hierocracia; é uma união de chefes de família
. Qumran: subordina não só a circulação e o consumo, mas também a produção (no campo e na oficina) às regras da comunidade; segue o modelo corporativo do clã (mishpâhâ); é uma comunidade (yhd) muito complexa na sua organização (há uma hierarquia comandada pelos sacerdotes aaronitas)
. Em Qumran as relações internas seguem o princípio do dom e da retribuição, o princípio da reciprocidade, enquanto as relações para fora se reduzem à compra e venda

9.7. O autor conclui:
. o tradicionalismo dos essênios reconstruiu as tradições
. não como leis (nómoi) político-utópicas
. mas com ênfase nos aspectos coletivos da tradição que legitimavam a formação de grupo religioso de concepção corporativa
. e motivaram a resistência à mudança social

> "O interesse dos essênios nas tradições foi determinado tendo como pano e fundo a emancipação da sociedade helenística das tradições coletivistas, e tinha como meta a conservação destas tradições como normas das relações sociais" (p. 150).

:: Restauração de Israel
9.8. G. SCHOLEM (1970) acredita que as idéias apocalípticas dos judeus são em sua essência e origem uma teoria da catástrofe. Eles querem a destruição e a superação da História. O Messias transcende assim as relações sociais e a História.

9.9. M. I. PEREIRA QUEIROZ (1968) diz que todo movimento messiânico tem três elementos:
. coletividade oprimida e descontente
. a esperança na chegada de um enviado de Deus que colocará fim ao tempo de sofrimento
. crença em paraíso que é ao mesmo tempo santo e profano

> Por que surgem estes elementos?
Quando há reciprocidade de condições sócio-econômicas e de sistemas simbólicos político-culturais, nos quais as figuras religiosas tradicionais tomam intensidade messiânica e se tornam motivação de revolta contra o regime dominante

> Por que símbolos tradicionais passam a ser revolucionários?
O exame será baseado na revolta de Bar Kosiba

9.10. O conceito de liberdade era a meta dos três grandes levantes judaicos (Macabeus em 167-142 a.C.; guerra de 66-73 d.C.; revolta de Bar Kosiba em 132-135 d.C.). Os documentos comprovam o que se entendia por liberdade: autonomia política, exercício da justiça, suspensão dos tributos, cobrança dos impostos pelos próprios judeus e cunhagem de moeda própria.

> Mas existe um conceito sicário-zelota de liberdade que é diferente deste: é também religioso: "Israel não pode reconhecer o domínio romano, pois Deus é o seu Senhor" (p. 153). Esta seria uma oposição ao culto aos césares.

9.11. Ao lado do conceito de liberdade existe o de ge'ulla (= resgate da terra) que deve ser traduzido por "reconstrução" ou "restauração". Mas quem a realiza? Iahweh é o goel na literatura bíblica... mas agora Bar Kosiba é o restaurador, segundo os documentos da revolta. "Nos documentos de Bar Kosiba, o símbolo religioso foi adaptado ao político e significa libertação do domínio estrangeiro através de revolta organizada" (p. 155).

9.12. O título de nâsî (= príncipe), aplicado a Bar Kosiba: o senhorio do nâsî se legitima pela obediência às tradições. "O senhor não está acima da lei, e nem como pessoa inteligente é fonte de justiça, mas ele se legitima justamente pela harmonia de suas ordens com as tradições" (p. 156).

> "Também a aceitação do título de nâsî deve-se à dialética das condições político-sociais e aos modelos explicativos da tradição, em cujos processos o título de senhor transmitido tornou-se símbolo do senhorio orientado pela tradição, e expressava a consciência da contradição existente com a estrutura de poder do helenismo" (p. 157).

:: Grito de libertação
9.13. Outro importante conceito é o da proclamação do ano de libertação (Dt 15,2 etc.). O Código de Hammurabi: relação entre anduraru e derôr (= libertação)...

> "A importância de derôr não pode, através de construções literárias artificiais, ser desviada do seu sentido coletivo social. Do mesmo modo como observamos no conceito de ge'ulla, também este conceito serviu para criar regras de solidariedade segmentária e exigências normativas, e com isso dar definição prática ao acontecimento do tempo de salvação. Norma segmentária, e não consolo de culto, torna-se paradigma do tempo de salvação" (p. 163).

:: Resumo
9.14. "O problema principal da história da religião é a relação entre a idéia religiosa e a ação social" (p. 165).

. Os três elementos discutidos se devem à resistência contra relações sociais:
> os essênios: têm "como meta realizar relações de fraternidade, reciprocidade e solidariedade. Assim, a nova sociedade nasce contra a sociedade de classes helenístico-romana (...) Os essênios retomam como motivação desta sociedade a idéia de aliança divina com o grupo de parentesco israelita" (p. 165).

> a revolução de Bar Kosiba: usa a geu'lla como conceito de mudança revolucionária. "A reconstrução de Israel tem em mira uma reviravolta que renova a união pessoal, assegura a solidariedade dos irmãos e realiza uma ordem econômica coletiva" (p. 166).

> a instituição da libertação dos escravos por dívida: "Tornou-se paradigma do tempo de salvação, no qual as relações atuais são medidas e julgadas" (p. 166).

9.15. A observação de M. WEBER (1920) sobre o judaísmo antigo: o sofrimento de um povo e não de indivíduos tornou-se o objeto de esperanças de salvação religiosa. Foi a tradição religiosa que serviu como elemento crítico face às situações novas criadas pela helenização, fazendo da salvação o direito dos oprimidos.

