quinta-feira, 11 de janeiro de 2018

Sobre a decifração da escrita cuneiforme

A história da decifração da escrita cuneiforme, que se encontra detalhada e saborosamente contada em Bottéro, Il était une fois la Mésopotamie, tem algumas datas significativas: 

a) entre 1772 e 1778, Carsten Niebuhr publica as inscrições monumentais mandadas fazer pelos reis persas Dario e Xerxes em Persépolis (no território atual do Irã), em três línguas 

b) em 1803, Georg Grotefend, comparando as três escritas, identifica nelas os nomes de reis persas escrita como Dario e Xerxes, bem como algumas fórmulas, dando os primeiros passos para a decifração 

c) em 1846, Henry C. Rawlinson completa a decifração dos quarenta e dois signos da primeira escrita, mandada fazer por Dario (522-486), na rocha de Behistun, a língua que ela registra, da família indo-europeia, sendo identificada como uma modalidade antiga do persa 

d) a segunda escrita é decifrada na sequência, contando com uma centena de signos, numa língua que se convencionou chamar de elamita, porque esteve durante muito tempo em uso no sudoeste do Irã, outrora chamado de Elam, território conquistado pelos soberanos aquemênidas 

e) avanços na decifração da terceira escrita se processaram paulatinamente por toda a primeira metade do século, em virtude do trabalho de muitos pesquisadores, até que, em 1857, a Royal Asiatic Society, de Londres, enviou o mesmo texto a quatro assiriólogos Rawlinson, Hincks, Talbot e Oppert, pedindo que cada qual o traduzisse isoladamente e, como as traduções coincidiam, entendeu-se que as bases para a decifração eram consistentes, essa terceira língua, da família semítica, tendo sido chamada de acádio a partir do nome da capital do império de Sargão (2334-2279 a. C.), a cidade de Akkad (o texto da prova de 1857 era uma inscrição do rei assírio Teglatphalassar, que reinou entre 1114-1076 a. C.) 

f) finalmente, uma outra língua seria ainda identificada nas inscrições cuneiformes espalhadas por toda parte, o sumério, que não tem relação com nenhuma outra língua conhecida, as datas principais sendo as da publicação de duas obras, Les inscriptions de Sumer et de Accad, de François Thureau-Dangin, em 1905, e Grundzüge der sumerischen Grammatik, de Arno Poebel, em 1923. Desde então, decifrado o cuneiforme, constatou-se que ele foi usado também para escrever um total de onze línguas de diferentes famílias sumério, acádio, eblaíta, elamita, persa, hurrita, hitita, palaíta, luvita, urartiano e ugarítico, usadas em todo o Oriente Médio e na Ásia Menor, da atual Turquia até o Egito.

Texto da nota 20 da Introdução de BRANDÃO, J. L. Ele que o abismo viu: Epopeia de Gilgámesh. Belo Horizonte: Autêntica, 2017, 336 p. - ISBN 9788551302835


Leia Mais:
Cuneiforme

sexta-feira, 5 de janeiro de 2018

Os três reis magos

Está na hora de se ler o meu artigo

A visita dos Magos: Mt 2,1-12

Presépio

Neste artigo, escrito em 2002 e atualizado em 2016, procuro responder algumas perguntas, como:
  • Qual método de leitura usar?
  • Qual é o sentido de Mt 1-2?
  • Quem é Herodes Magno?
  • Qual é a data do nascimento de Jesus?
  • Jesus nasceu em Belém ou em Nazaré?
  • Quem são os Magos e que papel exercem no evangelho de Mateus?
  • Quais são as principais hipóteses sobre a estrela de Belém?

