sábado, 1 de setembro de 2007

Comblin analisa o projeto missionario de Aparecida

Uma extraordinária análise do grande mestre. Transcrevo alguns trechos para que o leitor interessado possa ver o que o espera na leitura do artigo. O texto do teólogo José Comblin pode ser lido na revista AlterInfos - América Latina/Dial (Diffusion de l'information sur l'Amérique Latine), em espanhol e português. Encontrei-o também no site do CEBI - Centro de Estudos Bíblicos.

José Comblin
El proyecto de Aparecida - 8 de agosto de 2007
O projeto de Aparecida - 13 de agosto de 2007
Projeto Ambicioso - Conferência dos Bispos Católicos - CEBI: 27 de agosto de 2007

No primeiro parágrafo diz Comblin:
"O projeto da Conferência de Aparecida é ambicioso. Trata-se de nada menos do que uma inversão radical do sistema eclesiástico. Há séculos a pastoral da Igreja está concentrada na conservação da herança do passado. Todas as instituições foram adaptadas a essa finalidade. O sistema foi instalado no século XII e desde então não mudou sensivelmente. De acordo com o projeto de Aparecida, tudo vai ser orientado para a missão. A realização prática desse projeto vai exigir o século XXI inteiro. Pois, os bispos lançaram esse projeto, mas agora o primeiro problema consiste em convencer o clero. A presente geração não está preparada para essa inversão das suas tarefas. Vai ser necessário mudar radicalmente a formação e preparar novas gerações sacerdotais bem diferentes da atual".

Em seguida Comblin faz uma síntese histórica do projeto missionário da Igreja desde o primeiro milênio até hoje, para concluir que:
"Agora vem o projeto episcopal, que vai exigir uma mudança de mentalidade e uma mudança de comportamento. A missão será a prioridade e deixará no segundo plano a administração da pequena minoria que freqüenta as paróquias. Será necessário mudar a formação sacerdotal de modo radical. Os religiosos vão ter que voltar à sua vocação original, e deixar de ser administradores de paróquias ou de obras".

A partir deste ponto, o artigo está dividido em três partes:
1. Os temas mais significativos do documento conclusivo
2. Algumas dúvidas
3. Os problemas


:: Entre os temas mais significativos, Comblin destaca:

. A escolha do tema geral de toda a Conferência: missão
"Há uns 30 anos atrás na América Latina não se falava em missão (...) A missiologia nem sequer estava nos programas de formação sacerdotal. Era a especialidade de alguns que iam dedicar-se a regiões mais despovoadas ou retiradas como a Amazônia (...) Desde então apareceram muitas experiências que se apresentaram como missionárias. A própria palavra missionário entrou no uso comum do povo que identifica já certas pessoas como missionários e missionárias. Muitos grupos adotaram o nome de missionários. Hoje em dia a consciência de uma necessidade missionária no meio de uma sociedade cada vez mais secularizada cresceu muito. A V Conferência do Celam recolheu o que se preparou durante 30 anos".

. A Conferência decidiu voltar ao método de Medellín e Puebla: o esquema ver-julgar-agir da Ação Católica
"Há uma insistência muito forte nessa continuidade (n.391-398). É difícil não descobrir nessa insistência uma discreta expressão de arrependimento e de confissão. É inegável que tinha diminuído a influência de Medellín e de Puebla nos últimos anos. Não faltavam sacerdotes que simplesmente diziam que Medellín já estava superado e já não servia mais para a Igreja atual. Por isso, convém destacar a forte insistência da Conferência de Aparecida. Essa continuidade com Medellín e Puebla manifesta-se, sobretudo, em dois temas fundamentais: a opção pelos pobres e as comunidades eclesiais de base. São justamente dois temas que foram muito atacados ou tratados com indiferença como sendo coisas do passado (...) A Conferência de Aparecida renova a opção pelos pobres (n. 397,398, 399). Não se trata de uma fórmula convencional. O texto é insistente (...) O documento conclusivo fala explicitamente das Comunidades Eclesiais de Base (n. 178-179). Esta é a parte do documento que sofreu mais correções em Roma, pois o texto dos bispos era muito mais incisivo. Assim mesmo, o texto enuncia todos os frutos positivos das Comunidades Eclesiais de Base, reconhecendo que elas foram o sinal da opção pelos pobres".

. Os melhores capítulos do Documento são os capítulos 7 e 8 sobre a missão. Aí se acham as afirmações mais fortes
"A mudança deve afetar todas as instituições da Igreja. Começa com a reforma da paróquia. Esta terá que ser subdividia em unidades menores (372), de pequenos grupos com melhor relacionamento (...) O capítulo 8 elabora uma pastoral social que vai ser reafirmada e reforçada (401-404). O documento enumera as novas categorias de pobres que surgiram (...) nos últimos tempos. Enfim o Documento assume desafios contemporâneos: a ecologia e os problemas do meio ambiente e a pastoral urbana. O programa de pastoral urbana é muito completo (...) O desafio da pastoral urbana já foi definido por sociólogos católicos no final do século XIX. Depois de 100 anos a hierarquia assume o desafio. A Igreja católica tem ainda estruturas rurais e mentalidade rural. Na sociedade rural a paróquia identifica-se com a sociedade. Agora as coisas mudaram tanto que a imensa maioria dos cidadãos vive na margem da Igreja e somente recorre a ela no nascimento e na morte ou recorre aos Santos nas doenças".