9.16. O cristianismo primitivo:
. supõe, como Qumran, a crise da organização israelita tradicional da solidariedade, abalada pela entrada da propriedade privada e pela apropriação do excedente
. mas, diferente de Qumran, o cristianismo primitivo não se segregou num resto fiel e nem partiu para uma revolução política
. o cristianismo "transferiu para mais tarde a crise da lealdade ao parentesco" (p. 166), diz o autor citando Mt 19,29. "O cristianismo primitivo contradisse ao mesmo tempo conteúdos essenciais da tradição judaica e fez da decisão subjetiva a base da ação" (p. 166).

Religião e formação de classes na antiga Judéia 8

Leia:
>> Introdução
>> Capítulo 1: Solidariedade e formação de classes à luz da etnologia
>> Capítulo 2: O sistema judaico de parentesco
>> Capítulo 3: Condições da economia na região montanhosa da Judéia no tempo do domínio persa
>> Capítulo 4: Crise agrária, revolta dos camponeses e reforma de Neemias
>> Capítulo 5: Arrendamento estatal grego e luta dos Macabeus pela liberdade
>> Capítulo 6: Apresentação de sociedades asiáticas em etnografia helenística
>> Capítulo 7: A evolução de um domínio sem tradições na Judéia e a revolta crescente contra ele


8. Estabelecimento da antiga relação de classes na Judéia

8.1. A conclusão a que se chegou até aqui é a de que sob o controle romano a base do domínio não era mais a tradição, mas o direito abstrato. Como aprofundar esta conclusão? Pesquisando a alteração das instituições sociais nesta época romana. Documentos: documentos de Murabba'at (encontrados no deserto de Judá e que foram levados para lá pelos partidários da revolta de Bar Kosiba entre 132-135 d.C.), NT e tradição tanaíta (os Tannaim são os rabinos que escreveram a Mishnah no séc. II d.C.).

:: Da fiança ao arremate da propriedade
8.2. O direito de hipoteca se baseava na regra da penhora (= ‘ârab): o devedor insolvente tem que trabalhar para seu credor (= escravidão por dívida - 6 anos) ou entregar seus bens para pagar a dívida: isto funcionava no tempo de Neemias. Qumran ainda conhece este direito: 1Q22 III 4-6; 11QMelquisedec e 4QOrdb 513.

8.3. A literatura rabínica (Mishna Shebî`it 10) e o NT (Mt 5,25-26/Lc 12,58) mostram outra norma: não é mais o credor, mas é o juiz que é considerado o responsável em cobrar a dívida contra o devedor. Se o devedor não pode pagar, fica preso até que algum familiar o faça.

8.4. Há também o caso, documentado na literatura rabínica, do prozbol: caso houvesse execução da dívida, as terras do devedor passavam definitivamente para a posse do credor (e não por um tempo determinado como era antigamente a lei israelita). Esta regra está documentada em Murabba'at. "Esta concessão pertence à tradição jurídica greco-romana [prosbolê, em grego] e representa novidade no direito judaico de penhora, novidade esta que possibilitava contratos de dívida entre judeus e estrangeiros" (p. 130). Também o ano de perdão caiu, segundo Mur 18. E os juros aparecem também em Lc 16,6-7 (ver nota a da Bíblia de Jerusalém (2002) a Lc 16,8). E o caso da casamento onde a ketubbâ substituiu o mohar (= dote).

:: As conseqüências da insolvência
8.5. Prisão por dívida fiscal já era conhecida antes da era helenística (Esd 7,26), mas agora há prisão por dívida particular como testemunha a parábola do servo cruel (Mt 18,23-25). O Estado agora protegia os contratos particulares, porque o credor não era mais o pequeno camponês vizinho (e parente, dentro do clã), mas o daneistês, o profissional de empréstimos ou o administrador de grandes propriedades. Antigamente, o vizinho credor aceitava como pagamento o trabalho do devedor (= escravidão por dívida); agora, não se aceita mais o trabalho, porque a mão-de-obra era abundante [conseqüência do tipo de cultivo e da tomada da terra pelos grandes investidores] e o credor queria era dinheiro ou terras

8.6. A conclusão é que há duas diferenças entre o pré-exílio e a época romana:
. o empréstimo antes do exílio era assegurado pela mão-de-obra (= escravidão por dívida); no pós-exílio (época persa/grega), o empréstimo era garantido pelo terreno e pela mão-de-obra; agora (época romana) o empréstimo é garantido pelo fator de produção terra e dinheiro, porque este é o interesse dos credores

. não se emprestavam somente víveres para plantação e consumo (como no pré-exílio), mas emprestava-se dinheiro. E o credor podia declarar a terra do devedor insolvente como sua propriedade particular, para compensar o empréstimo.

. "Os dois momentos apontam para uma sociedade na qual terra e trabalho tornaram-se meios abstratos da produção de valores, e na qual também o empréstimo servirá a este fim" (p. 133) [Beide Momente verweisen auf eine Gesellschaft, in der Land und Arbeit zum abstrakten Mittel der Produktion von Werten geworden waren und in der auch das Darlehen diesem Zweck diente]

:: Do patrimônio à propriedade particular
8.7. Os contratos de venda encontrados entre os documentos de Murabba'at e os evangelhos (Mt 13,44;Lc 14,18) mostram que a limitação da venda da terra pela prerrogativa agnática não vale mais. Acaba-se também o direito de herança agnática.