Leia Mais:
As Viagens dos Reis Magos
A Folia de Reis
Por que o Natal é celebrado em 25 de dezembro?
Presépios brasileiros

quarta-feira, 3 de janeiro de 2018

Israel Finkelstein fala sobre arqueologia e história

 A Proper Answer: Reflections on Archaeology, Archaeologists and Biblical Historiography

By Israel Finkelstein

ANEToday is pleased to present comments by noted archaeologist Israel Finkelstein, delivered at a joint session of ASOR and the Society of Biblical Literature titled “Rethinking Israel” (Boston, November 2017). The session honored Professor Finkelstein’s many contributions and presented him with a festschrift, Rethinking Israel, Studies in the History and Archaeology of Ancient Israel in Honor of Israel Finkelstein, edited by Oded Lipschits, Yuval Gadot, and Matthew Adams.

LIPSCHITS, O. ; GADOT, Y. ; ADAMS, M. (eds.) Rethinking Israel: Studies in the History and Archaeology of Ancient Israel in Honor of Israel Finkelstein. Winona Lake, IN: Eisenbrauns, 2017

I wonder what is going on? Does standing here in front of you, in a joint session of ASOR and SBL, which celebrates Rethinking Israel, mean that I have been “institutionalized”? This is a terrifying, compromising moment, which I can hardly contain. The whole thing is probably a mistake and therefore I am going to do my best this evening in order to de-institutionalize myself.

I have been in the field for 46 years, I have taught for 41 years and from the book that we are celebrating today, I learn that my academic record is not the worst, which means that I have earned my right to reflect on archaeology and archaeologists. Since this is a joint session of ASOR and SBL, and in order to comply with much of the contents of the book, I will put the spotlight on biblical historiography. I know that the event calls for me to behave myself and play the nice guy. Indeed, I will do my best to keep it light, but you cannot expect me, the man who has been described for so many years as an enfant terrible, to suddenly become a stately gentleman. 

(...)

In the field of archaeology of Israel and neighboring regions in the Bronze and Iron Ages, my ultimate goal is reconstructing history. I therefore see myself as a “historian practicing archaeology.” One of my closest associates has made a career of describing himself as a technician who brings the dry facts of archaeology to the high court of history and historians. Well, I have never been a technician and if there is a high court, I am confident enough to be a member of the jury. So, with all due respect to changes in the shape of the cooking pot’s rim, whether it is everted or inverted, this is not a topic worthy of devoting one’s life (at least my life) to. Of course, unless the cooking pot sheds light on something bigger in material culture, which in turn leads to better understanding of historical processes.

(...)

I see myself as being lucky on three fronts: to deal with the archaeology of such an important region, to focus on important periods related to the rise of Judeo-Christian civilization, and because of timing. Speaking about timing, I reached the frontline of research into the history of Ancient Israel when the traditional fortress of biblical archaeology started crumbling, enabling one to think differently and freely without being crushed by “authority” – the Thought Police. Many of us were there when the time was ripe; only some of us grabbed the opportunity. Make no mistake, there were endless attempts to stop me and others like me, with all sorts of “tricks and schticks,” some funny and others less so.

(...)

Let me caution you about the three types of academics in our field who are the most menacing to research. First among them is the one who selects the data in advance in order to serve his/her agenda. Here is the modus operandi: Identify a problem, usually a theme central to biblical research; lament how disputed it is and say that you are coming with no agenda – just to look at the facts. Select the data in advance, in order to give you the desired results and then conduct your “study.” Oops – believe it or not – the results fit what you wished to prove from the outset.

Then there is the cultureless ignorant, who boasts about his/her ignorance. Here is how to operate: Make sure that you read nothing and know nothing. Don’t be ashamed of your ignorance; to the contrary, make it the flagship of your work. Endlessly repeat your ignorance in the most provocative way possible. Remember that those whom you are catering to do not care about your ignorance as long as you give them what they want to hear.

Finally, there is the Authority academic who delivers the ideas of others. Here is the mode of operation: Identify a topic in the forefront of research, preferably to do with Ancient Israel. You have little to say, so look for a scholar whose ideas you like. In order not to be accused of plagiarism, attack the author viciously, but then, with a sophisticated twist, sell his/her ideas as your own in a pompous manner. Present yourself as a critical scholar, but cater to church and synagogue.

