sábado, 3 de fevereiro de 2007

Fundamentalismo: um modo de estar no mundo

Vira e mexe, passa boi passa boiada, demora... mas, como não há nada como um dia depois do outro, o que escrevo na Ayrton's Biblical Page e no Observatório Bíblico, acaba, de vez em quando - embora não seja sempre, nem freqüente, muito menos dominante, ainda bem! - provocando reações fundamentalistas de determinados leitores indignados com a leitura acadêmica ou "científica" da Bíblia.

Certos fundamentalistas atiram para todo lado: na exegese moderna de modo geral; nos exegetas como um grupo de intelectuais que "matam" a Bíblia e que deveriam, portanto, ser silenciados, podados, extintos, em benefício da "verdadeira" Palavra de Deus; nos exegetas que chegam a ser - anacronicamente - comparados aos "doutores da Lei" do NT e responsabilizados, como aqueles (gente, acorda: foram os romanos!), pela morte de Jesus; nos exegetas "críticos" e destruidores da verdade; na ciência moderna como compreensão inadequada e até mesmo descabida da realidade; na razão humana como negação da fé... Reações que sempre procuram afirmar sua legitimidade com citações da Bíblia, com leituras literalistas dos textos bíblicos (uma tradução perrengue pode algum dia ser considerada texto literal?)... e por aí afora.

Acabo de chegar de mais uma reunião do grupo dos Biblistas Mineiros, ocorrida ontem em Belo Horizonte, reunião de dia inteiro, muito proveitosa, onde, entre outras coisas, discutimos o tema de nosso próximo número da revista Estudos Bíblicos publicada pela Vozes. Que tratará da questão dos métodos de leitura da Bíblia. E de sua necessidade. E, é claro, em nosso estudo, mesmo que captada apenas com o canto do olho, aparecerá a análise do modo fundamentalista de ver a realidade. Modo que recusa como necessária qualquer metodologia exegética porque acredita ter acesso direto e exclusivo ao significado do texto bíblico.

Se esse pessoal lesse Kant e soubesse da distinção entre "noumenon" e "fenômeno". Se esse pessoal lesse física quântica e descobrisse o quanto a realidade é diferente do que aparenta ser. Ah, mas não lê. E nem relê! Já dizia o grande R. Barthes: Quem não relê um texto, lê, em todos os textos, sempre o mesmo texto.

Quer exemplos? Leia nos comentários dos posts do Observatório Bíblico aqui e aqui.

Recomendo a releitura - quem não relê, já sabe, não? - do post que escrevi em 7 de janeiro de 2006: Fundamentalismo: um desafio ecumênico.

Além da bibliografia ali citada, vale a pena ler também:
BENEDETTI, L. R. Fundamentalismo: novidade? Cadernos de Teologia, Campinas, n. 3, 1997, p. 52-60.
BROWN, R. E. O significado crítico da Bíblia. São Paulo: Loyola, 1981, 150 p.
DIAS DA SILVA, C. M., com a colaboração de especialistas, Metodologia de exegese bíblica. 3. ed. São Paulo: Paulinas, 2009, p.319-323.
KÜNG, H.; MOLTMANN, J. A Bíblia no conflito das interpretações. Concilium, Petrópolis, v. 158, n. 8, 1980, 123 p.

7 comentários:

Anônimo disse...

Caro Airton,

Confesso que achei um absurdo os comentários fundamentalistas que foram feitos a respeito de suas postagens em seu blog. A leitura e estudo acadêmico da Bíblia foram passos importantes para a compreensão dos textos. E mesmo bem estudados, os exegetas e estudiosos da Bíblia são desafiados pela dinâmica do texto, de sempre fazer reflexões novas em nossas releituras. Comentários fundamentalistas em nada contribuiem para o diálogo e o respeito às diferenças. Ainda mais para duvidar de sua sabedoria após tantos anos de dedicação aos estudos bíbicos. Parabéns pelo seu blog.

Um abraço, Rômulo Luiz - ES

airtonjo disse...

Rômulo,

Obrigado pelas observações. É sempre muito estimulante ouvir quem tem discernimento.

Defendo que no Brasil os nossos esforços devam ser em prol de um maior aprofundamento bíblico, tanto no mundo acadêmico quanto no âmbito popular, com todos os recursos de que dispomos, infelizmente ainda tão escassos.

A contribuição que acredito poder dar com minha página e com o biblioblog tem sido pensada a partir destes parâmetros.

Veja o próximo post: fiquei muito contente com a menção que Jim West fez do Observatório Bíblico como um blog que vale a pena ser lido.

Anônimo disse...