:: Relações de produção
8.8. Nesta época na Palestina havia: o pequeno agricultor [Kleinbauerntum], o arrendatário (colono) [Pachtverhältnis - Kolonat] e a oikos (trabalhada por escravos ou operários) [Sklaverei und Lohnarbeit basierenden Oikos]. Na literatura rabínica há três formas de arrendamento:
. o sôker, que arrenda a terra por uma quantia de dinheiro
. o hôker, que arrenda a terra por uma quantidade de mantimentos
. o 'arîs, que é arrendador parcial.

8.9. O arrendamento parcial...

8.10. A oikos...

8.11. O arrendamento por uma quantia de dinheiro ou mantimentos...

8.12. Bar Kosiba arrendou as terras (que ele confiscou de Roma)...

8.13. O que se nota, nesta época, é a decadência do pequeno agricultor, porque o sistema de arrendamento tomou conta. Como as famílias não conseguiam pagar a parte da colheita devida ao Estado, suas terras eram desapropriadas. A economia familiar tradicional era imprópria para a produção de excedentes lucrativos para os novos senhores e a nova ordem econômica. "É na racionalidade deste economia que se funda a razão de os grupos familiares não terem mais grande importância no tempo dos romanos" (p. 141) [In dieser ökonomischen Rationalität ist es begründet, daß die Familienbetriebe in der römischen Zeit keine allzu große Bedeuteng mehr hatten].

:: Nova racionalidade econômica nas parábolas evangélicas
8.14. As parábolas usam, como símbolos, elementos da ordem social da Galiléia: Mc 12,1-11; Mt 20,1-15; Mt 25,14-28; Lc 12,57-59. A colheita era tempo de alegria no AT: agora em o NT não o é mais: Mt 25,24; Jo 4,37; Mt 13,30; Jo, 4,36.

. "A relação trabalho/produto cedeu à mediação que simboliza a situação escatológica: a relação do homem com suas necessidades é transmitida através do poder" (p. 142).

. "A interpretação da relação de Deus como não recíproca, recorre ao tipo de senhorio prebendal de terras" (p. 142). Isto é uma conseqüência teológica (indireta) das relações sociais...

8.15. As fontes histórico-sociais da época romana testemunham:
. a submissão dos agricultores livres ao sistema de apropriação do excedente
. a perda da força das instituições antigas, que protegiam a sociedade judaica da formação de classes
. que o novo proprietário da terra hipotecada pode dispor livremente dela e que os parentes agnatos perdem seus direitos de herança, enquanto o devedor insolvente vai para a cadeia
. o progresso social realizou-se contra as antigas tradições da solidariedade [Die Ausrichtung der Ökonomie auf Rentabilität war möglich nur als Widerspruch zu den egalitären religiösen Traditionen - p. 155 da edição de 1978]. O complexo tradicional rural-sacerdotal, sancionado por Neemias, como resistência à formação de classes, perdeu definitivamente sua força.

segunda-feira, 23 de julho de 2007

Golpistas!

Plano dos EUA antecipou ação dos militares
Na série de documentos sobre o envolvimento dos EUA no golpe militar de 1964 no Brasil, que o governo norte-americano vem liberando nos últimos tempos [sublinhado meu] e transformando em arquivo eletrônico em respeito a uma lei de liberdade de informação, há um plano que mereceu apenas citação e só pode ser consultado fisicamente, depois de um processo trabalhoso. Chama-se "A Contingency Plan for Brazil" (um plano de contingência para o Brasil). É de 11 de dezembro de 1963 e foi escrito por Lincoln Gordon, então embaixador dos EUA no país, e Benjamin H. Head (1905-1993), então secretário-executivo do Departamento de Estado. Nele, diplomatas elencam desfechos possíveis para a crise institucional e política do Brasil e sugerem possíveis ações do governo americano. Uma delas chama a atenção por ser quase uma proposta de ação para os militares revoltosos... Leia o texto completo de Sérgio Dávila na Folha Online de 15/07/2007 - 12h19.

Veja também:
Leia a íntegra do documento "Um plano de contingência para o Brasil" - Folha Online: 14/07/2007 - 17h30

UFMG: The Bible and its Translations

I Colóquio Internacional "A Bíblia e suas Traduções"

1st International Colloquium “The Bible and its Translations”

Data: 22 a 24 de agosto de 2007

Local: Faculdade de Letras, UFMG, Belo Horizonte, Minas Gerais, Brasil

Organizadores: Prof. Dr. Carlos Alberto Gonh (FALE/UFMG) e Profa. Dra. Lyslei Nascimento (FALE/UFMG)

Tema: A ‘tradução’ da Bíblia a partir da perspectiva de Roman Jakobson, ou seja, da interpretação dos signos verbais de uma determinada língua por meio de outra: a tradução interlingual; a reformulação ou interpretação dos signos verbais por outros signos da mesma língua: a tradução semiótica; a interpretação dos signos verbais por meio de sistemas não-verbais, como o cinema, a pintura ou a música: a tradução intersemiótica; e, na perspectiva de Walter Benjamin, “a tradução para exprimir a relação mais íntima e invisível entre as línguas”; ou, ainda, a tradução como jogo intertextual da diferença, como queria Paul Valery, Jorge Luis Borges e Haroldo de Campos

Público-alvo: Professores, pesquisadores e alunos de pós-graduação e graduação.