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Israel Finkelstein

terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Ensaios sobre a Assíria

FRAHM, E. (ed.) A Companion to Assyria. Chichester, West Sussex, UK: Wiley Blackwell, 2017, XIV + 634 p. - ISBN 9781444335934.

FRAHM, E. (ed.) A Companion to Assyria. Chichester, West Sussex, UK: Wiley Blackwell, 2017

A Companion to Assyria is a collection of original essays on ancient Assyria written by key international scholars. These new scholarly contributions have substantially reshaped contemporary understanding of society and life in this ancient civilization.

Eckart Frahm is Professor of Assyriology at Yale University, USA. His main research interests are Assyrian and Babylonian history and Mesopotamian scholarly texts of the first millennium bce. Frahm is the author of numerous articles and five books. In addition, he serves as director of the Cuneiform Commentaries Project.

Leia Mais:
Histórias do Antigo Oriente Médio: uma bibliografia

Biblical Studies Carnival 142

Seleção de postagens dos biblioblogs em dezembro de 2017.

Biblical Studies Carnival for December 2017

Trabalho feito por Phillip Long em seu biblioblog Reading Acts.

segunda-feira, 1 de janeiro de 2018

Análise da narrativa do golpe

A narrativa golpista e os possíveis caminhos para vencê-la

Por Eliara Santana e Juarez Guimarães - Carta Maior: 27/12/2017


Este primeiro artigo inaugura uma série voltada para analisar o poder comunicativo que se formou em favor do golpe e de uma contrarrevolução neoliberal e buscar caminhos para derrotá-lo.

A construção vitoriosa da narrativa do golpe
Antes de tudo começar, havia a elaboração de uma narrativa. Que construiu um enredo. Que projetou para a população um cenário de caos econômico, desordem, perda de qualidade de vida, volta da inflação, turbulência política, corrupção nunca antes vista. Cenário muito bem ancorado em medos que estão sempre povoando a mente do cidadão médio brasileiro (aquele que precisa trabalhar para pagar as contas e não vive de rendas, que acredita em meritocracia e acha que não é beneficiado por políticas públicas): perda do emprego, crise econômica (porque já vivemos muitas), perda do poder aquisitivo (o terror da classe média), inflação galopante, entre outros.

Na recente história do Brasil, que mostra o afastamento de uma presidenta eleita legitimamente com 54 milhões de votos, a construção e a projeção desse cenário jamais poderiam se tornar efetivassem um instrumento vital: a grande imprensa. Não restam mais dúvidas de que o catalisador do golpe que arrancou Dilma Rousseff do poder, em 2016, foi o discurso de informação da imprensa brasileira,  capaz de construir uma narrativa competente que associou os governos petistas a uma “corrupção nunca antes vista” e projetou para a população o cenário de “uma crise econômica sem precedentes”.

Para entender o golpe, precisamos, portanto, entender a narrativa. E precisamos, sobretudo, compreender o seu poder. A narrativa que alicerçou o golpe foi projetada e disseminada pela grande imprensa brasileira, esse grupo formado por sete famílias que dominam a comunicação no país. De que se trata? Como foi construída? Que estratégias discursivas deram a ela tamanha força, capaz de projetar para um país um cenário e dar suporte à derrubada de um governo? Quais são os seus limites? E por quais caminhos é possível vencê-la?


Um processo de construção de sentidos
A narrativa é o processo de contar algo que aconteceu, e a notícia, no discurso de informação, incorpora essa narrativa ao levar as informações sobre um acontecimento a um grande número de pessoas. Portanto, entendê-la como processo, e não como ação, é essencial. A narrativa como ação implica o ato isolado de narrar. Compreendê-la como processo envolve a percepção de que há uma construção de efeitos de sentido. E é isso que se deve considerar quando nos referimos à narrativa que embasou o golpe. Considerar a narrativa como processo em que há construção de efeitos de sentidos implica também considerar que a notícia – esse suporte que conduz a narrativa e a dissemina –não é o simples reportar de fatos/acontecimentos.

