sábado, 13 de outubro de 2007

Meu encontro com Paulo Autran

Morreu Paulo Autran, um dos maiores atores brasileiros.

De sua morte, ocorrida ontem, escreveu Josias de Souza em seu blog, Nos bastidores do poder: Depois de atingir o cume da glória, Autran subiu.

E Nelson de Sá escreveu Ele era o teatro, no Cacilda, blog de teatro da Lenise Pinheiro e do Nelson de Sá, em 12/10/2007 às 19h02: Demorei a compreender sua grandeza. Não aceitava as opções que fazia, as encenações a que se submetia. Eu amava o aristocrata reacionário de “Terra em Transe”, mas não era o que presenciava no teatro. Até que fui parar um dia no Sesc Ipiranga, para ver seu monólogo de décadas, restrito praticamente a um único texto, “Meu Tio o Iauaretê”, de Guimarães Rosa. A metamorfose por que passou, de homem a animal, diante dos meus olhos e de todos, foi acontecimento tão singular, ainda que ele o repetisse toda noite, que valeu por tudo. Foi tão superior o teatro, naquele instante, que não havia mesmo mais nada. Não havia, para começar, diferenças de pensamento, correntes do teatro. Foi o palco absoluto.

Retrato do ator Paulo Autran, feito pela fotógrafa Madalena Schwartz em 1999


Há 29 anos tive a rara oportunidade de conhecer e entrevistar Paulo Autran.

Foi em Patos de Minas, MG, onde, em 1978, eu era redator-chefe do jornal Folha Diocesana. Tendo chegado de Roma no final de 1976, depois de seis anos estudando na Europa, eu trabalhava como assessor exegético na Diocese de Patos de Minas e tinha 27 anos de idade.

Paulo Autran fora a Patos de Minas a convite do Centro de Estudos Teatrais (CET), grupo de teatro amador, que estava inaugurando o pequeno Teatro Telhado, e apresentou, nos dias 9 e 10 de junho de 1978, no auditório da Rádio Clube de Patos, o espetáculo O Ator e o Texto.

Na edição de 15 de junho de 1978, n. 954, da Folha Diocesana, escrevi:
O Ator e o Texto: o ator, Paulo Autran, carioca de nascimento, paulista por vivência, advogado de profissão, ator por vocação, um dos maiores expoentes do atual teatro brasileiro. O texto: Angústia, de Graciliano Ramos; Cabelos Compridos, de Monteiro Lobato; O Retrato, de Érico Veríssimo e Meu Tio o Iauaretê, de Guimarães Rosa (...) Nos debates e bate-papos dos patenses com Paulo Autran, pôde-se constatar a magnifica clarividência de idéias e amplidão de horizontes do grande ator.

A seguir, a entrevista, na qual, entre outras coisas, Paulo Autran disse: No Brasil, o povo só terá acesso ao teatro quando ele tiver o que comer, o que vestir, onde dormir e tiver aprendido a ler.

Nosso circo é a novela e o futebol, nosso pão está caro
Entrevista com o ator Paulo Autran - Por Airton José da Silva - Diretor de Redação
Publicada na Folha Diocesana – Patos de Minas, 22 de junho de 1978, n. 955, p. 9.

Na avenida Brasil, em Patos de Minas, um pequeno teatro, ainda em construção. Um grupo com muita garra, muita vontade de fazer teatro amador em Patos. O Teatro Telhado, rústico, mas acolhedor. O grupo de jovens do CET – Centro de Estudos Teatrais - um dos 5 grupos de teatro amador de Patos de Minas. São 16 horas, o dia é 10 de junho de 1978, o assunto é teatro. Sentados no chão, rapazes e moças estão atentos. Sentado também no chão, muito comunicativo, no meio de todos: Paulo Autran. Suas apresentações no auditório da Rádio Clube de Patos foram muito comentadas naqueles dias. Suas idéias e suas opiniões, ótimo incentivo para o teatro e para a cultura. E nós quisemos também ouvi-lo. Gravador na mão, entramos na intimidade daquela conversa. E Paulo Autran continuou a conversar conosco. Falou de teatro, mas falou mais. Muito natural, muito espontâneo, o famoso ator demonstrou ser grande também fora do palco. Selecionamos algumas das respostas de Paulo Autran. As perguntas são de várias pessoas, inclusive da redação da Folha Diocesana.

:: Paulo, vamos falar de algo muito importante: o teatro e a censura
Paulo Autran
– O maior mal que o teatro enfrenta atualmente [1978] é, sem dúvida, a censura. A censura tem sido castradora em todos os ramos artísticos do Brasil, no cinema, na televisão e, principalmente, no teatro. Quando a gente pensa que, atualmente, há perto de 600 peças proibidas pela censura, a gente vê o que isso representa de mal, não só para o teatro, mas principalmente para a platéia brasileira, para o povo brasileiro que fica impossibilitado de ver grandes obras, que fica sem conhecer as principais obras de seus próprios dramaturgos, porque há muita peça brasileira proibida. E você pense também na quantidade de pessoas que deixam de escrever, na quantidade de assuntos que não podem ser abordados no palco. Então, realmente, é um mal para o povo brasileiro.

:: E a televisão? Ela está ocupando um espaço enorme na vida do brasileiro. Este espaço não foi em parte roubado do teatro?
Paulo Autran
– Eu não acredito que a televisão roube espaço ao teatro, porque a televisão é totalmente diferente do teatro. O prazer que um espetáculo teatral proporciona a quem o assiste é totalmente diferente do prazer provocado por um bom programa de televisão, quando há bons programas de televisão. Porém é lastimável que um veículo capaz de promover a massificação do pensamento em nosso país, dedique tantas horas a uma coisa do gênero novela, onde só se pensa no lado sentimental das coisas. E nenhum problema real pode ser abordado numa novela.