Participações confirmadas: Joel Robertson (EUA); Steven Eagren (Canadá); Aléxia Duchowny (Brasil); Berta Walman (Brasil); Carlos Gohn (Brasil); Daisy Wajnberg (Brasil); Elcio Cornelsen (Brasil); Enrique Mandelbaum (Brasil); Jacynto Lins Brandão (Brasil); Julio Jeha (Brasil); Luiz Nazario (Brasil); Lyslei Nascimento (Brasil); Mariângela Paraizo (Brasil); Nancy Rozenchan (Brasil); Renato Pucci (Brasil); Suzana Chwartz (Brasil); Thereza Virgínia (Brasil)

Patrocínio: FALE (Faculdade de Letras da UFMG) - PAIE (Programa de Apoio a Eventos da UFMG) / CENEX (Centro de Extensão da FALE/UFMG) / POSLIT (Programa de Pós-Graduação em Letras: Estudos Literários da FALE/UFMG)

Promoção: Núcleo de Estudos Judaicos da UFMG

Período de inscrição: 15/07 a 10/08

Informações e Inscrições: Núcleo de Estudos Judaicos da UFMG ou Lyslei Nascimento.


1st International Colloquium “The Bible and its Translations”

Date: 22-24 August, 2007

Venue: Faculdade de Letras – Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, Pampulha Campus

Coordinators: Prof. Carlos Alberto Gonh e Profa. Lyslei Nascimento

Topic: ‘Translation’ is here understood in the perspective of Roman Jaboson – as interpreting verbal symbols from one language by means of using signs of some other one: interlingual translation; as re-formulating or interpreting verbal symbols by means of using symbols of the same language: semiotic intralingual translation; as interpreting verbal symbols by means of non-verbal systems, such as cinema, painting or music: intersemiotic translation; and also in the perspective of Walter Benjamin, when this author postulates that “translation has as its primary aim the expression of the most intimate and invisible relationship between languages”; or still, translation in the perspective of those, like Paul Valey, Jorge Luis Borges and Haroldo de Campos, who aimed at the erasure of the notion of the ‘unique text’ and favored translation as intertextual play of differences

Public: The Colloquium will be open for teachers, researchers and graduate students who want to present papers and for undergraduate students who want to present posters

Already confirmed participants include: Joel Robertson (USA), Steven Engler (Canada), Aléxia Duchowny (Newton Paiva, Brasil); Berta Waldman (USP, Brasil); Elcio Cornelsen (UFMG, Brasil); Enrique Mandelbaum (USP, Brasil); Lyslei Nascimento (UFMG, Brasil); Jacynto Lins Brandão (UFMG, Brasil); Luiz Nazario (UFMG, Brasil); Mariângela Paraizo (UFMG, Brasil); Nancy Rozenchan (USP, Brasil); Renato Pucci (Tuitui/PR, Brasil); Thereza Virgínia Barbosa (UFMG, Brasil).

Resenhas na RBL - 18.07.2007

As seguintes resenhas foram recentemente publicadas pela Review of Biblical Literature:

Daniel Berrigan
Genesis: Fair Beginnings, Then Foul
Reviewed by Dan W. Clanton Jr.

Michelle Brown, ed.
In the Beginning: Bibles Before the Year 1000
Reviewed by Michael W. Holmes

William G. Dever
Did God Have a Wife?: Archaeology and Folk Religion in Ancient Israel
Reviewed by Patrick D. Miller

Alessandro Falcetta, ed.
James Rendel Harris: New Testament Autographs and Other Essays
Reviewed by Christopher Tuckett

Jennifer A. Glancy
Slavery in Early Christianity
Reviewed by Fabian E. Udoh

Melanie Johnson-DeBaufre
Jesus among Her Children: Q, Eschatology, and the Construction of Christian Origins
Reviewed by Harry T. Fleddermann

Tim Meadowcroft
Haggai
Reviewed by Henning Graf Reventlow

Piotr Michalowski and Niek Veldhuis, eds.
Approaches to Sumerian Literature: Studies in Honour of Stip (H. L. J. Vanstiphout)
Reviewed by Antoine Cavigneaux

Ute Neumann-Gorsolke
Herrschen in den Grenzen der Schöpfung: Ein Beitrag zur alttestamentlichen Anthropologie am Beispiel von Psalm 8, Genesis 1 und verwandten Texten
Reviewed by Thomas Krueger

Stanley E. Porter, ed.
Paul and His Theology
Reviewed by M. Eugene Boring

Paul A Rainbow
The Way of Salvation: The Role of Christian Obedience in Justification
Reviewed by Timothy Gombis

Horst Simonsen
Leonhard Goppelt (1911-1973)-Eine theologische Biographie: Exegese in theologischer und kirchlicher Verantwortung
Reviewed by Jim West

Anthony C. Thiselton
Thiselton on Hermeneutics: Collected Works with New Essays
Reviewed by Stanley E. Porter

Johan C. Thom
Cleanthes' Hymn to Zeus: Text, Translation, and Commentary
Reviewed by Troels Engberg-Pedersen

Martin Wallraff, ed.
Julius Africanus und die Christliche Weltchronistik
Reviewed by Jutta Tloka

Outros ossuarios com o nome "Jesus"

Antonio Lombatti, em seu blog, tem um post de hoje com o título More ossuaries with the name "Jesus".

Que trata de vários ossuários da mesma região onde Simcha Jacobovici diz ter encontrado O Sepulcro Esquecido de Jesus...

Há muitos sepulcros "encontrados" de Jesus! Vários ossuários trazem o nome "Jesus"...

Leia o post, que está em italiano, e veja as as fotos de ossuários e inscrições!

sábado, 21 de julho de 2007

O Sepulcro Esquecido de Jesus: de novo

Para quem perdeu a coisa toda em março deste ano, o filme - com pose de documentário - O Sepulcro Esquecido de Jesus estará novamente no Discovery Channel nestes dias, aqui no Brasil, nos seguintes horários:
  • domingo, dia 22: 20h00
  • segunda, dia 23: 00h00, 03h00, 06h00 e 14h00
Antes de ver o filme, que provocou tanta polêmica, leia mais sobre ele aqui, aqui e aqui.