Ela é um objeto discursivo engendrado pela máquina de informar que é a mídia corporativa e se reveste de elementos como representações dos atores citados, valores, encenação. A narrativa é, portanto, uma construção argumentativa, cuja função é convencer (o leitor, o espectador, o ouvinte) de algo (um ponto de vista, uma análise, um dito) a partir de um projeto de dizer de um enunciador. As narrativas nos apresentam os acontecimentos, e por meio dos acontecimentos, o mundo. Portanto, servem para organizar nossa percepção de uma realidade que não está ao nosso alcance direto, pois não somos testemunhas oculares dos fatos, nossa percepção é mediatizada, temos acesso às versões trazidas pela mídia. Elas ajudam a formar uma visão de mundo e não são relatos meramente objetivos, posto que incorporam a emoção.

Realidade mediada
As sociedades contemporâneas são sociedades mediatizadas. As notícias divulgadas pela imprensa cumprem o papel de mediar nossa relação com a realidade dada. E essa notícia, tomada como objeto do discurso, se ancora numa linguagem que não é transparente, cujo funcionamento deve ser percebido para além das regras formais de uso da língua e das regras técnicas do jornalismo.Na tessitura do discurso, o sentido se materializa nos caminhos dados pelas formas do texto, ele se constrói num processo de transformação e ressignificação dos acontecimentos, por meio de qualificações, descrições e argumentações. Portanto, a narrativa jornalística, que projeta um ethos de objetividade e pretensa neutralidade, tem viés, valores, pontos de vista, representações e dissimulações das vozes presentes que, muitas vezes, se ocultam sob estratégias discursivas bem construídas.

E assim se deu com a narrativa pró-golpe que se consolida no discurso de informação da grande imprensa brasileira a partir de 2013, com duas marcações fundamentais para a produção de efeitos de sentido: as representações e os repertórios. O  ator central, de maior poder comunicativo, foi o Jornal Nacional, da Rede Globo de Televisão, que trabalhou de modo sistemático para consolidar essa narrativa.

Representações
Personagens de que tratam as notícias são nomeados, caracterizados e recebem predicados, mesmo que não de forma explícita, mas de forma simbólica, até mesmo na hierarquia das notícias ao longo da edição. Assim, por exemplo, as entradas em relação a Dilma Rousseff, a depender do momento discursivo, sobretudo no período da eleição de 2014, eram antecedidas e quase sempre secundadas por notícias negativas de economia (com as devidas referenciações: crise, pibinho, déficit). Portanto, reforçava-se a alusão à incompetência. Em relação a Lula, a alusão prevalente era a da corrupção, com a mesma estrutura.

Os referentes utilizados na abordagem dos temas principais da  política (as alcunhas para determinados assuntos sempre remetendo à corrupção - Petrolão, Mensalão) e da  economia (Brasil em crise, Crise, Recessão) e para determinados atores (“petistas”, “corruptos”, “mensaleiros”) se repetiam como marcas que faziam referência a determinados grupos e/ou sujeitos e instauravam um lugar (da não corrupção, do cidadão de bem, do Brasil verde e amarelo) em oposição a outro (da corrupção, da sujeira na política).

Os problemas econômicos no Brasil (alta de preços, menor crescimento), circunstanciais em alguma medida, deixam de ser problemas econômicos, que agregam um conjunto de sentidos,e se convertem nos marcos “Crise sem precedentes”, “Recessão”, num outro campo de sentidos que integra um sistema de valores específico. Na narrativa jornalística, o movimento de nomear e predicar,qualificando, personagens e acontecimentos, alimenta o que Bakhtin denominou de uma “ideologia cotidiana”, aquela que parte de um sistema de referência (a mídia corporativa) e se insere nas instâncias da vida cotidiana (o bar, o salão, o supermercado, as famílias).