:: No meu modo de ver, a televisão acomoda as pessoas, ela apresenta uma imagem defasada da realidade...
Paulo Autran – A televisão, principalmente, aliena a quem a assiste dos verdadeiros problemas que a pessoa tem que enfrentar. Enquanto o Brasil inteiro discute se a mocinha vai se casar e ser feliz com o mocinho, o Brasil inteiro deixa de pensar nos problemas reais, diários, cotidianos que o nosso povo tem que enfrentar.

:: A televisão torna as pessoas obedientes, massificando-as. O que significa isto no contexto brasileiro atual?
Paulo Autran – É uma lástima. Já diziam os romanos que para governar era preciso dar ao povo pão e circo. No Brasil, nosso circo é a novela e o futebol. E o pão está caro.

:: Você acha que um grupo de teatro amador que começa representando uma peça clássica vai ter algum problema por ter começado com algo tão difícil?
Paulo Autran – A palavra “clássico” assusta muita gente. Fala-se em música clássica, as pessoas dizem: “ai, que horror”. Fala-se em teatro clássico, as pessoas dizem: “ai, que difícil”. Não é verdade. O clássico, a palavra “clássico” é sinônimo de qualidade. Só se torna clássico aquilo que é bom, que reflete um problema verdadeiro da humanidade. Assim, o teatro clássico é um extraordinário ponto de partida para qualquer pessoa. Quem é capaz de representar bem um clássico é capaz de transmitir as paixões do ser humano no seu mais alto grau de intensidade. Para quem gosta de música, por exemplo, é uma conquista descobrir a beleza e a extraordinária emoção e prazer que se encontra ouvindo um bom autor clássico.

:: Qual o papel que você mais prefere fazer?
Paulo Autran – Eu fiz tantos papéis bons, tantos textos brasileiros e estrangeiros que eu não poderia lhe indicar um personagem que eu tenha gostado mais. Mas, se me obrigassem a dizer qual a peça que me deu mais prazer representar, eu poderia dizer que foi “Liberdade, Liberdade”, uma peça que atualmente está proibida em todo o território nacional, talvez por causa do nome.

:: Augusto Boal está fazendo experiências de teatro-foro na Europa. O que você acha disso?
Paulo Autran – O Boal já fez isso aqui no Brasil, o que ele chamava de teatro-jornal. A partir do fato diário, ele escrevia e apresentava diariamente pequenos esquetes no seu teatro. Ele agora ampliou isto na Europa. O Boal é um autor e um diretor muito criativo e capaz. Acredito que ele esteja fazendo um bom trabalho por lá. Se bem que isso é um caminho do teatro, não é o caminho. Não é que todo mundo deva fazer só esse tipo de teatro, porque o teatro é muito mais amplo do que isso.

:: O teatro muitas vezes atinge só pessoas de um nível cultural mais elevado, deixando de chegar ao povo. O que você pensa disso?
Paulo Autran – Há certos autores, bons autores, que são por seu próprio feitio pessoas intelectuais e intelectualizantes. Escrevem peças que só atingem um pequeno grupo de eleitos da inteligência e da cultura. Eu admiro estas peças, gosto muito de lê-las, mas não as monto, porque eu acho que o teatro só se justifica quando ele tem a participação da platéia. Só quando ele vai para a platéia e ela nos manda de volta a sua receptividade. Eu acho que o teatro deve atingir cada vez mais um número maior de pessoas e não se restringir a um pequeno círculo, seja de que elite for.

:: No Brasil há uma série de fatores econômicos e culturais que restringem demais o público, não?
Paulo Autran
– No Brasil, o povo só terá acesso ao teatro quando ele tiver o que comer, o que vestir, onde dormir e tiver aprendido a ler.

:: No atual movimento nacional para a redemocratização, qual está sendo o papel do teatro e a sua contribuição para o processo de volta ao Estado de Direito?
Paulo Autran
– O teatro teve uma participação muito grande nesta tentativa de redemocratização. O teatro foi, talvez, a primeira classe, como classe, a se manifestar pela redemocratização no Brasil, com espetáculos como “Opinião” e “Liberdade, Liberdade”. Foram os dois marcos iniciais da redemocratização, numa época bastante difícil para o nosso país. E o teatro jamais abdicou disso. Você veja, mesmo no ano passado e até nesse ano, há peças em cartaz que mostram claramente a necessidade que a classe tem de lutar para isso: “Gota d’água”, “Último Carro” e “Ponto de Partida”. A classe teatral está sempre atenta e sempre tentando denunciar e protestar contra o cerceamento da liberdade.

:: Por que é que demorou tanto a sair a regulamentação da profissão de ator? Há alguma razão do governo para isso?
Paulo Autran – Ninguém compreende realmente porque demorou tanto para sair esta regulamentação.

:: E é só aqui no Brasil?
Paulo Autran
– Não, há outros países subdesenvolvidos que enfrentam o mesmo problema.

:: Isto não faz parte de um contexto geral de desvalorização da cultura nestes países?
Paulo Autran
– Você tem razão. Mas a partir do momento em que a classe teatral representou um pedra no sapato, era muito mais fácil tê-la regulamentado anteriormente.

:: Quer dizer, existe um medo do governo no caso?
Paulo Autran – Tu o disseste.

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