quinta-feira, 19 de julho de 2007

Religião e formação de classes na antiga Judéia 3

Leia:
>> Introdução
>> Capítulo 1: Solidariedade e formação de classes à luz da etnologia
>> Capítulo 2: O sistema judaico de parentesco

3. Condições da economia na região montanhosa da Judéia no tempo do domínio persa (539-332 a. C.)

:: Discussão sobre a economia doméstica fechada
3.1. A partir da época persa a família (bêt 'âb) tornou-se a unidade econômica fundamental, e não mais o clã. Também na Grécia e na Itália: o óikos, a família, formava a unidade fundamental da economia.

3.2. A questão da "economia doméstica fechada" [geschlossene Hauswirtschaft]...

3.3. A pergunta fundamental: surgiu algum progresso econômico que ameaçou as relações de parentesco da sociedade judaica? [Gab es wirtschaftliche Entwicklungen, die den Zusammenhalt der nach Verwandtschaftsgruppen organisierten judäischen Gesellschaft bedrohten?]

3.4. As fontes:
. os livros de Esdras, Neemias, Crônicas
. os papiros de Elefantina
. os livros de Ageu, Zacarias, Malaquias, Joel, partes de Ezequiel e Isaías, Jó e Rute
. os escritos sacerdotais

:: Agricultura
3.5. A província da Judéia, sob domínio persa, estava quase que só na região montanhosa. Somente no nordeste ela se estendia um pouco pela planície do Jordão.
. Na região montanhosa, o cultivo dependia das chuvas. Na planície era possível a irrigação e a rentabilidade era maior.
. As encostas íngremes das montanhas do leste impossibilitavam o aproveitamento da terra, enquanto que a região que descia para a planície costeira era mais favorável, só que a terra é calcária, desenvolvendo-se ali apenas plantas de raízes profundas como a oliveira, a parreira e a figueira.

3.6. Através de Ag 1,11 sabemos que na Judéia se cultiva o trigo, a vinha e a oliveira.
. Também Nm 5,11;13,15 diz que estas são as plantas principais da Judéia no século V a.C.
. Convém lembrar-se também da criação de gado, favorável na Judéia.
. Outros testemunhos que apontam na mesma direção: Eupólemo (séc. II a.C.) e a Carta de Aristéias a Filócrates (séc. II a.C.)

3.7. O cultivo da oliveira era menos trabalhoso do que o do trigo. E podia ser feito em terrenos ruins para o trigo. Só que este cultivo exige riquezas, já que a oliveira só dá lucro dez anos depois de plantada.

3.8. Na Ática e na Itália...

3.9. Os casos da Ática e da Itália nos ensinam que o tipo de aproveitamento da terra (como na Judéia) dependia:
. da existência de uma aristocracia que dispusesse de dinheiro
. da possibilidade de troca de derivados da azeitona e da uva pelo trigo.

3.10. Pelo menos este último fator já existia no tempo de Neemias: Ne 10,32 supõe que o 'am hâ'ârets vendia, em Jerusalém, além de outras coisas, trigo trazido de outra região. É possível que a produção de trigo da Judéia não fosse suficiente para o consumo. Neste caso, os seus habitantes deveriam produzir derivados de azeitona e de uva e manufaturados para trocar pelo trigo.

:: Profissão e comércio
3.11. A mais antiga profissão em Israel era a de hârâsh, da raiz hrsh, "talhar". Era o "artífice" que trabalhava com metal, pedra e madeira, podendo ser: lapidador, marceneiro, carpinteiro, pedreiro, ferreiro, serralheiro, armeiro, fundidor.

> Alguns profissionais - todos? - estavam organizados em clãs (Ne 3,8.31-32;1Cr 2,55;4,21.23 etc).

3.12. O comércio era feito por atacado e varejo nas cidades. Por ex., os habitantes de Tiro traziam peixes e mercadorias variadas para vendê-las em Jerusalém no sábado (Ne 13,16). Também os habitantes de Judá faziam isso (Ne 13,15).

> O comércio internacional é pouco documentado nesta época. Para o início do séc. VI a.C. existe Ez 27. Esd 3,7 indica que Judá exportava para Sídon "víveres, bebidas e óleo". Enquanto importava ouro, pedras preciosas, madeira de lei e cerâmica grega.

:: Propagação da moeda
3.13. O dinheiro, como medida de valor na troca de produtos, já existia muito antes da moeda.
. No Israel antigo caracterizava-se a riqueza pela posse do gado (Gn 13,2;32,5;1Sm25,2 etc). Também a etimologia confirma: miqne (= posse de gado, bens em gado, rebanho) e miqna (= aquisição, compra).
. Era usado o ouro - na forma de peças de enfeite - nas transações (Gn 20,16;37,28;Nm 31,50;Js 7,21). Este ouro era pesado segundo o método sumério-babilônico, o shekel (Gn 23,16;Jr 32,9). Também pesava-se a prata.

3.14. As primeiras moedas citadas no AT: as dracmas persas de ouro, cunhadas após 517 a.C. por Dario I (os dáricos). Pesava uma dracma de ouro 8,4 gramas (Esd 2,69;Ne 7,70-72). Circulavam na Judéia também as moedas de prata de Atenas. Ainda: os siclos de prata da Pérsia (5,6 gramas) e as moedas yehud, cunhadas na Judéia. A proporção prata/ouro para troca era: ouro = 1 / prata = 13.

> Com uma dracma de ouro compravam-se 300 litros de cevada: daí que as moedas de prata eram mais práticas no uso cotidiano graças a seu valor menor.

3.15. Por que Dario mandou cunhar moedas?
. Heródoto informa: no tempo de Ciro e de Cambises não havia deteminações fixas sobre o tributo devido pelas províncias ao império persa. Dario criou um sistema que permitia calcular receitas e despesas e regularizou os tributos com a criação da moeda.

3.16. Os moradores da Judéia não tinham minas de prata. Assim, vendiam seus produtos agrícolas (excedentes ou não) e adquiriam prata (Ne 5,4). Segundo Heródoto, a V satrapia, à qual pertencia a Judéia, pagava à Pérsia 350 talentos de prata por ano.

3.17. Conseqüências: os agricultores judeus precisavam diminuir o número de familiares que viviam de renda e produzir bens que dessem mais lucro. Vendia-se cevada e derivados da oliveira e da videira e gado. Não havendo grande produção de cevada na Judéia, o que compensava era o cultivo de oliveiras e parreiras. Para vender o excedente dependiam de negociantes estrangeiros.

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