Religião e formação de classes na antiga Judéia 7

Leia:
>> Introdução
>> Capítulo 1: Solidariedade e formação de classes à luz da etnologia
>> Capítulo 2: O sistema judaico de parentesco
>> Capítulo 3: Condições da economia na região montanhosa da Judéia no tempo do domínio persa
>> Capítulo 4: Crise agrária, revolta dos camponeses e reforma de Neemias
>> Capítulo 5: Arrendamento estatal grego e luta dos Macabeus pela liberdade
>> Capítulo 6: Apresentação de sociedades asiáticas em etnografia helenística


7. A evolução de um domínio sem tradições na Judéia e a revolta crescente contra ele (142 a. C.- 135 d. C.)

:: Dominadores Asmoneus e seus adversários (142-63 a. C.)
7.1. A ordem política na Judéia após a vitória dos Macabeus nos é transmitida em 1Mc 14,27-47. As instituições que compõem a assembléia deliberativa no tempo de Simão (140 a.C.) são:
. os sacerdotes
. o povo (laós)
. os arcontes da nação (a gerousia de Jerusalém, que se distingue da aristocracia do país)
. os anciãos da terra

7.2. A junção dos poderes de sumo sacerdote, estratego (poder militar) e etnarca (poder político) em uma única pessoa fundamentou novo controle do poder e uniu a motivação religiosa à expansão político-militar.

7.3. O Estado asmoneu não durou por causa dos romanos e por causa das divisões internas. Os acordos com Roma eram feitos (com o Senado) pelo sumo sacerdote e povo judeu (demos). A transformação, por Alexandre Janeu, do sumo sacerdócio em reinado (segundo Flávio Josefo foi Aristóbulo quem introduziu o reinado em 105 a.C.) era uma violação das normas judaicas (libertando a máquina estatal dos cidadãos) e causou a oposição da velha aristocracia que exigiu o afastamento do reinado, o que, de fato, os romanos fizeram.

:: Arrendamento do Estado republicano e secularização do poder (63-43 a. C.)
7.4. Por que Pompeu interferiu no Oriente? Interesses também financeiros: houve revolta, na Ásia, contra o pagamento de impostos a Roma, recolhidos pelos publicanos (ordo publicanorum) e Pompeu veio restabelecer os interesses dos publicanos.

7.5. Submeteu Jerusalém e seu território (a Judéia) a tributo (juridicamente, stipendium): era prêmio pela vitória e castigo pela guerra. Entre os anos 63 e 44 a.C., uma sociedade de publicanos, sediada em Sídon, tinha adquirido o direito, do Estado romano, de recolher, como tributo dos produtores, uma quarto da colheita.

7.6. Os agricultores firmavam um pacto diretamente com a societas: isto excluía a intermediação da aristocracia local. Tanto a supervisão das colheitas como a troca dos produtos ficava a cargo da Sociedade dos Publicanos. O arrendamento do estipêndio valia por um turno de 5 anos, podendo ser suspenso por Roma.

7.7. Como a revolta contra Roma era intensa, especialmente no meio rural (muitos judeus apoiavam Aristóbulo), o governador Gabínio (57-55 a.C.) tomou várias medidas de amplas conseqüências:
. mandou reconstruir as cidades helenistas
. separou o cargo de sumo sacerdote da administração política, em Jerusalém
. separou o santuário da politéia
. regulamentou aristocraticamente a constituição
. dividiu o povo em cinco partes, ficando cada uma delas submetida a uma cidade dirigida por um sinédrio: Jerusalém, Gadara, Amato, Jericó e Séforis. Além da justiça local, estas cidades tinham função na arrecadação de impostos aduaneiros (portoria)
. protegia as cidades contra a pressão dos publicanos para atrair a aristocracia local para o seu lado

7.8. O idumeu Antípater era epimeletés, era comandante militar e não estava, de fato, submetido ao poder executivo do sumo sacerdote. No ano 47 a.C. César o nomeou epítropos (procurador) da Judéia: isto aumentou seu poder militar e seu poder de comando sobre a quota dos impostos. Quando em 44 a. C. terminou o contrato com a sociedade dos publicanos, o arrendamento dos impostos lhe foi entregue totalmente.

7.9. Já a aplicação da justiça era da competência do Sinédrio de Jerusalém.

7.10. A administração dos tributos sob Antípater: a Judéia devia pagar 700 talentos de prata (cada talento = 26 kg; 26 x 700 = 18200 kg!) a Roma. Quando as cidades de Gofna, Emaús, Lida e Tamna não puderam pagar o devido, o magistrado e toda a população foram vendidos como escravos. E suas terras e propriedades confiscadas.

> A Judéia foi dividida, sob Antípater, em onze toparquias e a aristocracia local (os dynatoí) eram quem arrendava o direito de recolher o tributo.