Repertórios centrais

Direcionar o olhar para que o receptor da notícia possa perceber as coisas do mundo é uma estratégia de que se utiliza o discurso de informação no processo de produção de sentido. O discurso utiliza estratégias que direcionam o olhar, delimitam os sentidos possíveis, conduzem a interpretações. Assim, a função primordial da mídia corporativa não é informar, mas antes transmitir sistemas de valores.

Nesse sentido, os dois grandes repertórios, ou temas, que sustentaram a narrativa pró-golpe foram:

1. Corrupção: sempre associada a determinado grupo, ligado à candidata à reeleição (a então presidente Dilma Rousseff), o que pode ser percebido pela marcação temporal – a corrupção é sempre mencionada em referência a determinado período histórico, levando a uma associação em termos de localização temporal.

2. Crise econômica: como elemento que perpassa toda a produção dos conteúdos e das informações, até mesmo em chamadas e manchetes que não se referem a esse aspecto em particular. Como a crise é marcada discursivamente? Pela menção direta a problemas econômicos, pela dimensão negativa no tratamento de certos dados econômicos, pela ressignificação de termos e referentes (“pibinho”), pela descontextualização marcada (a crise não se ligava a nenhum fator externo ou contextual – era um elemento solto e sozinho no universo da notícia global).

A dimensão desses repertórios na narrativa trazida pelo Jornal Nacional foi devastadora, pois eles consolidaram a perspectiva de que o país estava assolado por corrupção, em decorrência da ação de um determinado grupo, e por uma grave crise econômica, também em função da incompetência desse mesmo grupo. Os dois temas se comunicavam em uma mesma direção de sentido pela visão de mundo neoliberal: Estado corrupto, inchado, ineficiente e gastador.

Momentos discursivos
Perceber estratégias discursivas que compõem uma narrativa requer a observação de padrões de uso da linguagem que são recorrentes e orientam o olhar. É nesse sentido que é preciso marcar os momentos discursivos, considerados como espaços histórico-temporais em que se observam, na construção do discurso de informação, características e estratégias discursivas específicas e marcadas, que alimentam e constroem padrões discursivos, compondo a narrativa pró-golpe.

 Os momentos discursivos são:

1: Jornadas de Junho 2013

2: Eleições 2014 – janeiro a outubro/Pós-eleições até votação do impeachment na Câmara (outubro/2015 a maio/2016)

3: Período de afastamento de Dilma Rousseff até votação de afastamento definitivo pelo Senado (maio a agosto/2016)

A observação das estratégias e dos padrões presentes na narrativa da mídia corporativa, considerando-se veículos representantes da grande imprensa comercial, estabeleceu a projeção de um determinado cenário econômico e político no país. Dessa forma, as construções simbólicas (presentes nas estruturas linguísticas das chamadas e reportagens econômicas), repetidas de maneira constante, consolidadas em valores simbólicos, possibilitaram a criação de identificações e a formação de um quadro negativo de percepção do real em relação a determinado contexto e a determinados atores. De um modo geral, nas notícias veiculadas pelo Jornal Nacional nesse período dividido em três momentos, percebe-se um padrão narrativo, com variações nos momentos, marcado por:

- Ênfase na dimensão negativa: Observamos o uso de palavras, expressões e termos com referenciações negativas para os sujeitos, além de uma dimensão referencial negativa para determinados temas – como economia e política, prioritariamente, com associações reiteradas a crise, tendo força o uso de termos como crise, caos, recessão,

- Composição de uma cena enunciativa: a emoção no discurso é muito bem trabalhada para que o leitor interaja com a narrativa. Um bom recorte é o “jogral” apresentado por William Bonner e Renata, na divulgação dos áudios vazados de uma conversa entre o ex-presidente Lula e a então presidenta Dilma. Os trechos recortados não são projetados na tela nem tampouco apenas lidos: eles são interpretados. Saem da cena os locutores e entram a representação de Lula e Dilma no diálogo, com as supostas entonações pertinentes.