Prezado Airton:

Se você fosse tão bom em português como é em latim, não extrapolaria o termo "fundamentalista" usando como um termo tão banal como os que matam em nome de Deus e assim são chamados, quando deveriam apenas serem TERRORISTAS.Fundamentalista é aquele que tem um fundamento e, se o FUNDAMENTO é motivo maior da SALVAÇÃO do mundo... CHAMEM-ME DE FUNDAMENTALISTA, pois o meu FUNDAMENTO é JESUS, seja como DOGMA ou não. NUNCA O FAREI DE MENTIROSO, usando a sua PALAVRA para fins de engrandecimento pessoal, pois quem assim agiu foi um elemento de súcia escabrosa que tem o epíteto LUCÍFER! E QUE TEVE MUITOS SEGUIDORES (1/3 DOS ANJOS DO CÉU)(Rômulo). Você não gosta de críticas, apenas de ELOGIOS, numa afronta à Bíblia de que tanto ESTUDA e não entende...

6/2/07 10:03 AM

Anônimo disse...

e impressionante como agradece elogios no entanto criticas construtivas ficam de fora de seus questionamentos, porq sera? de que temes? não responde pq?

Charles Coffer Jr. disse...

Estou muito grato pelo trabalho que voce tem dedicado ao longo desses anos no seu blog.

Realmente, também acredito que o fundamentalismo é um entrave para o desenvolvimento cientifico e pesquisas na Biblia.

O fundamentalista possui todo o direito do mundo de atribuir certos textos aos sobrenatural, mas também deve respeitar aqueles que usam o mesmo texto para pesquisas seculares. Da minha parte, creio ser bastante proveitoso estudar a Biblia do mesmo modo que se estuda qualquer outro documento histórico.

Jorge Malabia disse...

Por, gentileza, você pode me dizer de onde Barthes é a citação de Barthes?

airtonjo disse...

Jorge,

Li este livro de Roland Barthes, S/Z, em italiano, pois, naquela época estava estudando na Itália e o livro estava mais acessível nesta língua (livros em italiano eram mais baratos do que em francês!). Minha citação é livre, por isso não coloco aspas. Mas a tradução italiana, feita por Lidia Lonzi, diz:

"Coloro que fanno a meno di rileggere si costringono a leggere dappertutto la stessa storia" (p. 20).

O contexto em que aparece a citação:
"La rilettura, operazione contraria alle abitudini commerciali e ideologiche della nostra società, che raccomanda di 'buttar via' la storia una volta che è stata consumata ('divorata'), perché si possa passare a un'altra storia, comprare un altro libro, e che è tollerata solo in certe categorie marginali di lettori (i bambini, i vecchi e i professori) è qui proposta in partenza, giacché essa sola può salvare il testo dalla ripetizione (coloro que fanno a meno di rileggere si costringono a leggere dappertutto la stessa storia), lo moltiplica nella sua diversità e nella sua pluralità..." (p. 20).


Tradução italiana: S/Z. Torino: Einaudi, 1973, 251 p. [edição atual: 1981, 251 p. - ISBN 880652027X]

Original francês: S/Z. Paris: Seuil, 1970, 277 p. [edição atual: 1976, 288 p. - ISBN 9782020043496]

Tradução em português: S/Z. Lisboa: Edições 70, 1999, 199 p. - ISBN 972441020X

Roland Barthes nasceu no dia 12 de novembro de 1915, em Cherbourg, Normandia e faleceu no dia 23 de março de 1980, em Paris, França. Roland Barthes (1915-1980) a été directeur d’études à l’École pratique des hautes études (« sociologie des signes, symboles et représentations ») avant d’occuper en 1976 la chaire de sémiologie littéraire au Collège de France.

Sobre o livro, diz a Editora Einaudi:
Elaborazione di un seminario tenuto alla Ecole pratique negli anni 1968-69, S/Z è la lettura che Barthes ha proposto della novella Sarrasine di Honoré de Balzac. Ma l'interpretazione critica si avvia immediatamente all'insegna di avvincenti, e ancora molto attuali problemi di metodo. Superando lo strutturalismo scolastico, che si limita allo smontaggio di un testo partendo dal presupposto che esso costituisca sempre una totalità chiusa e sufficiente a se stessa, Barthes in questo saggio intende invece valutare la pluralità di cui è fatto il testo, lo spessore dei codici che lo attraversano, partendo dall'articolazione delle "voci" di cui è tessuto: l'azione, la verità, la scienza, la persona, il simbolo. Luogo a cui si accede da più entrate, il testo chiede così la collaborazione attiva del lettore, che non è più soltanto consumatore ma produttore di ciò che legge. Questa ipotesi, e l'immagine "frammentaria" della nebulosa, del labirinto che avvolge i personaggi e il discorso narrativo, complici gli uni dell'altro, fanno intravvedere i temi che Barthes tratterà nel Piacere del testo (1973) e nei Frammenti di un discorso amoroso (1977), esprimendo ancor più in profondo i "turbamenti" della rappresentazione, i segni della "differenza", la crisi di un ordine.

Leia mais sobre S/Z aqui.

Um abraço.

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