7.11. Uma toparquia tinha a seguinte organização:
. ela é controlada por um stratêgós
. tem um escrivão dos contratos de compra, dívida e arrendamento: o komogrammateús
. e tem o parnas, que vem do grego prónoos, chefe e administrador de escalão inferior
. os tribunais judeus (synédrion, boulê) pertenciam à organização política dos subúrbios das toparquias

:: Herodes cria um poderio livre das tradições (42-4 a. C.)
7.12. No confronto entre Herodes e Antígono podemos observar:
. os partidários de Antígono viviam especialmente na Judéia e na Galiléia e são relacionados por Flávio Josefo com o "banditismo galileu" que vivia em espeluncas, estava organizado e atacava sobretudo estrangeiros. Este banditismo surgiu da impossibilidade dos camponeses pagarem tributo e queria reconstruir a antiga ordem
. os partidários de Herodes viviam na Samaria, na Iduméia e partes da Galiléia e eram membros de uma aristocracia economicamente bem situada, etnicamente indiferente. Havia entre eles ricos latifundiários.

7.13. Herodes não tinha legitimidade judaica, pois descendia de idumeus e sua mãe era descendente de árabe! Foi legitimado por um essênio, como uma escolha divina. Assim, Herodes, por ser estrangeiro, não tinha para com os judeus nenhuma relação de reciprocidade e sua legitimidade se fundava na própria estrutura do poder exercido.

7.14. Quando venceu os seguidores de Antígono, Herodes construiu uma estrutura de poder independente da tradição judaica:
. nomeava o sumo sacerdote do Templo: destituiu os Asmoneus e nomeou um sacerdote da família sacerdotal babilônica e, mais tarde, da alexandrina
. exigia de seus súditos um juramento que obrigava a pessoa a obedecer às suas ordens em oposição às normas patriarcais (se uma pessoa recusasse o juramento, era perseguida, com exceção dos fariseus e dos essênios)
. interferiu na justiça do Sinédrio
. mandava vender os assaltantes (também revolucionários políticos) como escravos no exterior (e sem direito a resgate!)
. a venda à escravidão e a execução pessoal (a morte) tornaram-se normas comuns do arrendamento estatal

7.15. Mas, se ele violava assim a tradição, como conseguia legitimidade?
. A estrutura de poder do Estado sob Herodes era bem diferente da estrutura da época do Asmoneus:
- o rei era legitimado como pessoa e não por descendência
- o poderio não se orientava pela tradição, mas pela aplicação do direito pelo senhor
- o direito à terra era transmitido pela distribuição: o dominador a dava ao usuário, era a assignatio
- a base filosófica helenística é que legitima o poder do rei, quando diz que o rei é a "lei viva"(émpsychos nómos), em oposição à lei codificada, ou seja: o rei é a fonte da lei, porque ele é regido pelo nous. O rei é a imagem de Deus que ordena e conserva o cosmos pelo nous: o rei tem função salvadora e, por isso, dá aos seus súditos uma ordem racional, através das normas do Estado. O rei em pessoa é a continuação do seu reino e o salvador de seus súditos
- o poder militar de Herodes se baseava nos mercenários estrangeiros que ficavam em fortalezas, ou em terras (cleruquias) dadas aos mercenários por ele (terras no vale de Jezrael), e nas cidades não-judaicas por ele fundadas, a cujos cidadãos ele tinha dado como posse o território que as rodeava, com os camponeses dentro!

:: "Leiturgía" ou serviço público no tempo de César e a formação da revolução
7.16. Quando Arquelau foi deposto, no ano 6 d.C., a Judéia tornou-se província romana, governada por uma procurador (prefeito) que tinha o imperium em suas mãos:
- poder total de administrador [Verwaltung]
- juiz [Rechtsprechung]
- defensor [Verteidigung]

. Duas medidas foram tomadas: a venda dos domínios reais (de Arquelau) e um recenseamento:
- as propriedades reais foram declaradas ager publicus e vendidas. Assim os domínios reais do vale de Jezrael (antigamente do sumo sacerdote Hircano) e da Galiléia foram vendidos a estranhos, que nada tinham a ver com as tradições judaicas
- o recenseamento servia para registrar pessoas e bens, em vista do pagamento do tributum solis et capitis

. o tributum capitis, cobrado em dinheiro, somava-se aos tributos sobre os produtos da terra e aos impostos indiretos e alfandegários. Pesava muito, por isso, sobre quem não tinha propriedades. Foi este o objeto da pergunta feita a Jesus sobre o "imposto a César". Era de 1 centésimo na Síria, mas era mais pesado na Judéia, por causa das revoltas (no mínimo 1 denário)

. o tributum solis era cobrado em víveres e dinheiro.
- os responsáveis pelo recolhimento destes impostos eram os magistrados das toparquias e os aristocratas locais: este sistema de assegurar dívidas coletivas de impostos pela riqueza dos escolhidos para a magistratura era chamado de leiturgía e era característico da época dos césares

7.17. O direito de nomear o sumo sacerdote e de controlar a guarda das vestes sacerdotais ficou com Herodes de Cálcis e, em seguida, com Agripa II. A jurisdição foi transmitida ao procurador e este a confiou ao Sinédrio. A pena capital era, entretanto, direito intransferível do procurador.