- A dramatização da informação enunciada: a emoção na narrativa não deixa espaço para a contextualização histórica. E rouba a cena.

- O silenciamento como estratégia: há um projeto de dizer que utiliza o silenciamento como estratégia de produção de sentido. Esse projeto de dizer orienta a materialização do discurso (querer dizer), construindo uma estrutura de “dizer X” para “não dizer Y”. Assim se comporta o Jornal Nacional na edição que mostra o encerramento das Olimpíadas, sendo Michel Temer ainda interino. A sua ausência da cerimônia – por temer as vaias – foi discretamente citada, em poucos segundos, na voz de um jornal estrangeiro. Prevaleceu o espetáculo. Ao silenciar assuntos/temas/abordagens, a mídia reconfigura o espectro político e econômico, pois há sentidos no silêncio. O silenciamento, política editorial da mídia corporativa, como descreve Eni Orlandi, limita o percurso dos sentidos pelo leitor, pelo espectador.

Uma marca importante para perceber como o silenciamento se torna política editorial – e não simples lapso ou ocultação – é o tempo dedicado à notícia. Em 16 de setembro de 2014, por exemplo, a ONU divulga em seu relatório que o Brasil, pela primeira vez na história, está fora do mapa da fome. Era o governo Dilma Rousseff, já em período eleitoral. O Jornal Nacional não dá chamada de abertura e dedica 38s à notícia na edição interna, antecedida por uma notícia sobre onda de violência, que recebe 1min15s. Nessa mesma edição, a notícia sobre o tempo recebe 37s. Silenciar não é apenas ocultar, é fazer calar, retirar de um acontecimento sua dimensão. Num país desde sempre assolado pela fome, é de se espantar que essa chamada não tenha entrado na abertura do jornal.

4: Ressignificação de temas, dando origem a novos campos de sentido (petrolão – petróleo corrupção)

O discurso produz sentidos e direciona interpretações, o que se liga a um real histórico, ao contexto, às disputas de poder engendradas na sociedade. Enfim, a palavra não é neutra, e os padrões nos mostram a continuidade da narrativa, que elabora seu fio condutor para que o espectador produza sentido. Uma ideologia política, nos lembra Jean-Pierre Faye, coloca em sua origem uma narração. A marcação repetida, a ocorrência sistemática de termos e personagens, a construção cuidadosa da cena enunciativa, tudo conspira para a produção de sentidos. E tudo, na narrativa da mídia corporativa, conspirou para o sucesso do golpe.


Eliara Santana é doutoranda em análise do discurso PUC Minas/CAPES

Juarez Guimarães é professor de Ciência Política da UFMG e coordenador do Centro de Estudos Republicanos Brasileiros (Cerbras)

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Feliz Ano Novo, por Luis Nassif

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Desejo a todos os visitantes do Observatório Bíblico e da Ayrton's Biblical Page um Feliz 2018!

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quarta-feira, 27 de dezembro de 2017

