quinta-feira, 2 de agosto de 2007

A mídia como poder criador de realidade

Já que em nosso meio se propõe, neste momento, a produção de um livro sobre o mundo dos Blogs de Estudos Bíblicos, os Biblioblogs, a reflexão da Professora Marilena Chauí sobre a crise aérea brasileira e a atitude da mídia nesta circunstância pode ser proveitosa.

Isto porque Marilena Chauí explicita, em determinado ponto de seu texto, o papel do especialista que se apresenta através dos recursos virtuais da mídia eletrônica como o único agente competente para criar a realidade a ser vivida pela sociedade. O ato de criação que as religiões atribuíam ao deuses e as filosofias à natureza, passa a ser agora uma atribuição dos meios de informação e comunicação. Na minha opinião, isto tem muito a ver conosco, como biblistas, e com a produção de nossos biblioblogs.

O texto A invenção da crise, da Prof. Marilena Chauí, está no blog Conversa Afiada, de Paulo Henrique Amorim. É composto de uma introdução e de respostas a três perguntas feitas à filósofa pelo jornalista.

Marilena Chauí cursou Filosofia na USP (Universidade de São Paulo), onde também fez o Mestrado. Doutorou-se na França e defendeu sua tese de Livre-Docência na USP, onde é Professora Titular do Departamento de Filosofia. Especialista em História da Filosofia Moderna e Filosofia Política, é autora de importantes obras sobre Merleau-Ponty e Espinosa e tem produzido estimulantes reflexões sobre ideologia e cultura.

Agradeço ao amigo e colega Telmo Figueiredo pela indicação do texto.

Paulo Henrique Amorim:
No fim de Simulacro e Poder* a sra. diz: “... essa ideologia opera com a figura do especialista. Os meios de comunicação não só se alimentam dessa figura, mas não cessam de instituí-la como sujeito da comunicação ...Ideologicamente ... o poder da comunicação de massa não é igual ou semelhante ao da antiga ideologia burguesa, que realizava uma inculcação de valores e idéias. Dizendo-nos o que devemos pensar, sentir, falar e fazer, (a comunicação de massa) afirma que nada sabemos e seu poder se realiza como intimidação social e cultural... O que torna possível essa intimidação e a eficácia da operação dos especialistas ... é ... a presença cotidiana ... em todas as esferas da nossa existência ... essa capacidade é a competência suprema, a forma máxima de poder: o de criar realidade. Esse poder é ainda maior (igualando-se ao divino) quando, graças a instrumentos técnico-cientificos, essa realidade é virtual ou a virtualidade é real...” Qual a relação entre esse trecho de Simulacro e Poder e o que se passa hoje?

Marilena Chauí:
Antes de me referir à questão do virtual, gostaria de enfatizar a figura do especialista competente, isto é, daquele que é supostamente portador de um saber que os demais não possuem e que lhe dá o direito e o poder de mandar, comandar, impor suas idéias e valores e dirigir as consciências e ações dos demais. Como vivemos na chamada “sociedade do conhecimento”, isto é, uma sociedade na qual a ciência e a técnica se tornaram forças produtivas do capital e na qual a posse de conhecimentos ou de informações determina a quantidade e extensão de poder, o especialista tem um poder de intimidação social porque aparece como aquele que possui o conhecimento verdadeiro, enquanto os demais são ignorantes e incompetentes. Do ponto de vista da democracia, essa situação exige o trabalho incessante dos movimentos sociais e populares para afirmar sua competência social e política, reivindicar e defender direitos que assegurem sua validade como cidadãos e como seres humanos, que não podem ser invalidados pela ideologia da competência tecno-científica. E é essa suposta competência que aparece com toda força na produção do virtual.

Em Simulacro e Poder eu me refiro ao virtual produzido pelos novos meios tecnológicos de informação e comunicação, que substituem o espaço e o tempo reais – isto é, da percepção, da vivência individual e coletiva, da geografia e da história – por um espaço e um tempo reduzidos a um única dimensão; o espaço virtual só possui a dimensão do “aqui” (não há o distante e o próximo, o invisível, a diferença) e o tempo virtual só possui a dimensão do “agora” (não há o antes e o depois, o passado e o futuro, o escoamento e o fluxo temporais). Ora, as experiências de espaço e tempo são determinantes de noções como identidade e alteridade, subjetividade e objetividade, causalidade, necessidade, liberdade, finalidade, acaso, contingência, desejo, virtude, vício etc. Isso significa que as categorias de que dispomos para pensar o mundo deixam de ser operantes quando passamos para o plano do virtual e este substitui a realidade por algo outro, ou uma “realidade” outra, produzida exclusivamente por meios tecnológicos. Como se trata da produção de uma “realidade”, trata-se de um ato de criação, que outrora as religiões atribuíam ao divino e a filosofia atribuía à natureza. Os meios de informação e comunicação julgam ter tomado o lugar dos deuses e da natureza e por isso são onipotentes – ou melhor, acreditam-se onipotentes. Penso que a mídia absorve esse aspecto metafísico das novas tecnologias, o transforma em ideologia e se coloca a si mesma como poder criador de realidade: o mundo é o que está na tela da televisão, do computador ou do celular.

* CHAUÍ, M. Simulacro e Poder: Uma Análise da Mídia. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2006, 144 p. ISBN 8576430274.

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