:: As facções revoltosas e seus motivos
7.18. A revolta dos judeus contra Roma tinha três metas:
. suspensão do pagamento dos tributos
. suspensão dos sacrifícios pelo povo romano e seu César
. ereção da soberania política

7.19. A guerra dos anos 66-73 d.C. tinha três centros:
- o Templo
- a Judéia
- a Galiléia

. Nos conflitos internos entre as várias tendências, observamos que:
- o conflito entre os grupos galileus era caracterizado pela oposição entre princípios aristocráticos e democráticos. O grupo proletário atualizou a tradição judaica do qahal (ekklesía), assembléia, contra a aristocracia que tendia a transformá-la em associação normativa da cidade. "O tradicionalismo radical democrata da população das cidades da Galiléia foi provavelmente o meio político que Jesus pressupôs"(p. 120). Nota 111, p. 120: "As parábolas evangélicas, que se referem às situações sociais e políticas da zona rural da Galiléia, apresentam um mundo de duas classes: a dos ricos e a dos pobres, a dos latifundiários e a do pequeno e endividado agricultor. Uma camada política, a dos funcionários urbanos (estrategos e arcontes) não tem graduação digna de nota".
- O movimento zelota era formado pelos sacerdotes em Jerusalém (ano 66 d.C.) - o movimento zelota é atestado sob este nome somente no ano 66 d.C. Mas é provável que suas origens estejam ligadas à resistência de Judas, o Galileu e do fariseu Sadoc por ocasião do recenseamento de Quirino, no ano 6 d.C.; enquanto os sicários representavam o movimento rural revolucionário da Judéia, dirigido por Judas, o Galileu, e seus sucessores (nem todos os sicários eram galileus, mas estavam ligados à Galiléia através de seus líderes - só a Judéia fora atingida pela nova ordem no ano 6 d.C., a Galiléia não). Zelotas e sicários entraram em choque em Jerusalém: os sicários executaram o sumo sacerdote Ananias - pai de Eleazar, chefe dos zelotas; os zelotas mataram Menaém, filho de Judas, o Galileu. Então os sicários se retiraram para Massada.

7.20. O autor apresenta, no resumo das pp. 123-125, 4 teses sobre o cerne do conflito:
> os judeus relacionaram, e com razão, tributos e escravidão. Dois momentos fundamentais explicitam este processo: em 142 a.C. a suspensão dos tributos selêucidas foi saudada como libertação e em 6 d.C. a imposição de registro dos bens particulares (censo) em vista de impostos foi vista como prelúdio da escravidão aberta

> havia um conflito entre a antiga aristocracia, formada pelos antigos moradores, a gerousia e o sinédrio, e a nova aristocracia do dinheiro e do exército, engajada no arrendamento estatal. Os donos tradicionais das terras (a velha aristocracia) tinham interesse em possuir grande número de dependentes (para mobilização em caso de conflitos), enquanto a nova aristocracia prefere os donativos em víveres e dinheiro (preferindo vender o devedor, em caso de insolvência, a estrangeiros, do que fazê-lo escravo por dívida)

> a tradição religiosa judaica da aliança Iahweh-Israel limitava o crescimento das diferenças sociais e da estratificação de classes. Daí o apelo às normas religiosas serem fundamentais para os grupos de resistência judaica... normas desativadas pelo sistema jurídico do dominador que foi, pouco a pouco, sendo implantado

> a guerra contra Roma nos anos 66-73 d.C. não foi da classe baixa contra o latifúndio (leitura de KREISSIG), pois ela seria impossível sem a participação ativa da aristocracia nativa pertencente ao Sinédrio. Esta aristocracia, que não se beneficiava do arrendamento estatal, tinha bons motivos para participar do levante... Todos lutavam (apesar das diferenças) por uma ordem na qual a tradição religiosa garantisse a legitimidade da ordem social!

Religião e formação de classes na antiga Judéia 6

Leia:
>> Introdução
>> Capítulo 1: Solidariedade e formação de classes à luz da etnologia
>> Capítulo 2: O sistema judaico de parentesco
>> Capítulo 3: Condições da economia na região montanhosa da Judéia no tempo do domínio persa
>> Capítulo 4: Crise agrária, revolta dos camponeses e reforma de Neemias
>> Capítulo 5: Arrendamento estatal grego e luta dos Macabeus pela liberdade


6. Apresentação de sociedades asiáticas em etnografia helenística

Obs.: o capítulo 6 não está todo resumido...

A questão tratada é: qual é a "interpretatio graeca" das estruturas da sociedade asiática?

:: Helenismo como conceito histórico-filosófico
6.1. J. G. DROYSEN (Geschichte des Hellenismus, 1836) acredita que a intenção de Alexandre seria a fusão da essência ocidental e oriental, meta que conseguiu, mas que correu risco após sua morte.
. DROYSEN caracteriza o helenismo como "mistura" do grego macedônio com a vida étnica local. Por detrás disso está o princípio filosófico da mediação do particular (etnias orientais) com o geral (o helenismo).
. DROYSEN compara o sucesso do helenismo com o da burguesia do séc. XIX.

:: Sociedades sem a institucionalizada procura do lucro
6.2. A etnografia de Heródoto (485-424 a.C.)...

6.3. As obras literárias gregas dos séc. IV\III a.C.

6.4. Comparando Diodoro Sículo (que se apóia em Hecateu de Abdera) com Heródoto...

6.5. Evêmeros...

6.6. Jâmbulo...

6.7. Conclusão...

:: A harmoniosa sociedade de Moisés
6.8. Hecateu de Abdera escreveu sobre os judeus...

6.9. A Carta de Aristéias a Filócrates (entre 145 e 100 a.C.)...

6.10. Conclusão: são dois os princípios que determinaram a exposição dos aspectos políticos do judaísmo antigo:
. as tradições judaicas são formuladas em forma de nómoi (leis) gregas
. a sociedade judaica é apresentada como protótipo da pólis, onde os cidadãos são iguais.

6.11. Resumo: a finalidade da exposição: corrigir uma idéia de helenismo como algo sem contradição, que é a idéia de DROYSEN. A etnografia grega, ao escrever sobre as sociedades orientais e ao mostrá-las como sociedades harmônicas (idealizando-as), está denunciando o helenismo como sociedade de classes.