O livro de Ageu e a reconstrução do Templo

O artigo

The Book of Haggai and the Rebuilding of the Temple in the Early Persian Period

By John Robert Barker - Catholic Theological Union, Chicago

The Bible and Interpretation - December 2017


Until recently, the period of biblical history known as the postexilic, or Persian, era has suffered from relative neglect by biblical scholars. True, there are have always been those scholars who dedicated their lives to the study of the books that reflect this period – Ezra, Nehemiah, and the prophets Haggai, Zechariah, and Malachi – but it is only in the last few decades that Persian period studies have come into their own, giving rise to a vigorous and rich field of inquiry, the fruits of which have only begun to emerge. One reason for the relative neglect had been that we simply did not have much information about this period, which stretches from the end of the Babylonian exile (c. 539 BCE) to the advent of Alexander the Great and the beginning of the Hellenistic period (c. 330 BCE). Compared to the abundant archaeological and historical information available for the centuries before and after the Persian period, only a little evidence from outside the Bible was available to shed light on the two centuries after the exile. Yet recent decades have seen a surge in archaeological work focusing on this period that has provided a wealth of insights into economic, political, social, and religious realities in the Persian province of Yehud (the former kingdom of Judah). On the heels of this increased information has come an increased interest by biblicists. Now Persian period studies of all kinds are flourishing and contributing greatly to our appreciation of the challenging and contentious, yet theologically productive, period of the 6th–4th centuries.

One example of these studies is the work that has been done on the book of Haggai. This short book of thirty-eight verses focuses solely on the reconstruction of the Jerusalem temple that had been destroyed by the Babylonians in 586 BCE. In the past, the book’s completely time-bound topic and lack of beautifully poetic, theologically rich passages had led to an unfavorable assessment of both book and prophet by many scholars and theologians. It was not that long ago, for example, that the authors of an introduction to the Old Testament stated that “Haggai is called a prophet, but compared to the pre-exilic prophets he is hardly deserving of the title…. his mind was concentrated only on earthly things…. His whole mental outlook and utilitarian religious point of view…is sufficient to show that he can have no place among the prophets in the real sense of the word.” (Oesterley & Robinson, 1961, pp. 408-9) This particularly blunt evaluation appears to have been shared by others, leading to the book’s general neglect. It simply did not seem to have much to offer the serious student of the Bible or, for that matter, of the history behind it.

But in recent decades the book of Haggai has been subjected to serious and sustained scrutiny by scholars such as Elie Assis and John Kessler, whose excellent work along with others has shown this short book to be much more interesting and complex than previously thought. My own work on Haggai, which engages the text through rhetorical analysis, joins this effort by seeking to reexamine the persuasive intention and strategies of the text (Barker, 2017). Rather than being simply a dull record of an uninteresting prophet and his mundane message, the book of Haggai is in fact a carefully composed and complex counterargument to serious objections to the reconstruction of the temple in 520 BCE. It is also an interpretation of what it meant either to accept or to reject the prophetic call to rebuild. This means that a careful study of the book as a persuasive text can contribute to our understanding of both the book and the nature of the debates surrounding the reconstruction of the temple in Jerusalem in the early years after the exile. This in turn contributes in a specific way not only to the emerging portrait of the early Persian period but also to our appreciation of the nature and strength of the struggles and conflicts among the people who considered themselves the surviving “remnant” of Israel in that time and place.



O livro

BARKER, J. R. Disputed Temple: A Rhetorical Analysis of the Book of Haggai. Minneapolis: Fortress Press, 2017, 314 p.  - ISBN 9781506433141.
 
BARKER, J. R. Disputed Temple: A Rhetorical Analysis of the Book of Haggai. Minneapolis: Fortress Press, 2017
The prophet Haggai advocated for the rebuilding of the temple, destroyed by Babylon, in the tumultuous period of reconstruction under Persian dominion; so much is evident from a surface reading of the book. John Robert Barker goes further, using rhetorical criticism of the prophet‘s arguments to tease out the probable attitudes and anxieties among the Yehudite community that saw rebuilding as both undesirable and unfeasible. While some in the community accepted the prophet‘s claim that YHWH wanted the temple built, others feared that adverse agricultural and economic conditions, as well as the lack of a royal builder, were clear signs that YHWH did not approve or authorize the effort. Haggai‘s counterarguments-that YHWH would provide for the temple‘s adornment, would bring prosperity to Yehud once the temple was built, and had designated the Davidide Zerubbabel as the chosen royal builder-are combined with his vilification of opponents as unclean and non-Israelite. Barker‘s study thus allows Haggai to shed further light on the socioeconomic conditions of early Persian-period Yehud.

quarta-feira, 20 de dezembro de 2017

A entrevista de Lula

A entrevista de Lula à mídia - por Luis Nassif [em 8 partes]

Lula concedeu entrevista para a imprensa agora de manhã, no Instituto Lula.