. A análise da realidade da América Latina
"No segundo capítulo há uma extensa apresentação da realidade de América latina. Essa exposição recorreu à ajuda de especialistas e cientistas, já que oferece informações bastante completas e pormenorizadas (...) No entanto, o Documento não chega a condenar o capitalismo e o sistema atual de globalização embora tenha mostrado todos os seus vícios. Não podia ir mais longe do que a chamada Doutrina social da Igreja, tão silenciosa nos últimos tempos".


:: Na seção sobre as dúvidas, diz Comblin:

. Quem vai pôr esse programa em prática?
"O projeto de Aparecida é tão radical que surge uma dúvida: quem vai pôr esse programa em prática? (...) O clero atual não tem condições para aplicar esse programa (...) Pessoalmente acho que os futuros missionários capazes de mudar a fisionomia da Igreja serão leigos, missionários leigos".

. Como vai começar a aplicação do programa de Aparecida?
"Não poderá realizar-se de cima para baixo. Não se poderá começar com um planejamento teórico. Começará com pessoas voluntárias dispostas a entrar numa aventura, desta vez com o apoio da hierarquia (...) Nos últimos anos em muitos lugares as dioceses realizaram anos missionários, missões populares, sem êxito nenhum. Tudo ficou no papel porque em lugar de partir das pessoas voluntárias que se sentiam pouco valorizadas, mais toleradas do que apoiadas na sua vocação missionária, entregaram a missão as agentes de pastoral da estrutura diocesana ou paroquial (...) Não adianta dar cursos para ensinar uma doutrina".

.Como será a formação missionária?
"O que se entende por formação de missionários? A atual formação nos seminários ou nas faculdades de teologia é justamente o contrário. O sistema atual dá uma formação acadêmica ou com pretensões acadêmicas. No Brasil muitos deram muito valor ao reconhecimento dos estudos de seminário pelo Ministério da Educação. Ora, com certeza o Ministério da Educação não tem projetos missionários. Os certificados oficiais parecem ser garantias justamente para aqueles que não sentem uma vocação missionária muito forte. Não tenho nada contra esses certificados acadêmicos, mas isto não tem nada a ver com a missão. A formação acadêmica torna a pregação vazia, sem contato com o povo. Os padres foram preparados para ser pequenos professores de teologia. Só isso já explica muitas coisas quanto aos problemas da Igreja que foram denunciados pelo documento de Aparecida. A formação missionária inclui primeiro uma forte e radical espiritualidade concentrada na Bíblia em geral, mas sobretudo nos evangelhos, isto é, na vida terrestre de Jesus. Em segundo lugar, a formação consiste em multiplicar os encontros com pessoas, famílias, grupos. O missionário precisa aprender a estar presente em todos os lugares da vida social, como um sinal de vida renovada, animada pela fé, esperança e caridade (...) A exposição da doutrina jamais converteu alguém. Jesus manifesta-se pela vida de certas pessoas e não pela doutrina. Não se forma missionários com cursos, seminários ou discussões abstratas. É preciso aprender o linguajar popular. Alguns sacerdotes ou bispos sabem fazer isso perfeitamente: são missionários que se tornaram assim pela graça de Deus, superando os esquemas de formação acadêmica que receberam. Um exemplo: frei Carlos Mesters".

. Um problema de toda a Igreja ocidental: ela ignora o Espírito Santo
"O ensinamento do Novo Testamento é diferente, tanto na teologia de Paulo como na teologia de João (...) Uma conversão mais radical ainda seria necessária para voltar ao ensinamento do Novo Testamento sobre o Espírito".


:: Quanto aos problemas, diz Comblin:

. Uma cristologia fraca
"A parte mais fraca do documento, a meu ver, é a cristologia. Era de se esperar. Não foi por acaso que a Notificação enviada a Jon Sobrino foi publicada na véspera da Conferência de Aparecida. Pois aqui estamos exatamente no maior problema teológico da atualidade. A questão é: o que significa a humanidade de Jesus? Qual é o significado das palavras e dos atos de Jesus tais como os evangelhos os relatam? Em que consiste a humanidade de Jesus? O que é ser homem? O texto lembra muitas coisas bonitas tiradas dos evangelhos, que o mostram como mestre de sabedoria e revelador de um modo de vida a ser imitado pelos discípulos. É uma enumeração de atos e palavras belas da vida de Jesus. Falta a síntese e o que reúne todos esses ditos e fatos numa vida humana (129-135). Esta enumeração não diz o significado da vida humana de Jesus, ou seja do seu ministério missionário. A vida dos seres humanos deve interpretar-se a partir do contexto histórico em que ela se situa. Aqui não se fala do contexto histórico, como se Jesus estivesse fora da história, como um mestre que voa acima dos séculos".

. Falta análise da estrutura eclesial latino-americana
"O texto faz uma enumeração dos aspectos positivos e negativos da Igreja latino-americana. (98-100) Não se colocam tanto os aspectos positivos como os negativos no contexto histórico. É como se tudo fosse de igual significado. Não se faz nenhuma análise das estruturas".

. Há um surpreendente silêncio sobre os movimentos pentecostais...

. Na descrição da sociedade atual, não são devidamente consideradas as duas culturas existentes: a dos incluídos e a dos excluídos...


Comblin finaliza:
"Mesmo assim (...) nasceu uma nova consciência. O documento final constitui um motivo de renovada esperança para os velhos e oferece algumas orientações bem definidas aos jovens".

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