Religião e formação de classes na antiga Judéia 5

Leia:
>> Introdução
>> Capítulo 1: Solidariedade e formação de classes à luz da etnologia
>> Capítulo 2: O sistema judaico de parentesco
>> Capítulo 3: Condições da economia na região montanhosa da Judéia no tempo do domínio persa
>> Capítulo 4: Crise agrária, revolta dos camponeses e reforma de Neemias


5. Arrendamento estatal grego e luta dos Macabeus pela liberdade (332-142 a.C.)

:: Arrendamento do Estado e mobilização dos excedentes
5.1. A pólis grega não tinha uma burocracia estatal profissional. Quanto às finanças públicas, a pólis arrendava a particulares o recolhimento os impostos, por tempo limitado.

> A administração ptolomaica somou este arrendamento à estrutura oriental de controle do Estado sobre o cálculo e a arrecadação dos impostos: as aristocracias orientais participaram, assim da exploração econômica e tiveram influência no Estado.

5.2. Dois decretos de Ptolomeu II Filadelfo, de 261/260 a.C., sobre a administração da província siro-fenícia, mostram que havia em um distrito um ecônomo que controlava as finanças e toda uma hierarquia de funcionários inferiores. Todos os camponeses palestinos pagavam tributo: cada um pagava ao arrendatário de sua aldeia.

5.3. No fim do século III a.C. José Tobias assumiu o controle sobre a arrecadação tributária da província siro-fenícia. Flávio Josefo diz que ele levou aos judeus a prosperidade. E foi de dois modos: fez diminuir o número de bocas para comer através da escravidão (rendendo assim mais excedentes) e estimulou culturas mais rentáveis (olivais no lugar de cereais).

:: A aristocracia se emancipa da hierocracia
5.4. A teoria grega do Estado admitia a pólis e o éthnos. Sob Antíoco III, a Judéia é considerada como éthnos (pode ser que o fosse também sob os Ptolomeus). O decreto de Antíoco III, de 198 a.C., é ilustrativo, especialmente porque nos permite ver os primeiros passos da emancipação da aristocracia (a gerousia) da hierocracia. A autonomia étnica trouxe aos aristocratas das cidades novas possibilidades: a lei baseava-se no poder do conquistador, proprietário nominal da terra conquistada, que cedia a quem ele bem quisesse a sua exploração. Isto estava em contradição com a base jurídica da posse (e não propriedade da terra, segundo a tradição judaica (a terra é de Iahweh). Estava aberto o caminho para a ruptura da aristocracia com a tradição antiga.

5.5. Esta ordem política foi confirmada pelos Selêucidas sucessores de Antíoco III, como o testemunham documentos macabeus e romanos.

:: Motivos da luta dos Macabeus pela liberdade
5.6. O problema do comércio, aos sábados, em Jerusalém, permanecia. E isso era insuportável aos ricos. Aí vem Jasão.

5.7. Há um texto em Estrabão que foi identificado como um manifesto antiasmoneu originário dos círculos helenizantes. E eles justificam suas atitudes dizendo que as prescrições judaicas tradicionais violam as normas mosaicas. Jerusalém fora fundada por Moisés como pólis e devia se adequar a isso.

5.8. A resistência dos Macabeus é contra a intromissão estatal no direito sagrado: os Macabeus são sacerdotes - os revolucionários fazem valer os antigos mandamentos: 1Mc 2,34;2,46 etc; os seus adversários seguem as ordens do rei: 1Mc 2,19-20;6,21-23 etc. Baseiam-se na antiga solidariedade de descendência (chamada por Kippenberg de solidariedade segmentária - segmentärer Solidarität) contra o domínio político do Estado helenizante.

5.9. E os motivos da luta são também econômicos, gerados pelo arrendamento estatal. Quando, em 142 a.C., o rei Demétrio II concedeu aos judeus isenção das contribuições, isto foi festejado como libertação da escravidão e começo de uma nova era (1Mc13,41-42).

> É que, com o desaparecimento do arrendamento, a aristocracia não era mais identificada com o Estado, dando aos camponeses maior folga em relação aos senhores da terra. A desigualdade permaneceu a mesma, mas os camponeses conseguiram controle sobre o excedente.

5.10. Já no ano 152 a.C., Demétrio I fizera uma promessa de isenção, o que nos dá idéia do montante dos tributos. É 1Mc 10,29-31 que narra a isenção dos três tipos de tributos:
. todo o povo (e não só a gerousia e parte dos sacerdotes, como no decreto de Antíoco III) é libertado dos impostos individuais
. é suspenso um tributo que corresponde a um terço da colheita e a metade dos frutos das árvores
. é assegurada a isenção dos impostos (= 2,5% sobre a circulação de mercadorias) e do dízimo (= antigo imposto sobre os produtos da terra). Eles agora são receitas do Estado macabeu, recolhidos junto aos judeus

5.11. Concluindo: o sistema de arrendamento estatal grego a aristocratas abastados é que levou, em boa parte, ao conflito. Como direito de conquista da terra, os dominadores exigiam tributos, e os aristocratas os recolhiam dos camponeses e os repassavam, violando as normas étnicas internas do povo judeu.
. A lógica (grega) deste arrendamento era: reduzir o direito de cidadania a pequena faixa aristocrática, mantendo os produtores como simples moradores, objeto de conquista, sem direito de cidadania.
. E esta lógica estava funcionando, até que, em Jerusalém, uma camada aristocrática forçou a helenização e entrou em choque com o direito sagrado tradicional do povo judeu. Aí veio o conflito com os Macabeus. Que não teve objetivos religiosos. O que se queria era uma reforma da constituição da Judéia.