Participaram 14 jornalistas da mídia nacional, de blogs e de agências internacionais.

Inscrições reais de Babilônia

The Royal Inscriptions of Babylonia online (RIBo) Project


Porta de Ishtar na cidade de Babilônia. Pergamonmuseum, Berlin
 
From the start of the Second Dynasty of Isin (1157-1026 BC) to the end of the Neo-Babylonian Dynasty (625-539 BC), over 80 men claimed suzerainty over the land of Sumer and Akkad, an area roughly comprising modern-day southern Iraq; the number greatly increases to about 130 if one also includes the kings of the later Persian and Greek (Macedonian and Seleucid) Periods. These Babylonian rulers, some of whom proudly referred to themselves as the 'king of Babylon' (a title divinely sanctioned by that city's tutelary deity, Marduk), had inscriptions officially commissioned in their names, sometimes to boast about an accomplishment of theirs (often the renovation of a temple or the construction of a palace or city wall) and sometimes to simply indicate that an object belonged to them.

Over 400 Akkadian and/or Sumerian royal inscriptions from these periods survive today. Those texts are preserved on more than 1,800 clay, metal, and stone objects, over half of which date to the reign of the famous Nebuchadnezzar II (604-562 BC). The majority of these are assumed to have been unearthed in the ruins of one of the major cult centers of Babylonia: Babylon, Borsippa, Nippur, Sippar, Ur, and Uruk. Many of the bricks, clay cylinders, clay prisms, clay tablets, paving stones, foundation blocks, beads, etc. discovered through scientific archaeological excavations or illicit digs have made their way into numerous museum and private collections around the world; some objects, especially those that were too heavy to haul back to Europe or North America, were left and buried in the field by their excavators after their contents were recorded, copied, and/or photographed.

The aim of RIBo, a sub-project of the Official Inscriptions of the Middle East in Antiquity (OIMEA) Project, is to publish in a single place easily accessible and annotated (lemmatized) editions of all of the known Akkadian and Sumerian royal inscriptions from Babylonia that were composed between 1157 BC and 64 BC. RIBo's contents are divided into several sub-projects, generally by "dynasty" or period. The "dynastic" numbering follows that of the Royal Inscriptions of Mesopotamia, Babylonian Periods (RIMB) publications of the now-defunct Royal Inscriptions of Mesopotamia (RIM) Project. The sub-project numbering is as follows:

"Babylon 1" = Kassite Period (1595-1155 BC).
"Babylon 2" = Second Dynasty of Isin (1157-1026 BC).
"Babylon 3" = Second Dynasty of the Sealand (1025-1005 BC).
"Babylon 4" = Bazi Dynasty (1004-985 BC).
"Babylon 5" = Elamite Dynasty (984-979 BC).
"Babylon 6" = Uncertain Dynasties (978-626 BC).
"Babylon 7" = Neo-Babylonian Dynasty (625-539 BC).
"Babylon 8" = Akkadian inscriptions of the Persian Period (538-330 BC), especially the now-famous "Cyrus Cylinder."
"Babylon 9" = Macedonian rulers of Mesopotamia (currently no inscriptions known).
"Babylon 10" = Seleucid era (305-64 BC) official inscriptions written in Akkadian, especially the "Antiochus (Borsippa) Cylinder."


The Royal Inscriptions of Babylonia online (RIBo) Project is a component of Oracc - The Open Richly Annotated Cuneiform Corpus.


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Histórias de criação e dilúvio na antiga Mesopotâmia